quinta-feira, 25 de junho de 2020

"A Maleta da Sra. Sinclair", Louise Walters

Olá, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar a minha mais recente leitura, que fez parte da minha TBR para a Maratona Literária de Inverno 2020, ou BooktuBatona 2020, organizada pelo canal Geek Freak. Eu gosto muito de participar de maratonas literárias, porque compartilhar as suas leituras com outras pessoas e escolher livros para participar de desafios literários são ótimas maneiras para se sentir mais motivado a ler!

Um dos desafios que escolhi foi o proposto pelo canal Palavras Radioativas: ler um livro encalhado na sua estante. Eu tenho váááários livros que já estão na minha estante há anos, apenas esperando para serem lidos! De forma um tanto quanto aleatória, eu escolhi ler A Maleta da Sra. Sinclair, de Louise Walters. E que bela surpresa! Gostei muito, muito mesmo, da leitura.

Esse livro há havia chamado a minha atenção pela capa, que traz uma jovem de luvas vestida no estilo anos 1940 ou 1950, sentada em uma mala. Mala é um objeto que remete a viagens e busca por conhecimento. Quando li a sinopse e percebi que a narrativa transita entre o presente e 1940, ou seja, em meio à Segunda Guerra Mundial, já me interessei. Eu sou apaixonada por histórias que mesclam o passado e o presente, unindo os destinos de duas pessoas.

No caso de A Maleta da Sra. Sinclair, essas duas pessoas são Dorothy Sinclair, a dona da maleta que dá título ao livro, e sua neta Roberta Pietrykowski, uma mulher na faixa dos 30 e poucos anos, solteira, que trabalha em uma livraria de livros novos e usados chamada Old & New, e que encontra a tal maleta. Roberta adora vasculhar livros antigos e encontrar vestígios da vida de outras pessoas e traços de outros leitores: marcações nas páginas, uma assinatura ou dedicatória, cartas ou cartões postais esquecidos entre as folhas amareladas. Eu me identifiquei muito com Roberta desde o início da história (apesar de que não concordamos em tudo), principalmente por esse fascínio sobre a vida de outras pessoas encontradas em livros antigos. A maioria dos capítulos que se passam no presente se inicia com a transcrição de uma dessas cartas esquecidas e o nome do livro no qual ela foi encontrada. É de arrepiar, mas o primeiro livro mencionado em A Maleta da Sra. Sinclair foi justamente o último livro que li: Mulherzinhas, de Louise May Alcott. Quais são as chances?? Além disso, há outros de meus livros preferidos mencionados, como Madame Bovary e Jane Eyre. Esses detalhes me fizeram sentir ainda mais próxima desse livro.



Dentro da tal maleta, que pertenceu à sua avó, Roberta encontra uma carta datada de 1941, assinada por Jan Pietrykowski, seu avô, que foi um piloto polonês com base na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial. O que chama a atenção de Roberta é a data da carta, pois seu avô supostamente teria morrido em 1940 em um acidente de guerra. O que havia por trás dessa história? É aí que ela passa a se interessar mais pelo seu próprio passado e de sua família.




O leitor sabe mais do que Roberta, pois nós temos acesso à narrativa da própria Dorothy em 1940, intercalada com a de Roberta em 2010. Dorothy viveu um casamento infeliz, foi abandonada por seu marido, sofreu com cinco abortos e o nascimento de um natimorto, nunca realizando o seu maior desejo de ser mãe. Sua vida muda com a chegada do batalhão de Jan Pietrykowski e ela conhece o amor pela primeira vez. Porém, seguir esse caminho não será fácil e ela terá que fazer uma escolhe entre dois tipos de amor, que marcará para sempre a sua vida.


No presente, Roberta se parece muito com a sua avó, e também descobre que terá que tomar uma iniciativa para tentar ser feliz no amor e deixar para trás a sua vida solitária.


Eu me apaixonei pela vida dessas duas mulheres, principalmente pela triste história de Dorothea, que fica ainda mais interessante por se passar durante um período tão importante e marcante da história mundial. O leitor deve colocar os pedaços do quebra-cabeça no lugar para finalmente descobrir o segredo que Dorothy ainda mantém. Eu teria dado 5 estrelas a esse livro se não fosse por um clichês totalmente desnecessário ao final da história de uma das mulheres, mas não vou contar para vocês o que é. Vocês terão que ler para descobrir!


