Hoje estou aqui para compartilhar com vocês a minha mais recente leitura: O Silêncio das Mulheres (2018), da escritora britânica Pat Barker. Trata-se de uma releitura de Ilíada, o grande clássico da literatura da Grécia Antiga, atribuído ao poeta Homero (928 a.C.-898 a.C.), porém através da perspectiva de uma mulher, normalmente relegada a uma nota de rodapé nos livros de história, a Rainha Briseis.
O título do livro faz referência ao silêncio forçado a tantas mulheres durante a Guerra de Tróia, que eram trocadas ou vendidas como mercadoria ou espólios de guerra. É uma abordagem muito interessante, pois confere voz e agência ao lado dos oprimidos e conquistados. Estamos acostumados a ler sobre os heróis gregos, como Aquiles, Agamenon, Pátroclo e Odisseu. Os contos de mitologia grega engrandecem e idealizam os feitos desses homens. Mas, que tipo de ser humano eles eram? Como eles se comportavam fora dos campos de batalha? E como se relacionavam com as pessoas ao seu redor, amigos e inimigos? E, mais importante para este livro, como eles tratavam as mulheres ao seu redor? Pat Barker reconstrói esse cenário que mistura história, mitologia e ficção, desmistificando a grandeza heróica que envolve esses personagens, representando-os como homens bárbaros, cruéis, levados por ego a certas decisões de bataha que têm grandes consequências, e como homens que usam as mulheres capturadas durantes os cercos a cidades inimigas como meros objetos, ofuscando as suas identidades, transformando-as em escravas.
A rendição de Briseis por Aquiles a Agamenon, afresco, século I dC, agora no Museu Nacional de Arqueologia de Nápoles
Briseis era rainha na cidade grega de Lirnesso. No início do livro, a cidade está cercada pelo exército do temido Aquiles, que solta seu grito de guerra, apavorando as mulheres que estão se escondendo dentro das muralhas da cidade, pois elas sabem muito bem o que aconteceria com elas caso a cidade caísse. E, de fato, a cidade sucumbiu. Todos os homens, independente da idade, foram mortos, as mulheres grávidas foram todas mortas pelo caso de estarem esperando um filho homem, e todas as outras mulheres foram levadas ao exército grego para serem distribuídas como escravas. Briseis viu seu marido e seus irmãos serem assassinados por Aquiles. Como era uma mulher de alto escalão, Briseis foi levada como escrava particular de Aquiles. Portanto, ela foi obrigada a compartilhar a cama daquele que havia dizimado a sua família - um destino que muitas mulheres tiveram que enfrentar.
A queda de TroiaJohann Georg Trautmann (1713–1769)
A partir desse momento, Briseis tem que viver no acampamento inimigo e servir aos soldados, cumprindo qualquer ordem que Aquiles determinasse. Seu único consolo são os poucos momentos em que consegue estar na companhia de outras mulheres. Assim, juntas, elas confortam uma a outra como possível. O acampamento está cercando Tróia, governada pelo Rei Príamo, pai de Páris, que - segundo a mitologia - havia raptado Helena, esposa de Menelau, iniciando a Guerra de Tróia. O interessante é que, apesar de Helena ser um grande nome nas lendas e baladas da Grécia Antiga, ela é apenas uma sombra em O Silêncio das Mulheres, apenas uma silhueta vista à distância por Briseis do acampamento inimigo.
A narrativa é contada na sua maior parte em primeira pessoa por Briseis, que, dessa forma, tem a chance de contar a sua versão da história, negada nos relatos tradicionais. Porém, há capítulos em que o leitor tem acesso à narrativa de Aquiles, em terceira pessoa. O que me parece é que, apesar de Briseis tentar contestar a sua posição de silêncio na história, a narrativa masculina ainda interfere e influencia a sua. Essa decisão da autora me incomodou um pouco, porque parece contradizer a proposta do livro.
Pat Barker
Outro ponto do livro que também me incomou foi a linguagem demasiada informal e moderna em certos momentos, incongruente com o momento em que a história se passa, a Grécia Antiga. Eu entendo que a autora tenha querido aproximar o leitor moderno da história de Briseis, mas, na minha opinião, o resultado me pareceu incoerente. Além disso, o início e o final do livro são bem dinâmicos, enquanto o meio tem um ritmo mais lento.
De qualquer maneira, a leitura foi positiva. Fico feliz por ter lido essa história de agência feminina e de reimiginação da história, desmistificando o ideal do herói grego. Também fiquei interessada em saber mais sobre a Guerra de Tróia e em ler os épicos homéricos Ilíada e Odisséia, os clássicos que dão base ao livro de Barker e de tantos outros. De fato, leitura obrigatória para melhor compreender a produção cultural sobre a Grécia Antiga.
Espero que tenham gostado dessa sugestão de livro!
Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!
Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura: Mansfield Park (1814), de Jane Austen. Austen está entre as minhas autoras preferidas, e há tempo venho me familiarizando com a sua obra. Dos seus seis romances completos, li quatro: Razão e Sensibilidade (1811), Orgulho e Preconceito (1813), Emma (1815) e Northanger Abbey (escrito em 1803, mas publicado postumamente em1818). Desta vez, li Mansfield Park, o romance mais longo e - na minha opinião - mais sóbrio de Jane Austen.