Louise Walters

A autora Louise Walters nasceu em Oxfordshire, no Reino Unido. Esse é o seu romance de estreia, publicado pela primeira vez em 2014, e já foi traduzido e editado em 12 países. Ela publicou mais dois livros, A Life Between Us (2016) e The Road to California (2016), mas eles ainda não foram traduzidos para o português.

Espero que tenham gostado dessa dica de leitura.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

terça-feira, 16 de junho de 2020

"Mulherzinhas", Louisa May Alcott

Olá, queridos leitores!

Hoje eu venho compartilhar com vocês a minha leitura de Mulherzinhas (1868), de Louisa May Alcott. Esse é um livro que estava na minha lista de leituras há muito tempo por se tratar de uma obra importante na história da literatura norte-americana. Porém, foi quando eu assisti à mais recente adaptação cinematográfica da obra, Adoráveis Mulheres (2019), que a vontade de ler o romance despertou! Eu simplesmente amei esse filme! Sem falar que o elenco estava divino: Emma Watson no papel da irmã mais velha Meg, Saoirse Ronan como a icônica Jo, Eliza Scanlen como a jovem Beth, e Florence Pugh como a espevitada Amy. Eu deixei o cinema com o coração aconchegado, eu ri, chorei e queria passar mais tempo com as irmãs March. Portanto, saí do cinema direto em direção à livraria e comprei o livro em capa dura, mas só agora, dois meses depois, tive a oportunidade de lê-lo.

Fiquei muito feliz com a leitura porque tive o mesmo sentimento aconchegante que senti no cinema. Adorava voltar para casa, abrir o livro e voltar ao dia-a-dia da família March. A história se inicia em dezembro de 1861, ou seja, no primeiro ano da Guerra Civil Americana. As quatro irmãs March estão em casa com sua mãe, que elas chamam carinhosamente de Marmee, e a empregada Hannah, ocupadas com os preparativos do Natal. Porém, apesar da atmosfera festiva, as garotas não estão completamente felizes porque seu pai, o Sr. March, estava lutando na Guerra Civil como um soldado da União, ou seja, do lado contra a escravidão. Além disso, os negócios da família tinham sofrido nos últimos anos, diminuindo as condições da família, que precisava ser criativa para manter certos hábitos - principalmente as garotas, que em sua adolescência ansiavam por presentes de Natal, roupas da moda, lenços para o cabelo, sapatos de seda e livros com capa de couro. Apesar da simplicidade e escassez, a família nunca deixou de ajudar os mais necessitados, oferecendo o seu próprio café da manhã natalino para uma pobre mãe com seis filhos.

Conforme o livro avança, nós acompanhamos as quatro irmãs, nos familiarizamos com os seus jeitos, gostos e ambições: a mais velha Meg é romântica mas sensata e sonha se casar por amor e construir uma família; Jo é a criativa das irmãs, que ama ler e escreve histórias, que eventualmente são publicadas e a levam a sonhar em ser uma famosa escritora; Beth é a mais doce e frágil das irmãs. Ela é apaixonada por música, ajuda a todos que puder, mas tem saúde e corpo frágeis, que causam preocupação às outras garotas e Marmee; e, finalmente, Amy, a mais nova mas que tem desejos bem definidos: ela quer usar sua beleza e charme para conseguir um lugar de prestígio na sociedade. Ela ama pintar e sonha em ser uma artista aclamada, mas percebe que gênio e talento são duas coisas distintas.

Originalmente, o livro foi publicado em dois volumes: Little Women em 1868, que corresponde a um ano inteiro desde dezembro de 1861 até o final de 1862, e 23 capítulos. O
romance foi tão bem-recebido que o editor pediu a Louisa May Alcott uma continuação, a qual ela publicou sob o título Good Wives, ou "Boas Esposas" em 1869. O segundo volume acompanha as garotas, que já se tornaram jovens mulheres, durante um período maior de tempo em suas jornadas de autoconhecimento e de busca pelo amor. Atualmente, o costume editorial é publicar os dois volumes em um só, como a edição da Penguin Classics que eu li. Portanto, é importante prestar atenção quando escolher o seu livro para verificar se ele traz a versão completa ou se tem só a Parte I.

A minha edição da Penguin Classics traz uma introdução escrita pela crítica literária Elaine Showalter (da qual soou fã!), que escreveu importantes livros sobre a presença das mulheres na história da literatura inglesa e americana, como A Literature of their Own (1977) e A Jury of her Peers (2009), respectivamente. Aliás, no meu canal no YouTube eu fiz uma série de vídeos com base nos primeiros capítulos de A Literature of their Own, cujo projeto eu intitulei "Uma Literatura Toda Delas". Para acessar os vídeos no canal, clique aqui:











Nesta introdução, Showalter comenta sobre a importância de Mulherzinhas para diversas autoras, como, por exemplo, a admirável Simone de Beauvoir (1908-1986). Beauvoir escreveu o seguinte: "Houve um livro no qual eu acreditei ter visto uma fagulha do meu 'eu' do futuro: Little Women, de Louisa May Alcott... eu me identifiquei apaixonadamente com Jo, a intelectual. Brusca e magrela, Jo escalava árvores quando ela queria ler; ela era mais durona e ousada do que eu, mas eu compartilhava o seu horror por costura e cuidados da casa e o seu amor por livros. Ela escrevia; de modo a imitá-la mais completamente, eu escrevi dois ou três contos" (Tradução livre minha).

Meg, Amy, Jo e Beth






Imaginem só! A personagem Jo levou Simone de Beauvoir a escrever! Eu também me identifiquei muito com Jo, o seu amor por livros, sua vontade de ser escritora e sua admiração pela biblioteca do Sr. Laurence, apesar de meu temperamento e comportamento serem mais compatíveis com o de Meg. Eu, por exemplo, nunca fui de escalar árvores! :)






Cena do filme de 2019


Mulherzinhas traz muitos elementos autobiográficos de Louisa May Alcott (1832-1888), uma jovem mulher da Nova Inglaterra, que começou sua carreira de escritora sob o pseudônimo A. M. Barnard, quando escreveu histórias de espiões e vingança no estilo dos contos sensacionalistas de Jo em Mulherzinhas. Louisa, como Jo, tinha três irmãs: Abigail, Elizabeth e Ana. Interessantemente, o sobrenome de Louisa é May, que significa Maio em português. As irmãs em Mulherzinhas têm o sobrenome March, que significa Março em português. Coincidência?
Louisa May Alcott

SPOILERS: Voltando ao filme de 2019, eu achei a adaptação de Greta Gerwig muito fiel (apesar de não gostar muito dessa palavra) ao romance. Como li o livro depois de assistir à adaptação, eu revi o filme em minha mente capítulo por capítulo. Há apenas duas alterações no filme, que eu achei que deram mais emoção à trama. Primeiramente, a tia March, interpretada pela fantástica Maryl Street, é um solteira convicta e ácida no filme, enquanto no livro ela é uma mulher casada e mais tradicional. Segundo, no livro não há nenhuma menção ao arrependimento de Jo por ter recusado Laurie, enquanto no filme a Jo de Saoirse Ronan chega a escrever uma carta para Laurie antes de descobrir que ele estava casado com Amy.

Espero ler mais livros como esse, que me aqueceu o coração e vai ter um lugar especial na minha estante para sempre.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda






domingo, 24 de maio de 2020

"Silas Marner", George Eliot

Olá, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar com vocês a minha última leitura, Silas Marner, o Tecelão de Raveloe, de George Eliot. Como os meus estudos de doutorado estão inseridos na produção artística da Inglaterra do século XIX, eu procuro ler as principais obras literárias desse período para ampliar o meu repertório cultural e meu entendimento da Inglaterra Vitoriana, o que inclui, certamente, o legado da grande George Eliot.

George Eliot
Apesar do nome George Eliot sugerir uma figura masculina, George Eliot era uma mulher, nascida Mary Ann Evans em 22 de novembro de 1819 em Nuneaton, uma cidade no norte de Warwickshire, Inglaterra. George Eliot foi o seu pseudônimo escolhido para publicar as suas obras. Como já discutimos aqui no blog, a situação para mulheres escritoras no século XIX não era nada fácil e uma das estratégias encontradas por elas foi o uso de pseudônimos masculinos, como, por exemplo, as irmãs Brontë, ou a publicação anônima, como Jane Austen e Mary Shelley.

Outro motivo para desejar permanecer incógnita era que Eliot mantinha uma relação amorosa com o filósofo e crítico literário e teatral George Henry Lewes, que já era casado. Os dois mantiveram um relacionamento por mais de vinte anos e chegaram a morar juntos abertamente.

Silas Marner foi o terceiro romance publicado por Eliot. Ela decidiu voltar a escrever sobre a Inglaterra rural dos últimos anos do século XVIII e início do XIX enquanto ela ainda trabalhava no grandioso Romola, publicado em série na revista Cornhill Magazine entre Julho de 1862 e Agosto de 1863, e que se passa na Florença do século XV. Silas Marner, com centenas de páginas a menos, foi publicado em volume único em 1861.