Diferente das heroínas dos primeiros livros de Austen (Marianne Dashwood, Elizabeth Bennet e Catherine Morland), a protagonista de Mansfield Park, Fanny Price, é uma jovem quieta, tímida e passiva - ela tem pouca ou nenhuma agência sobre as suas ações e comportamento, alegrando-se ou sofrendo em silêncio. Fanny é a filha mais velha da família Price. Sua mãe casou-se abaixo da sua condição social e, devido ao número de filhos e despesas, sofre com seu marido para manter a casa. A Sra. Price tem duas irmãs, Sra. Norris e Lady Bertram, que vivem uma situação melhor devido as suas escolhas de casamento. Lady Bertram é casada com Sir Bertram, tem quatro filhos (Thomas, Edmund, Maria e Julia) e mora na majestosa Mansfield Park. Como uma maneira de auxiliar a sua irmã, Lady Bertram convida Fanny a morar em Mansfield Park, que se torna uma companheira e ajudante de sua tia. Fanny tinha apenas 10 anos quando se mudou, deixando a simplicidade do seu lar para trás e aprendendo a viver em um mundo de boas maneiras e luxo. Sua natureza humilde e honesta não a deixa esquecer suas origens, no entanto, sendo muito grata aos seus tios pela oportunidade que lhe ofereceram de uma educação superior.
Fanny sewing (artist C E Brock, 1908)
Os anos se passam e Fanny já é uma jovem mulher. Seus primos praticamente a ignoram, deixando-a em seus cômodos - cuja lareira estava sempre sem lenha para não acostumá-la com o luxo incompatível com sua proveniência. Quem se certificava de que Fanny não recebia nenhum agrado dispensável era sua terrível tia Norris, uma viúva que se gabava de viver sempre em economia. A única pessoa em Mansfield Park que dava atenção a Fanny era seu primo Edmund, por quem Fanny secretamente desenvolveu sentimentos amorosos - mesmo que ele apenas a enxergasse como uma irmã.
Um dia, durante a ausência do Sir Bertram, que estava cuidando de seus negócios em Antígua, a família recebeu a visita de novos vizinhos: os jovens irmãos Mary e Henry Crawford, vindos de Londres. Eles trouxeram consigo a energia e criatividade da cidade, que contrastava com a pacatez de Mansfield. Tom, Maria e Julia logo se animaram com a presença dessas figuras e foram convencidos a montar uma peça de teatro. Esta parte do romance é muito interessante, pois ilustra bem a maneira como os Crawford desestabilizam a harmonia da casa, trazendo caos e agitação aos moradores. Participar de uma peça teatral e atuar - principalemente em uma peça de amor, como eles queriam - era considerado imoral pelos mais conservadores. Edmund e Fanny foram contra, sabendo que Sir Thomas desaprovaria a atividade. Contudo, Edmund, mais e mais cativado pela beleza e simpatia de Mary Crawford (o completo oposto de Fanny), se deixa levar e se une ao projeto. Fanny fica chocada como o galante Henry Crawford flerta abertamente com suas primas, mesmo sabendo que uma delas estava prometida ao Sr. Rushworth. Mansfield Park vira de pernas para o ar enquanto os jovens a transformam em um enorme palco, até que a volta repentina de Sir Bertram põe um fim ao espetáculo.
Mary Crawford
Fanny Price e Henry Crawford
Porém, a harmonia de Mansfield Park se quebrou e a teatricalidade da atmosfera teatral improvisada tomou conta da vida e relações amorosas dos moradores e visitantes. Depois da oportunidade de atuar diferentes papéis e de refletir, mesmo que inconscientemente, sobre diferentes possibilidades, ninguém é mais o mesmo - com exceção de Fanny, que permanece resoluta em seus princípios morais. Sir Bertram percebe o valor de sua sobrinha e a faz se sentir mais e mais um membro da família e residente de Mansfield Park.
O poder de Fanny é o poder da estabilidade - enquanto os outros personagens se perdem em conflitos de amor, casamentos infelizes e fugas irracionais, Fanny permanece correta e humilde. Sua paciência é testada quando o galanteador Henry Crawford quer fazê-la apaixonar-se por ele e Mary Crawford se aproxima mais e mais do seu amado Edmund. Apesar de não ser vivaz e espirituosa como Elizabeth Bennet ou Emma Woodhouse, Fanny Price consegue sua recompensa por se manter fiel a seus padrões morais e a sua família em Mansfield Park.
Eu devo confessar que a leitura desse livro foi um tanto quanto arrastada, bem diferente dos outros livros de Austen que eu li. Os parágrafos são longos e há poucos diálogos. O enredo fica mais empolgante durante as preparações para a peça teatral e no final do livro, quando há uma intensa troca de cartas entre Fanny e outros personagens. Porém, no restante do romance, o leitor chega a ficar incomodado com os princípios inabaláveis de Fanny e sua falta de energia ou criatividade, que prefere a quietude e imobilidade do campo à mutação e novidade da cidade, personificados por Mary e Henry.
Jane Austen
O editor de Manfield Park da Penguin English Library, Tonny Tanner, afirma que esse livro foi escrito em uma fase diferente da vida da autora. Depois de se mudar da casa onde nasceu após a morte do seu pai e de ter sofrido uma desilusão no amor após a morte repentina de um pretendente, Jane Austen se tornou mais sóbria, tem uma relação menos idealizada com o amor e, ao ver o seu país mudando drasticamente com a revolução industrial, reflete sobre a influência dos vícios do ambiente urbano na moral humana.
Espero que vocês tenham gostado dessa dica de leitura.
Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!
Hoje eu venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura, que, aliás, é um livro que já estava em minha lista há realmente muito tempo. Eu li O Senhor dos Anéis quando eu ainda estava no colégio, e simplesmente me apaixonei pelo universo e estilo de escrita de J. R. R. Tolkien. Também me apaixonei pelos filmes de Peter Jackson, que me levaram a sonhar em ser diretora de cinema. Esse sonho não se concretizou, mas minha paixão pela atmosfera mágica da Terra Média não diminuiu. Os filmes da saga O Hobbit foram lançados entre 2012 e 2014 (nem acredito que já faz 8 anos da estreia do primeiro filme!) e renovaram o meu interesse no trabalho de Tolkien. Na época comprei uma belíssima edição de The Hobbit no original em inglês. São dois livros, Part 1 e Part 2, em um box de capa dura. Agora o porquê de eu ter esperado até julho de 2020 para iniciar essa leitura, eu realmente não sei explicar! Porém, esse dia finalmente chegou e a experiência foi fantástica!
The Hobbit, or There and Back Again foi o primeiro livro de Tolkien, publicado em 1937 (ele já havia publicado poemas anteriormente), e foi classificado como literatura infanto-juvenil. O livro foi muito bem-recebido pela crítica e pelo público leitor. Ele foi indicado à Medalha Carnegie, um importante prêmio literário para livros escritos para crianças e jovens, e recebeu o prêmio de melhor ficção juvenil pelo New York Herald Tribune. Até hoje, o livro já vendeu mais de 190 milhões de cópias.
O livro se inicia com uma das frases mais conhecidas da literatura mundial (e uma das minhas preferidas!):
In a hole in the ground there lived a hobbit.
(Em um buraco no chão vivia um hobbit.)
O hobbit em questão é Bilbo Baggins, primo de Frodo Baggins, para quem é familiarizado com O Senhor dos Anéis. O buraco no qual Bilbo vivia, contudo, não era um buraco qualquer. Era um lar de um hobbit, e isso significa conforto: uma casa organizada, acolhedora, com muita comida e água quente sempre de prontidão na chaleira para um gostoso chá. Bilbo leva uma vida pacata e sozinha no Condado até receber uma visita inesperada. Por curiosidade, "Uma Festa Inesperada" é o primeiro capítulo de O Hobbit, que contrasta com o primeiro capítulo de O Senhor dos Anéis, intitulado "Uma Festa Muito Esperada". Essa visita inesperada consiste em um grupo de treze anões juntamente do mago Gandalf, que o convencem a participar de uma aventura. O objetivo: recuperar o tesouro que pertence à llinhagem de Thorin, filho de Thráin e neto do grande Rei Thór. A complicação? O tesouro está nas profundezas da Montanha Solitária, que fica do outro lado da perigosa floresta Mirkwood e guardada pelo dragão Smaug.
Para seguir nessa empreitada, Bilbo tem que deixar para trás os confortos do seu lar no Condado, mas ele terá como reconpensa uma viagem inesquecível - apesar de extremamente difícil e fatigante: eles encontram trolls, elfos, aranhas gigantescas, goblins, entre outros seres mágicos. Porém, como o próprio Gandalf diz, Bilbo nunca mais seria o mesmo.
A continuação dessa saga prossegue com Frodo, primo mais jovem e herdeiro de Bilbo, na sua jornada ainda mais perigosa para destruir o anel. A trilogia O Senhor dos Anéis foi publicada entre 1954 e 1955, e traz uma atmosfera mais sombria e séria do que o divertido The Hobbit, porém tão fascinante quanto. Agora que retornei ao universo de Tolkien, quero ler mais obras do professor de Oxford. Graças ao trabalho de editor de seu filho, Christopher Tolkien, que infelizmente morreu em janeiro desse ano, mais textos de Tolkien estão disponíveis para o nosso prazer como leitores.
Espero que tenham gostado de saber mais sobre a minha experiência lendo O Hobbit.
Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!
Hoje venho compartilhar com vocês a minha última leitura, Silas Marner, o Tecelão de Raveloe, de George Eliot. Como os meus estudos de doutorado estão inseridos na produção artística da Inglaterra do século XIX, eu procuro ler as principais obras literárias desse período para ampliar o meu repertório cultural e meu entendimento da Inglaterra Vitoriana, o que inclui, certamente, o legado da grande George Eliot.
George Eliot
Apesar do nome George Eliot sugerir uma figura masculina, George Eliot era uma mulher, nascida Mary Ann Evans em 22 de novembro de 1819 em Nuneaton, uma cidade no norte deWarwickshire, Inglaterra. George Eliot foi o seu pseudônimo escolhido para publicar as suas obras. Como já discutimos aqui no blog, a situação para mulheres escritoras no século XIX não era nada fácil e uma das estratégias encontradas por elas foi o uso de pseudônimos masculinos, como, por exemplo, as irmãs Brontë, ou a publicação anônima, como Jane Austen e Mary Shelley.
Outro motivo para desejar permanecer incógnita era que Eliot mantinha uma relação amorosa com o filósofo e crítico literário e teatral George Henry Lewes, que já era casado. Os dois mantiveram um relacionamento por mais de vinte anos e chegaram a morar juntos abertamente.
Silas Marner foi o terceiro romance publicado por Eliot. Ela decidiu voltar a escrever sobre a Inglaterra rural dos últimos anos do século XVIII e início do XIX enquanto ela ainda trabalhava no grandioso Romola, publicado em série na revista Cornhill Magazine entre Julho de 1862 e Agosto de 1863, e que se passa na Florença do século XV. Silas Marner, com centenas de páginas a menos, foi publicado em volume único em 1861.
O protagonista do romance é o tecelão de linho Silas Marner, que, no início da narrativa, se estabelece na pequena Raveloe. O leitor descobre que Silas havia sido acusado erroneamente de ter roubado os fundos da igreja em Lantern Yard, onde morava anteriormente e onde era respeitado pela comunidade. Silas havia sido vítima de uma conspiração do seu melhor amigo, que invejava o seu papel na comunidade e o seu relacionamento com a jovem Sarah. A igreja da qual faziam parte, uma pequena e conservadora congregação religiosa calvinista, acreditava que Deus ficaria do lado da parte inocente e, durante o processo de investigação do roubo, que tem como base uma espécie de sorteio, Silas é condenado como culpado. Sarah se desencanta com Silas e decide se casar com o seu melhor amigo. Desiludido com sua vida e com um Deus que lhe considerou falsamente culpado, Silas se muda para Raveloe, onde vive uma existência completamente isolada de todos, de domingo a domingo trabalhando sem parar no seu tear. A população de Raveloe o vê com suspeita e as crianças até mesmo tinham medo de passar em frente a sua casa.
Ilustração de Hugh Thomson
Eis, então, que com o passar dos anos, Silas acumula uma grande quantidade de ouro, já que ele trabalhou incessantemente por um longo período e tinha poucos gastos, vivendo uma vida simples e econômica. Seu único consolo era passar as noites em frente ao fogo da lareira, contando a sua pilha de moedas de ouro e prata. Porém, em uma noite de chuva, ao retornar para a sua humilde casa, Silas percebe que o seu dinheiro havia sido roubado, e o seu único de desejo de viver extinguido. Após a fase inicial de desespero, Silas passa a existir, apenas, dia após dia. Até que, por fim, uma visita inesperada muda a sua vida.
Em uma noite fria, uma pobre mulher, Molly, caminha pelas ruas geladas de Raveloe com sua filha de dois anos no colo, abandonada pelo seu marido Godfrey Cass, filho de um importante homem da comunidade e proprietário de terras em Raveloe. Godfrey está arrependido de sua conexão com essa mulher de baixo nível, viciada em ópio, e que o impede de se casar com a bela e inocente Nancy Lammeter. Molly pretende se vingar do seu marido, que neste momento se divertia em uma festa no salão do seu pai enquanto ela passa por dificuldades e desprezo. Ela quer contar a todos a verdade sobre o seu casamento com Godfrey, mas, antes que ela possa completar a sua vingança, ela perece de frio e overdose de ópio em uma viela. A pequena criança órfã de mãe vê a luz do fogo vindo do casebre de Silas Marner, e é para lá que ela se dirige e é esta pequena menina que mudará para sempre o propósito de vida, as prioridades e crenças religiosas do tecelão.
Ilustração de Hugh Thomson
Silas Marner é uma leitura rápida, que te leva ao início do século XIX na área rural da Inglaterra. Porém, além de oferecer uma representação desse período e região, a narrativa oferece ao leitor uma relação com o protagonista, que sofre diversas perdas até poder encontrar o melhor presente da sua vida. O leitor sofre e cria esperanças juntamente com este protagonista, que reaprende a viver em sociedade e finalmente compreende a necessidade de amar e ser amado.
O livro se inicia uma epígrafe do poeta romântico William Wordsworth (1770-1850). Trata-se de um trecho do poema "Michael, a Pastoral Poem", publicado na edição de 1800 de Lyrical Ballads, e que conta a história de um velho pastor chamado Michael, sua esposa e seu único filho, Luke. Aqui está o trecho que inicia a narrativa de Eliot:
"A child, more than all other gifts
That earth can offer to declining man,
Brings hope with it, and forward-looking thoughts"
(Wordsworth)
Minha tradução livre:
"Uma criança, mais do que qualquer presente
Que a terra pode oferecer ao homem envelhecido,
Traz esperança e pensamentos que o levam ao futuro"
Espero que tenham gostado de saber mais sobre esse livro de George Eliot. Eu já li outros dois títulos dessa grande autora, Middlemarch (1871-1872) e O Moinho à Beira do Rio Floss (1860) - ambos maravilhosos! Tenho certeza de que em breve lerei mais obras de George Eliot, um dos principais nomes da literatura vitoriana.
Um ótimo domingo a todos e, é claro, ótimas leituras!
Hoje venho compartilhar com vocês uma leitura que ainda está bem fresquinha na minha memória, terminei de ler Minha Prima Rachel, ou My Cousin Rachel no original, da autora britânica Daphne du Maurier (1907-1989), alguns minutos atrás! Já tinha vontade de ler esse romance da autora desde que li dois contos dela: "Os Pássaros", de 1952, que foi base para o fantástico filme do Alfred Hitchcock de mesmo nome de 1963 (eu morria de medo desse filme quando era criança!), e "Não Olhe Agora", uma história de arrepiar os cabelos que também se tornou filme, "Inverno de Sangue em Veneza" de 1973 dirigido por Nicolas Roeg. Eu também sou fascinada por outro filme de Hitchcock que tomou como base outro livro de Du Maurier, mas que ainda não li, "Rebecca, a Mulher Inesquecível", de 1940. Por isso, mesmo conhecendo pouco da obra dela, já me tornei fã dos escritos de Daphne du Maurier! My Cousin Rachel foi publicado pela primeira vez em 1951 e se trata de um romance-mistério que vem atraindo leitores há décadas. A trama se passa na Cornualha, litoral da Inglaterra, onde Daphne du Maurier também morou. Philip Ashley é um jovem inglês e quem nos conta a história em primeira pessoa. Ele perdeu seus pais ainda muito jovem, e por isso foi adotado por seu tio Ambrose Ashley. Ambrose é um solteiro convicto, dono de uma mansão e se orgulha pelo fato de nenhuma mulher ter se intrometido na maneira como ela administra a propriedade.
Ambrose está envelhecendo e, por ordens médicas, passa a viajar para o sul da Europa durante os invernos frios da Inglaterra. Philip, seu único herdeiro, fica para cuidar da grande propriedade e de seus inquilinos. Eis que em uma de suas viagens para Florença, na Itália, Ambrose se apaixona por uma misteriosa viúva, chamada Rachel, que é sua prima distante. Ambrose conta sobre seu casamento com ela a Philip através de cartas, que fica muito enciumado e furioso com a perspectiva de uma mulher na mansão.
Aos poucos, as cartas de Ambrose vão ficando mais e mais esparsas, até que Philip recebe um último bilhete apressado de Ambrose que dizia: "She has done for me at last, Rachel my torment."
Philip sabe que não pode mais esperar e segue ansioso de carruagem até Florença, o que leva um considerado tempo. Ao chegar lá, descobre que seu tio Ambrose havia morrido devido a um tumor cerebral e que Rachel havia deixado Florença. Devastado, Philip jura vingança a essa mulher e retorna para a Cornualha, agora herdeiro de toda a fortuna da família Ashley. Algumas semanas mais tarde, Philip recebe a notícia que tanto temera: sua prima Rachel chegou para visitar a propriedade de seu ex-marido. E é aí que a trama muda de rumo e Philip acaba obcecadamente apaixonado por Rachel, apesar dos avisos de seus amigos mais próximos de que ela está apenas atrás da fortuna de Ambrose. Philip desenvolve uma doença com sintomas parecidos com os quais Ambrose sofreu. Seria uma coincidência? Ou Rachel seria capaz de envenenar os dois homens para ficar com toda a riqueza e propriedade da família?
O leitor muda de lado várias vezes e por ora percebe em Philip um jovem obcecado e sofrendo alucinações de uma possível doença cerebral e uma inocente ex-mulher que busca recordar a curta vida de casada que tinha com seu Ambrose, e por ora vê uma mulher fria, calculada e manipuladora, que não vê obstáculos para conseguir o que almeja e um ingênuo rapaz apaixonado pela primeira vez, que se propõe a fazer de tudo para deixar sua amada feliz. Qual será a verdade? É claro que não vou contar para vocês, apenas recomendo que leiam esse romance-suspense maravilhoso que te prende do início ao fim e termina com um final surpreendente. Há uma adaptação para o cinema recente desta história, o My Cousin Rachel de 2017, dirigido por Roger Michell, e com Rachel Weisz no papel de Rachel e Sam Claflin como Philip Ashley. O filme tem uma atmosfera sobrenatural e vale muito a pena ser visto! Ótimo para um final de semana chuvoso!
Espero que tenham gostado dessa publicação e que saboreiem a deliciosa escrita de Du Maurier. Uma ótimas semana a todos e ótimas leituras! Fernanda
Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura. Trata-se de um livro que já está na minha lista há muitooo tempo: o clássico da literatura inglesa do século XIX, Jane Eyre.
O contexto de publicação do livro em si já é super interessante. Ele foi escrito por Charlotte Brontë, a mais velha das irmãs Brontë. As outras duas, Emily e Anne, também eram escritoras. Porém, no século XIX, ainda era muito difícil para uma mulher conseguir publicar seus trabalhos, ainda mais mulheres solteiras. Por isso, as meninas publicaram seus livros sob os pseudônimos Currer Bell (Charlotte), Ellis Bell (Emily) e Acton Bell (Anne). Quando as críticas de Jane Eyre saíram, a maioria imaginou que o autor da história era um homem, já que - de acordo com eles - uma mulher não seria capaz de escrever um romance tão complexo e com personagens tão desenvolvidos. Imagina a surpresa ao descobrirem mais tarde que se tratava de uma jovem mulher?
Charlotte Brontë
Jane Eyre foi publicado em três volumes em 1847. Mesmo depois de passada a primeira onda da literatura gótica (característica do final do século XVIII e ilustrada por trabalhos de escritores como Ann Radcliffe e Horace Walpole), o romance de Charlotte traz motivos góticos, como a mansão misteriosa, atmosfera de chuvas e neblina, um segredo do passado, sonhos e visões sobrenaturais, etc. Fica claro que Charlotte era uma leitora ávidas dos clássicos góticos do século anterior.
Ao longo do romance de quase 500 páginas, nós acompanhamos a protagonista Jane Eyre desde a sua infância, criada por uma tia depois da morte de ambos os pais. Sua tia, esposa do irmão da sua mãe, a considerava um empecilho e, por isso, a tratava mal. Quando Jane atingiu uma certa idade, foi mandada para a instituição para crianças órfãs Lowood, onde se tornou uma moça amarga e fechada, porém dedicada ao estudo e conhecimento. Após passar seis anos como estudante, trabalhou mais dois como professora na mesma instituição.
Jane Eyre na instituição Lowood. Cena do filme de 2011
Aos dezoito anos, Jane sonhava em deixar Lowood e conhecer mais do mundo. Por isso, começou a procurar emprego como governanta, até que foi chamada para trabalhar na mansão do Sr. Rochester, Thornfield Hall, como instrutora da pequena Adèle. As coisas parecem melhorar para Jane, até que ela começa a perceber barulhos e eventos curiosos - até mesmo perturbadores - na casa. Além disso, ela reluta em admitir que sente algo poderoso pelo seu patrão, que parece gostar dela também. Mas o passado desse homem é muito mais negro do que ela imagina.
E muitas outras coisas acontecem durante a história, mas não vou revelá-las aqui. Jane é uma personagem muito bem construída. A narrativa em primeira pessoa nos dá acesso aos seus pensamentos e sentimentos, sua força e desejo em ser uma mulher independente - o que ela consegue.
Não é à toa que Jane Eyre é um grande clássico da literatura e continua sendo lido nos dias de hoje, 170 anos depois da sua primeira publicação. Jane Eyre se tornou um dos meus livros preferidos e, tenho certeza, voltarei a lê-lo muitas vezes ainda no futuro.
Espero que tenham gostado dessa resenha. Uma ótima semana e ótimas leituras,
Chegamos ao mês de dezembro e nada melhor do que entrar no clima do Natal com o perfeito livro, né?
Um dos livros natalinos que escolhi ler neste ano foi o maravilhoso "A Jane Austen Christmas: Celebrating the Season of Romance, Ribbons & Mistletoe", ou "Jane Austen e o Natal: Celebrando a Temporada de Romance, Fitas e Ramos de Visco", do autor Carlo Devito. O livro é uma preciosidade só! Capa dura, uma jacket com um design lindíssimo em vermelho e preto e com a característica silhueta da Austen, ilustrações em preto e branco e um design interior bastante caprichado. Comprei esse livro no ano passado, mas esperei o mês de dezembro para lê-lo, justamente para entrar no clima de Natal dentro e fora das páginas.
Eu achei a premissa desse livro muito interessante porque Carlo Devito escreve sobre como o Natal era celebrado na época de Jane Austen, e sobre alguns Natais em especial na vida da grande escritora. O livro é divido em uma introdução, seis partes e um epílogo. Cada parte se refere a uma temporada de Natal específica: A primeira parte se refere a 1786, a segunda a 1794, a terceira a 1795, a quarta a 1802, a quinta a 1809, a sexta a 1815, e o epílogo aos últimos dias de vida de Jane.
Jane Austen
Jane Austen menciona os feriados de Natal em todos os seus romances. Ela mesma gostava muito das celebrações natalinas. Além disso, muitos eventos da sua vida pessoal se passaram nessa mesma época, a começar pelo seu nascimento! Jane nasceu em 16 de dezembro de 1775, nove dias antes do Natal. Como Devito explica, na época de Jane, não se comemorava apenas o dia 25 de dezembro ou a véspera de Natal, mas praticamente o mês de dezembro todo - e, principalmente, os 12 dias de Natal, que compreendiam o período entre 25 de dezembro e o Dia de Reis, 6 de janeiro. Durante todo esse tempo, era comum as pessoas visitarem umas às outras, principalmente no campo. Por isso, sempre havia comida em abundância e opções de entretenimento de sobra durante todo o mês. Estavam todos preparados para o caso de alguém decidir fazer uma visita.
Vamos ver o que aconteceu de tão especial em cada um desses anos selecionados por Devito:
1786
Jane estava com 11 anos durante essa temporada de Natal. Seu pai, George Austen, era um pastor, e muito provavelmente era responsável pelo sermão do dia de Natal. Jane, sua mãe, sua irmã Cassandra e seus irmãos Henry, James, Francis, Edward, Charles e George enfrentariam a neve para ouvir as palavras do pai durante a celebração na paróquia.
Na época de Jane, ainda não havia o costume de ter uma árvore de Natal em casa. Porém, o pessoal decorava as casas com folhagens, ramos verdes e frutas como maçãs e laranjas, que davam um cheiro característico ao lugar. Também era costume buscar o maior tronco de árvore da redondeza e arrastá-lo com pompa e cerimônia para dentro da casa. O tronco, chamado de Yule log, queimaria e proveria fogo para todos os 12 dias de Natal. Esse ritual é derivado de uma tradição medieval nórdica, que simboliza luz e iluminação.
Tradição do Yule log
Eliza de Feuillide
Uma das presenças mais marcantes das festividades de Natal de 1786 para a jovem Jane foi a de sua prima Eliza de Feuillide. Ela era uma mulher extravagante para a época, nascida na Índia, mas morou também na França e Inglaterra. Ela se casou com o capitão francês Jean-François Capot de Feuillide, um conde. Por isso, ela se tornou uma condessa. Seu marido, leal à monarquia francesa, foi preso e guilhotinado durante a Revolução Francesa, o que a levou a retornar à Inglaterra. Em 1786, no entanto, Eliza ainda era casada com o conde, mas flertava abertamente com os irmãos de Jane, principalmente Henry e James, o que causou alvoroço na casa dos Austen. Anos depois, depois de viúva, Eliza viria a se casar com Henry. De qualquer modo, Eliza impressionou a jovem Jane, que a usou como modelo para algumas de suas personagens.
1794
No Natal de 1794, a Inglaterra estava em guerra com a República da França. Porém, por mais que a guerra afetasse a vida de Jane, já que alguns de seus irmãos participaram ativamente de batalhas, ela não faz referência aos conflitos em seus romances.
Escrivaninha portátil de Jane
Jane já estava com 19 anos e já havia iniciado sua jornada pelo universo literário. Ela escrevia desde criança - provavelmente desde os 11 ou 12 anos de idade. Seu pai encorajava a relação de Jane com as letras, e até mesmo deixava Jane ler o que quisesse da sua biblioteca (o Reverendo Austen administrava uma escola para meninos em sua casa, por isso contava com diversos livros de estudos à disposição) - o que era vedado à maioria das meninas da época de Jane. Para o seu aniversário de 19 anos, o pai de Jane lhe deu uma escrivaninha portátil de mogno, que hoje se encontra em exposição na British Library. Jane simplesmente amou o presente! E naquele mesmo ano, naquela escrivaninha, Jane começou a escrever seu primeiro romance, Lady Susan.
1795
A temporada natalina do ano seguinte foi especial para Jane, porque, aos 20 anos, ela teve sua primeira experiência amorosa. Jane havia ficado amiga da Sra. Lefroy, esposa do Reverendo Isaac Lefroy, uma família inglesa distinta. Jane era frequentemente convidada à casa dos Lefroy, que já haviam captado algo de especial na moça.
Thomas Lefroy
Jane gostava muito de participar de bailes, um dos principais entretenimentos da Inglaterra Regencial. Durante o Natal de 1795, Jane foi a muitos bailes, se divertiu e dançou muito, e em um desses bailes conheceu Thomas Langlois Lefroy, sobrinho da Sra. Lefroy. O rapaz havia estudo Direito na Trinity College, na Irlanda, e agora trabalhava no Lincoln's Inn, em Londres. Os dois se deram bem imediatamente e se reencontraram em outros bailes durante a temporada. Porém, Jane sabia que Tom voltaria para Londres depois do último baile da estação. Em uma carta a sua irmã Cassandra, Jane parece esperar que Tom a peça em casamento durante a dança antes de voltar para a capital. No entanto, o baile tão esperado acaba se tornando um pesadelo para Jane. A família do rapaz, com medo que o jovem promissor se comprometesse com uma moça da classe média sem muito futuro, o convence a deixar o local na noite anterior. Jane nunca viu Tom novamente, mas o seu desapontamento amoroso serviu como uma nova motivação para se afundar na escrita novamente.
1802
Silhueta de Cassandra
Durante essa temporada, Jane e Cassandra passaram um tempo em Bath na casa de suas amigas, as irmãs Bigg. Jane já estava com quase 27 anos e sua irmã Cassandra, dois anos mais velha, já tinha 29. O noivo de Cassandra, Thomas Fowle, havia morrido de febre amarela durante uma expedição militar no Caribe em 1797. Depois desse incidente, Cassandra nunca mais se comprometeu com ninguém. Portanto, em 1802 as duas irmãs estavam beirando os 30 anos e permaneciam solteiras (fato que não mudou até o final das suas vidas). Para a época, uma mulher solteira nessa idade era inaceitável. As duas já eram consideradas spinsters, ou solteironas, e mal vistas na sociedade.
Harris Bigg-Wither
Em 1802, o irmão mais novo das moças Bigg, Harris Bigg-Wither, estava presente. Ele havia mudado e crescido bastante desde que Jane e Cassandra o tinham visto pela última vez. Jane e Harris se deram muito bem, e no dia 2 de dezembro, Harris surpreendeu Jane com um pedido de casamento. No calor do momento, Jane aceitou, mas depois de uma noite de reflexão, ela resolveu voltar atrás e declinar o pedido de Haris na manhã seguinte. O rapaz se sentiu humilhado. Jane e Cassandra tiveram que deixar a casa dos Bigg-Wither antes da noite de Natal e a amizade com as irmãs de Harris também foi afetada pela reação de Jane.
Os casos amorosos de Jane com Thomas e Harris são retratados no filme Becoming Jane, ou Amor e Inocência no Brasil, de 2007 com Anne Hathaway no papel de Jane. Para quem ainda não assistiu esse filme, vou deixar o trailer aqui:
1809
Desde a morte do pai de Jane em 1805, Jane, Cassandra e sua mãe tiveram que se mudar para lugares menores e mudar drasticamente o seu estilo de vida. Naquela época, as mulheres não podiam herdar propriedade por lei, portanto as mulheres Austen se viram sem fonte de renda e sem um lugar para morar. Elas dependiam da ajuda dos seus irmãos, principalmente Henry.
Em Julho de 1809 as três mulheres se mudaram para Chawton, na casa onde hoje se encontra o museu Jane Austen. Jane adorava morar ali!
Casa onde Jane Austen morou em Chawton
Devido ao seu estilo de vida menos requintado, Jane, sua irmã e sua mãe recebiam menos convidados em casa. Portanto, o Natal de 1809 foi bem tranquilo. Jane aproveitou o tempo com a família e se dedicou à escrita. Na casa em Chawton ela revisou os manuscritos de Razão e Sensibilidade, publicado em 1811, e Orgulho e Preconceito, publicado em 1813.
1815
Durante o período de Natal de 1815, o último romance de Jane Austen publicado em vida foi lançado: Emma. Jane já havia se estabilizado como escritora e já recebia uma boa quantia por seus livros.
Rei George IV (anteriormente, Príncipe Regente)
Em dezembro desse ano, Jane foi convidada pelo bibliotecário do Príncipe Regente George, mais tarde Rei George IV, a conhecer a biblioteca do Palácio Carlton House, a pedido do próprio príncipe, que era, aparentemente, fã dos romances de Jane. Jane, no entanto, não gostava do príncipe, pois não aprovava o seu comportamento: ele se vestia de maneira extravagante demais, era obeso mas não maneirava na comida ou na bebida, gastava muito dinheiro, e se relacionava com muitas mulheres. O príncipe pediu que o próximo livro de Jane, Emma, fosse dedicado a ele. A escritora não estava muito feliz com a ideia, mas ela logo descobriu que um pedido real é uma ordem.
Dedicatória ao príncipe regente George
Jane estava no auge da sua carreira literária. Uma carreira, no entanto, que estava fadada a ser breve.
Epílogo
Jane aos poucos percebeu que se sentia mais cansada do que o normal. Os médicos da época não conseguiram diagnosticar o problema de Jane, mas hoje acredita-se que ela tenha tido a doença de Addison. Quando Emma saiu em dezembro de 1815, Jane mal sabia que ela só veria mais um Natal. A escritora partiu em 18 de julho de 1817.
No início de 1817, Jane acreditava estar se sentindo melhor, mas percebeu uma piora em Abril, quando escreveu seu testamento. Três meses depois, ela faleceu.
Jane, incrível mulher e apaixonada pelo Natal, não pôde participar das festividades natalinas de 1817, nem de nenhum outro Natal subsequente. No entanto, ela ainda faz parte de nossas vidas através dos seus romances, que nos tocam duzentos anos depois.
Jane deixou dois manuscritos não publicados depois de sua morte. Foi seu irmão Henry que insistiu em publicar A Abadia de Northanger e Persuasão, ambos em 1818. E, dessa vez, não de maneira anônima. Henry queria que o mundo inteiro soubesse que era sua irmã quem os tinha escrito e todos os romances anteriores (que haviam sido assinados by a lady).
Nessa noite de Natal, vamos pensar em Jane, em como ela adoraria estar em volta do fogo do Yule log, rodeada por familiares e amigos, pronta para um baile ou jogo de cartas, e no legado fantástico que ela nos deixou.