O protagonista do romance é o tecelão de linho Silas Marner, que, no início da narrativa, se estabelece na pequena Raveloe. O leitor descobre que Silas havia sido acusado erroneamente de ter roubado os fundos da igreja em Lantern Yard, onde morava anteriormente e onde era respeitado pela comunidade. Silas havia sido vítima de uma conspiração do seu melhor amigo, que invejava o seu papel na comunidade e o seu relacionamento com a jovem Sarah. A igreja da qual faziam parte, uma pequena e conservadora congregação religiosa calvinista, acreditava que Deus ficaria do lado da parte inocente e, durante o processo de investigação do roubo, que tem como base uma espécie de sorteio, Silas é condenado como culpado. Sarah se desencanta com Silas e decide se casar com o seu melhor amigo. Desiludido com sua vida e com um Deus que lhe considerou falsamente culpado, Silas se muda para Raveloe, onde vive uma existência completamente isolada de todos, de domingo a domingo trabalhando sem parar no seu tear. A população de Raveloe o vê com suspeita e as crianças até mesmo tinham medo de passar em frente a sua casa.

Ilustração de Hugh Thomson
Eis, então, que com o passar dos anos, Silas acumula uma grande quantidade de ouro, já que ele trabalhou incessantemente por um longo período e tinha poucos gastos, vivendo uma vida simples e econômica. Seu único consolo era passar as noites em frente ao fogo da lareira, contando a sua pilha de moedas de ouro e prata. Porém, em uma noite de chuva, ao retornar para a sua humilde casa, Silas percebe que o seu dinheiro havia sido roubado, e o seu único de desejo de viver extinguido. Após a fase inicial de desespero, Silas passa a existir, apenas, dia após dia. Até que, por fim, uma visita inesperada muda a sua vida.

Em uma noite fria, uma pobre mulher, Molly, caminha pelas ruas geladas de Raveloe com sua filha de dois anos no colo, abandonada pelo seu marido Godfrey Cass, filho de um importante homem da comunidade e proprietário de terras em Raveloe. Godfrey está arrependido de sua conexão com essa mulher de baixo nível, viciada em ópio, e que o impede de se casar com a bela e inocente Nancy Lammeter. Molly pretende se vingar do seu marido, que neste momento se divertia em uma festa no salão do seu pai enquanto ela passa por dificuldades e desprezo. Ela quer contar a todos a verdade sobre o seu casamento com Godfrey, mas, antes que ela possa completar a sua vingança, ela perece de frio e overdose de ópio em uma viela. A pequena criança órfã de mãe vê a luz do fogo vindo do casebre de Silas Marner, e é para lá que ela se dirige e é esta pequena menina que mudará para sempre o propósito de vida, as prioridades e crenças religiosas do tecelão.


Ilustração de Hugh Thomson
Silas Marner é uma leitura rápida, que te leva ao início do século XIX na área rural da Inglaterra. Porém, além de oferecer uma representação desse período e região, a narrativa oferece ao leitor uma relação com o protagonista, que sofre diversas perdas até poder encontrar o melhor presente da sua vida. O leitor sofre e cria esperanças juntamente com este protagonista, que reaprende a viver em sociedade e finalmente compreende a necessidade de amar e ser amado.


O livro se inicia uma epígrafe do poeta romântico William Wordsworth (1770-1850). Trata-se de um trecho do poema "Michael, a Pastoral Poem", publicado na edição de 1800 de Lyrical Ballads, e que conta a história de um velho pastor chamado Michael, sua esposa e seu único filho, Luke. Aqui está o trecho que inicia a narrativa de Eliot:



"A child, more than all other gifts
That earth can offer to declining man,
Brings hope with it, and forward-looking thoughts"
(Wordsworth) 

Minha tradução livre:


"Uma criança, mais do que qualquer presente
Que a terra  pode oferecer ao homem envelhecido,
Traz esperança e pensamentos que o levam ao futuro" 


Espero que tenham gostado de saber mais sobre esse livro de George Eliot. Eu já li outros dois títulos dessa grande autora, Middlemarch (1871-1872) e O Moinho à Beira do Rio Floss (1860) - ambos maravilhosos! Tenho certeza de que em breve lerei mais obras de George Eliot, um dos principais nomes da literatura vitoriana.

Um ótimo domingo a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda