domingo, 2 de dezembro de 2018

"Café da manhã com Buda", Roland Merullo

Bom dia, pessoal!

Hoje venho compartilhar com vocês uma das minhas leituras mais recentes. Foi um livro que eu li para uma das minhas disciplinas do doutorado, sobre ecocrítica. O livro se chama Café da Manhã com Buda e traz na capa uma foto de uma mesa de lanchonete típica americana, com um porta-guardanapos, um tubo de mostarda, um de maionese, um vidrinho de sal e duas mini estátuas de Buda: uma preta e uma branca. A foto aliada ao título me fez imaginar uma história maçante de auto-ajuda e busca espiritual, portanto já iniciei a leitura com certo preconceito. Porém, estou feliz em admitir que eu estava errada. A leitura acabou se tornando muito prazerosa, divertida e me fez refletir bastante. Confesso que até fiquei com vontade de tentar uma aula de yoga!

O protagonista dessa história é Otto Ringling, um homem de classe média americana, casado, com dois filhos, um cachorro, uma boa casa, mora em Nova York, trabalha em uma editora de livros de culinária, adora comer e se acha relativamente feliz. Um dia, seus pais, que moravam em uma fazendo na Dakota do Norte, sofrem um acidente de carro e morrem inesperadamente. Otto, então, precisa ir até a Dakota do Norte para verificar as condições da casa e vender a propriedade. Ele decide levar a sua irmã, Cecilia, nessa viagem para que possam resolver esse assunto juntos. Sua irmã é uma mulher excêntrica que mora sozinha e trabalha lendo cartas de tarô profissionalmente. Ela é o completo oposto de Otto. Enquanto Cecilia é espiritual e sensível, Otto é prático e racional. Há um porém, contudo: Cecilia tem medo de andar de avião, então os dois terão que fazer essa viagem de carro.

Otto vai até a casa de Cece para buscá-la, quando percebe que ela não está de malas prontas. Ela não poderá acompanhar seu irmão nessa jornada porque precisa terminar alguns negócios. No entanto, ela pede a Otto que leve outra pessoa em seu lugar: Volya Rinpoche, um monge para quem Cecilia pretende doar a sua parte da herança. Otto fica furioso com sua irmã, mas por fim decide acatar o pedido e levar o monge em uma viagem de mais de 2.500km.


Os dois passam muito tempo no carro juntos e, aos poucos, começam a interagir um com o outro. A raiva inicial de Otto se esvaece e ele compartilha os seus questionamentos sobre a vida com o monge, que é uma figura muito divertida. Os dois fazem um acordo: Otto se propõe a mostrar o estilo de vida americano a Volya, enquanto o monge lhe dá lições espirituais em troca. O interessante é que os dois têm muito a aprender um com o outro. Há diversas cenas muito engraçadas ao longo do romance, como Otto, um amante da boa cozinha, tentando fazer jejum por um dia ou experimentando uma aula de yoga, e Rinpoche aprendendo a jogar boliche e mini golf, e fazendo poses de yoga usando uma sunga antes de entrar no rio para nadar.

Mingyur Rinpoche


O que eu achei que seria um livro com uma premissa de trama como desculpa para discutir temas religiosos, filosóficos e espirituais acabou se revelando um livro de viagens muito bem escrito, nada didático, e que nos faz pensar em certos aspectos de nossas vidas. As descrições dos locais por onde Otto e Rinpoche passaram e as comidas que Otto pediu nas diversas paradas em restaurantes - que, aliás, dão água na boca! - são todas baseadas em uma viagem de carro que o autor do livro, o americano Roland Merullo (1953-), fez ele mesmo.

Roland Merullo
Depois descobri que esse livro é o primeiro de uma trilogia de livros que trazem Otto e Rinpoche como protagonistas. O segundo se chama Almoço com Buda e o terceiro Jantar com Buda. Eu li esse livro em inglês e, pelo que consegui encontrar, o livro ainda não foi traduzido para a língua portuguesa, o que é uma pena. No entanto, se você tem algum conhecimento da língua inglesa, vale a pena tentar a leitura desse livro!

Então é isso, pessoal! Espero que tenham gostado dessa dica de leitura. Logo, logo sairá o vídeo-resenha desse livro no meu canal, O Prazer da Literatura no YouTube. Se você ainda não conhece o canal, clique aqui e confira!


Um ótimo domingo a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A Trilogia da Magia - Nora Roberts




Boa noite, queridos leitores!



Recentemente terminei de ler uma trilogia que havia começado há muito tempo. Li Dançando no Ar, o primeiro volume da saga, quando ainda era adolescente. Não lembro por que na época não dei continuação à leitura. Enfim, tantos anos depois, me deparei com essa trilogia no catálogo de audiolivros do uBook - aplicativo que uso para ouvir audiobooks. Resolvi dar uma nova chance à série e, como tenho os três livros em formato físico também, revezei entre ouvir e ler. E foi uma ótima experiência! É claro que foi algo bem à la Nora Roberts: final feliz estilo céu de brigadeiro, casamentos, filhos, todos são lindos, ricos, bem-sucedidos e com corpos sarados. Mas, de vez em quando, nada melhor do que um romance mamão com açúcar para se distrair e sonhar, não é? E a Trilogia da Magia tem um bônus a mais: as protagonistas são bruxas!


Cada um dos três volumes tem como foco principal uma das três mulheres e a história é contada através da sua perspectiva. Em Dançando no Ar (2001), conhecemos Nell Channing, uma jovem mulher que acaba de fugir de um casamento infeliz e um marido violento, um rico produtor de Hollywood. Ela forjou a sua própria morte e se mudou para a Ilha das Três Irmãs, onde conhece a fascinante Mia Devlin, dona da livraria Livros e Quitutes. Por sorte ou destino, a cozinheira do café da livraria tinha acabado de pedir demissão e Nell - que tem dotes culinários maravilhosos - ocupa o seu lugar. Ela faz o negócio de Mia prosperar com seus bolos, sopas, sanduíches e doces. Aliás, cardápios que dão água na boca! Tudo o que eu queria era dar uma passadinha na Livros e Quitutes e saborear um dos pratos da Nell com um bom café ou chá. Na ilha, Nell aos poucos se recupera dos tramas que sofreu no seu casamento e conhece Zack Todd, o xerife da ilha. E, claro, os dois se apaixonam! Nell tem que aprender a amar novamente e começa a explorar o seu recém-descoberto dom, porém o seu passado não a deixará ir tão facilmente.





O segundo volume da saga, Entre o Céu e a Terra (2001) acompanha a saga de Ripley Todd, irmã de Zack e delegada da ilha. Enquanto Nell representa o ar, Ripley representa a terra. Ripley é uma mulher atraente e de personalidade forte. Ela adora praticar exercícios físicos e é durona, não leva desaforo para casa. Ela era a melhor amiga de Mia Devlin, mas as duas se separaram depois que Ripley decidiu renegar os seus dons mágicos. O intelectual MacAllister Book chega à ilha para estudar os fenômenos sobrenaturais que ocorrem nesse local místico. Os dois sentem uma atração um pelo outro, mas, antes de se deixar envolver, Ripley vai ter que se reconectar com sua magia e aprender a aceitar a essência do seu ser.

Finalmente, o terceiro volume, Enfrentando o Fogo (2002) traz como protagonista a sedutora e misteriosa Mia Devli. Essa é a personagem que mais me intrigou e atraiu, pois ela mora em uma bela mansão no alto do penhasco, tem uma bem-sucedida livraria, é uma mulher confiante e independente. E é claro que o galã de cabelos morenos e olhos penetrante é apaixonado por ela. Sam, o herdeiro do dono do hotel da ilha, deixou a Ilha das Três Irmãs e sua namorada Mia dez anos atrás. Ele foi embora sem dar muitas explicações, deixando o coração da jovem Mia em frangalhos. Agora, Sam volta para a ilha e tenta reconquistar a feiticeira. Contudo, Mia guarda muito rancor e, mais importante, está preocupada em decifrar os efeitos de uma maldição originada 300 anos antes. O que ela não esperava é que a aceitação do amor e a abertura do seu coração seriam elementos chaves para quebrar a maldição e enfrentar o mal.



Os três volumes intercalam o tempo presente com o século XVI, quando as antepassadas das três protagonistas, as três irmãs, criaram a Ilha das Três Irmãs, um refúgio mágico para fugir da caça às bruxas em Nova Salem. Nesta ilha, cada mulher tomou um rumo diferente - uma deixou a ilha por amor, outra renegou a sua magia e outra enganou um ser mitológico para que se apaixonasse por ela - o que resultou em uma maldição que se realizaria em 300 anos, momento em que Nell, Ripley e Mia formam o círculo de três. Agora elas têm que provar que não cometerão os mesmo erros de suas antecessoras e que irão honrar seu dom e o amor para salvar a Ilha da destruição.




Devo dizer que a leitura dessa trilogia foi uma delícia. Adorei os momentos em que passei na Ilha das Três Irmãs em companhia desses personagens que - depois de três livros - já se tornam íntimos de nós. Terminar o último capítulo me deu um aperto no coração, pois tive que me despedir desse universo, das comidas de Nell, das reações explosivas de Ripley, do glamour de Mia e do encanto dessa ilha. Pudera eu encontrar um lugar mágico assim também!

Espero que vocês tenham gostado dessa dica. Tenho certeza que vocês também irão se encantar com essa saga da Nora Roberts, escritora norte-americana que já escreveu mais de 200 romances e já vendeu  mais de 400 milhões de cópias. Um fenômeno do mercado editorial atual!

Ótimas leituras!

Fernanda

sábado, 13 de outubro de 2018

"A Carne", Júlio Ribeiro

Bom dia, queridos leitores!

Júlio Ribeiro

Hoje venho compartilhar com vocês as minhas impressões sobre uma das minhas leituras mais recentes. Trata-se de um livro de um escritor brasileiro publicado no final do século XIX, mas que foi negligenciado por muito tempo. A obra também causou grande polêmica quando da sua publicação por tratar de temas tabus na época, como o divórcio, adultério e sexualidade. O livro chegou a ser condenado e muitos jovens foram proibidos de lê-lo na época. Foi com Manuel Bandeira (1886-1968), poeta, crítico literário, professor e tradutor, conhecido pelo seu trabalho durante a Semana de Arte Moderna, que a produção de Júlio Ribeiro foi resgatada. Estou me referindo a A Carne, livro de Júlio Ribeiro publicado em 1888.


Eu conheci esse livro através de uma disciplina que estou fazendo no doutorado sobre literaturas do século XIX. Esse século me encanta e gosto muito de investigar como a literatura se desenvolveu durante esse período em diversos locais. Júlio Ribeiro nasceu em Sabará, MG, em 1845 e faleceu em Santos, SP, em 1890. Integrou a Academia Brasileira de Letras na cadeira n. 24. Seu romance A Carne é a sua obra mais conhecida. Foi publicado em 1888, um ano muito importante na história do Brasil - o ano da abolição da escravatura. Ribeiro era anti-escravagista e sua oposição à escravidão pode ser verificada na análise do seu romance, que retrata a difícil situação de escravos negros no interior de São Paulo em meados do século XIX.

Na literatura, Júlio Ribeiro se posicionava como participante do movimento naturalista, cujo percursos foi o francês Émile Zola (1840-1902). Aliás, Júlio Ribeiro dedica o seu livro A Carne a Zola em um prefácio escrito por Ribeiro em francês. O naturalismo tinha como enfoque analisar o comportamento humano e social, principalmente o lado mais obscuro e primitivo do ser humano. O homem era visto como ser biológico e dotado de instintos primitivos, como os animais. A literatura teve influência do cientificismo da época, como, por exemplo, as teorias de Charles Darwin - daí a quantidade de termos científicos nos textos literários.

A Carne traz como protagonista Helena, a Lenita. Sua mãe morreu no seu nascimento e, portanto, Lenita passara a maior parte de sua vida com seu pai, que lhe proporcionara uma educação acima do normal para uma moça na época. Quando ainda jovem, seu pai morre, e Lenita decide deixar a cidade e passar um tempo na fazenda do Coronel Barbosa, amigo do seu pai. A fazenda era localizada no interior de São Paulo e devia sua produção ao trabalho escravo.



Aos poucos, Lenita se afasta dos estudos e das características da vi
da urbana, e vai se acostumando ao local rural e se conectando com o primitivismo da natureza. Ela caça animais e observa os negros, que têm uma liberdade sexual maior - diferentemente das restrições da sociedade urbana. Ela, aos poucos, se sente isolada nesta fazenda. Quando o Coronel Barbosa avisa que seu filho, Manuel, está voltando da Europa, Lenita idealiza a figura desse homem. Ele morara dez anos na Europa, onde estudara, viajara e se casara com um europeia. De volta ao Brasil, Lenita deposita os seus sonhos e desejos nesse homem. Quando ele finalmente chega à fazenda, Lenita se desaponta - vê apenas um homem velho, barrigudo e cheirando à cachaça.

Conforme o tempo passa, Lenita encontra em Manuel um companheiro de estudos a sua altura. Juntos, eles lêem livros, discutem teorias, andam pelas matas, e acabam se apaixonando. Porém, o relacionamento entre dois não seria fácil nem aceito, pois Manuel já era casado na Europa, mesmo que tivesse abandonado a sua esposa. A trama também é uma crítica à estrutura da sociedade, que não permitia o divórcio e, portanto, impedia que duas pessoas que se amassem ficassem juntas após uma delas ter se casado anteriormente. Então, Lenita e Manuel têm que escolher entre atender os desejos da carne ou aceitar as restrições que a sociedade impunha.

Não posso dizer como a trama termina a não ser que de maneira trágica e inesperada. É um romance certamente escandaloso, principalmente se lembrarmos que ele foi escrito em 1888, mais de cento e vinte anos atrás. Imagino como as pessoas da época teriam regido individualmente à leitura.

Depois que o moralismo do século XIX arrefeceu e Manuel Bandeira resgatou os escritos de Júlio Ribeiro, podemos agora voltar para esse texto com os olhos de nossa própria época, o século XXI, e perceber ali um grande romance, que discute o papel da mulher na sociedade do século XIX, a convenção do casamento e critica o trabalho escravo de maneira nua e crua. Certamente, vale a pena a leitura.

Espero que tenham gostado dessa dica de leitura. Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

"O Que Fazem Mulheres", Camilo Castelo Branco

Olá, queridos leitores!

Hoje escrevo para vocês sobre a minha leitura do clássico da literatura portuguesa O Que Fazem Mulheres (1858) do Camilo Castelo Branco (1825-1890).

Camilo Castelo Branco
Camilo Castelo Branco foi um dos grandes nomes da literatura portuguesa do século XIX. Ele escreveu muito durante a sua carreira literária, mais de cem obras, incluindo romances folhetinescos, novelas, histórias de mistério e crônicas para jornais, e foi um dos primeiros escritores portugueses a viver de literatura.

Camilo tinha uma vida boêmia, ficou órfão muito cedo e casou-se aos 16 anos com uma jovem de 15, mas a união não deu certo. Eles tiveram um filha, mas morreu muito cedo. Cinco anos depois, o escritor fugiu com Patrícia Emília, outra jovem, mas a união tampouco deu certo. Também tiveram uma filha, Bernardina, que viveu até a idade adulta. Somente em 1850 Camilo conheceu o amor de verdade, mas esse amor resultou em uma relação muito conturbada. Ele se apaixonou por Ana Plácido, uma mulher casada. Ela havia sido forçada a se casar com um comerciante brasileiro muito mais velho e vivia infeliz. Ana decidiu abandonar o marido e foi morar com Camilo em 1859. Os dois foram acusados de adultério e presos. Em 16 de outubro de 1861, o casal foi julgado e absolvido. Depois desse incidente, Camilo e Ana continuaram a viver juntos e tiveram dois filhos (além do primeiro filho de Ana, Manuel Plácido, reconhecido pelo seu primeiro marido, mas que muitos afirmavam ser filho de Camilo). Manuel, o primeiro marido de Ana, morreu em 1863, e em 1888 Camilo e Ana finalmente se casaram.

Ana Plácido
Ao final de sua vida, Camilo foi perdendo a visão, consequência da sífilis que havia adquirido, e desenvolvendo uma aguda depressão. Ao descobrir que ficaria cego por completo, se suicidou no dia 1 de junho de 1890. Ana Plácido morreu cinco anos mais tarde, e todos os seus três filhos, aliás problemáticos, morreram antes de 1900: Manuel morreu de febre aos 19 anos em 1877, Jorge foi declarado louco e hospitalizado, morreu em 1900, e Nuno, alcoólico e viciado em jogo, morreu em 1896.

A vida conturbada de Camilo é refletida em sua obra, que é caracterizada por tratar de temas como a orfandade e filhos ilegítimos, os direitos do coração contra as convenções da sociedade e um retrato dos costumes da sociedade portuguesa do século XIX.


O Que Fazem Mulheres, publicado em 1858, quando Camilo já se encontrava apaixonado por Ana Plácido e já se estabelecia como escritor, ainda que em sua fase inicial. A protagonista da trama é Ludovina, uma jovem de família simples. Sua mãe, Dona Angélica, havia sido forçada pelo pai a se casar com Melchior Pimenta, que tinha prospecção de herdar uma fortuna, que não aconteceu. Ludovina é apaixonada pelo charmoso Ricardo de Sá, jovem preguiçoso dado às letras e que cortejava diversas mulheres ao mesmo tempo apenas pelo prazer de seduzir. Como Ludovina era uma jovem bela mas humilde, Ricardo não pretendia se casar com ela. Quando a jovem soube disso através de uma artimanha de sua mãe, Ludovina decide se render aos planos de seu pai de casá-la com João José Dias, um homem mais velho que havia feito fortuna no Brasil. Grosseiro, gordo e disposto a zelar por sua honra a qualquer custo, João José Dias era o oposto da delicadeza de Ricardo de Sá. Porém, Ludovina aquiesce e se casa com a condição de que seus pais continuem morando com ela.


A história se desenrolar e um charuto, protagonista de um "capítulo avulso", levanta suspeitas de um adultério, tornando a vida de Ludovina um inferno. Não vou dizer de quem são as suspeitas, sobre quem elas recaem, nem se elas são verdadeiras ou não, é preciso que você leia O Que Fazem Mulheres e descubra por conta própria!

Alguma semelhança entre Ludovina e Ana Plácido? Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência?

A estrutura do romance de Camilo Castelo Branco é muito interessante e inovadora para a época. O narrador conversa diretamente com o leitor e apresenta um "capítulo avulso", que o leitor pode encaixar onde quiser, e um capítulo "que é melhor não ser lido", além de dois prólogos, um "a todos que lerem" e outro "a alguns dos que lerem". Aguçou a sua curiosidade? Imagine a curiosidade de um leitor do século XIX, que se deparava com algo assim, muito provavelmente, pela primeira vez!

Lisboa no século XIX

Já me estendi demais, mas apenas gostaria de reiterar a sugestão da leitura de O Que Fazem Mulheres, que trata de um tema convencional da literatura da época - o casamento forçado por conveniência - mas de uma maneira inovadora e divertida.

Espero que tenham gostado dessa dica literária. Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

"A Mão e a Luva", Machado de Assis

Bom dia, queridos leitores!

Hoje eu trago para vocês as minhas impressões sobre o livro A Mão e a Luva, do maravilhoso Machado de Assis (1839-1908). Esse é o segundo livro publicado pelo autor carioca, que foi lançado primeiramente em formato seriado no jornal O Globo entre setembro e novembro de 1874, e no mesmo mês de novembro saiu em formato de livro.

Muitos críticos consideram essa obra de Machado como pertencente a sua primeira fase, a fase romântica, enquanto os seus livros mais "maduros" fariam parte da tradição realista. Contudo, não é tão simples assim (e nem vantajoso!) classificar a obra de Machado ou de qualquer outro autor. O que vemos em A Mão e a Luva é um narrador super irônico e não-convencional, que nos leva a conhecer a história de Guiomar, uma jovem moça de origens humildes, e seus três pretendentes: Estêvão, Luís Alves e Jorge.

O livro começa já durante uma conversa entre Estêvão e Luís Alves, dois jovens cariocas que estudam Direito em São Paulo. Estêvão, sonhador e ingênuo, conta a sua paixão avassaladora por Guiomar, que mal lhe retribui o afeto. É verdade que Estêvão conhece a moça muito pouco, mas já está disposto a morrer por um amor não correspondido. O exagero de sentimento de Estêvão e suas referências literárias (ele lê, por exemplo, Os Sofrimentos do Jovem Werther, do alemão Johan Wolfgang von Goethe [1749-1832], e escreve versos à la Lord Byron [1788-1824]) o caracterizam como uma própria caricatura do movimento literário Romantismo, já em decadência em meados do século XIX. 
Machado de Assis

Luís Alves, em oposição, é um rapaz ambicioso e racional. Logo, ele percebe em Guiomar a mesma ambição, o que o leva a cogitar a ideia de casar-se com ela também. Guiomar era uma moça muito humilde que ficou órfã muito cedo. Porém, ela teve a sorte de ter sido adotada por sua madrinha, uma baronesa, que perdeu sua filha, que tinha praticamente a mesma idade de Guiomar. Guiomar se torna, assim, uma nova filha para a rica baronesa. 


Os planos da baronesa e de sua governanta inglesa, Mrs. Oswald, são outros. As duas planejam casar Guiomar com o sobrinho da baronesa, o preguiçoso e sem-graça Jorge. Frente a esses três pretendentes, Guiomar deve escolher entre seguir o coração, uma ambição ou o desejo de sua benfeitora. Guiomar é uma protagonista feminina muito forte, tem caprichos e vontades, e estava muito a frente do seu tempo. Ela sabia como deveria se comportar para garantir um lugar de conforto e respeitável na sociedade. 



Guiomar e seus três pretendentes em uma adaptação do livro para HQ

O sagaz narrador da trama não é nada imparcial. Seus comentários irônicos e linguagem metafórica deixam a leitura mais prazerosa, dinâmica e divertida. Acima de tudo, ele defende Guiomar de toda e qualquer crítica. Guiomar pode não ser o exemplo de como uma mulher deveria se comportar, mas ela é a "nossa heroína", como o próprio narrador diz. E que heroína! Ame-a e ou odeie-a!



Rio de Janeiro no século XIX - cenário de A Mão e a Luva

Então é isso, pessoal! Espero que tenham gostado das minhas impressões sobre esse título não tão conhecido de um dos maiores escritores da nossa literatura brasileira.


Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!


Fernanda


quinta-feira, 16 de agosto de 2018

"Outlander - A Viajante do Tempo", Diana Gabaldon

Olá, pessoal!

Hoje venho escrever para vocês sobre uma das minhas leituras recentes, Outlander - A Viajante do Tempo, de Diana Gabaldon. Esse livro já estava na minha lista há muito tempo, principalmente depois da estreia da série baseada nos livros, que está disponível na Netflix. Eu sabia que a história envolvia viagens no tempo e a Escócia do século XVIII, por isso já me interessei. Acredito que tenha iniciado a leitura com expectativas muito altas.

A protagonista de Outlander, e quem nos conta a história em primeira pessoa, é Claire Randall, uma jovem casada com Frank Randall. O ano é 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Claire trabalhara como enfermeira durante a guerra e visto muito sofrimento. Frank trabalhara em outro setor e, por isso, viveram separados por alguns anos. Reunidos em 1945, os dois tentam se reconectar, mas se sentem estranhos um na presença do outro. Para resgatar esse relacionamento, os dois decidem viajar juntos antes de Frank iniciar o trabalho como professor acadêmico na Universidade de Oxford. Simbolicamente, os dois vão para as Terras Altas na Escócia, pois, além de ter sido um lugar pouco destruído durante a guerra, foi o local onde os dois haviam passado a sua lua de mel depois do seu casamento. Frank, como professor de história, se encanta com o passado do lugar, principalmente com informações sobre Jonathan Randall, um dos seus antepassados.

Claire
Em um de seus passeios pela região enquanto Frank se dedica aos estudos e a sua pesquisa, Claire vai até a montanha de Craigh na Dun (que, aliás, é um lugar fictício criado pela autora), onde há um círculo de pedras, resquícios, provavelmente, de rituais antigos. Encantada pelas pedras, Claire toca uma dela e sente algo extraordinário, uma grande força que a puxa. Ao voltar à consciência, ela se vê no mesmo lugar, mas em outra época! Ela está no século XVIII! Ela é capturada por soldados ingleses e, mais tarde, sequestrada por membros do clã escocês Mackenzie e levada ao castelo de Colum Mackenzie. Eu sou simplesmente apaixonada por histórias de viagens no tempo, mas, nesse caso, eu achei que Claire aceitou muito facilmente o fato de ter voltado no tempo. Eu, com certeza, levaria muito mais tempo para aceitar a ideia! Algo muito divertido com relação à viagem no tempo é que Claire se veste e utiliza palavras que deixam os habitantes das Terras Altas daquela época pasmos. Por exemplo, eles acham que o vestido de Claire é uma camisola indecente e não entendem o significado da palavra "infecção". E Claire é muito irônica ao contar a história através de sua perspectiva, por isso a leitura torna-se bem divertida.


Durante o resto do livro, Claire precisa aprender a viver com os costumes e dificuldades do século XVIII, como a comida simples, os castelos sem aquecimento, longas viagens a cavalo, etc. Por coincidência (ou destino), Claire encontra Jonathan Randall, o ancestral de Frank, e descobre que seu verdadeiro caráter não tem nada a ver com as decorações com as quais ele foi representado nos registros históricos. Ela também conhece Jamie, um jovem e atraente escocês, que vai fazê-la duvidar sobre o que ela realmente quer: voltar para a sua época e seu marido Frank, ou ficar para sempre na Escócia do século XVIII.

Capitão Randall
O livro é bastante prazeroso de ler. São mais de 800 páginas e há diversas passagens que poderiam ser excluídas sem alterar o fluxo principal da narrativa. Por isso, eu digo que Outlander é mais focado nos personagens e seus sentimentos do que em ações necessárias para o desenvolvimento da trama. Você acompanha os personagens dia a dia e acaba se envolvendo com eles.
Jamie

Há também, claro, uma história de amor. Claire se apaixona por Jamie, o que a divide entre dois tempos e dois homens. Há muitas cenas de amor entre Claire e Jamie, e muitas explícitas demais, que, na minha opinião, são desnecessárias, principalmente em um livro de fantasia. Porém, há diversos leitores com diversas opiniões.


Não quero me alongar e contar mais sobre a trama para vocês. Deixo apenas a recomendação para que leiam Outlander e, também, assistam à série, que é de uma fotografia belíssima. Assisti apenas aos três primeiros episódios por enquanto, mas já estou amando! O elenco foi muito bem escolhido, as paisagens são magníficas, e algo que achei muito interessante que acontece na série mas não no livro (pelo menos não no primeiro volume) é a intersecção de cenas em 1743 e 1945. Assim, conhecemos melhor a vida de Claire antes de voltar ao passado e também sabemos mais sobre o que se passa com Frank depois do desaparecimento de Claire.


Estou muito curiosa para continuar assistindo à série e para ler os próximos volumes da saga. O segundo livro, A Libélula no Âmbar, já está sobre a minha escrivaninha, apenas esperando para ser lido!

Espero que tenham gostado dessa resenha. Se vocês já leram ou pretendem ler Outlander, deixe sua opinião nos comentários abaixo. Uma ótima semana e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

sábado, 2 de junho de 2018

"Jane Eyre", Charlotte Brontë

Olá, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura. Trata-se de um livro que já está na minha lista há muitooo tempo: o clássico da literatura inglesa do século XIX, Jane Eyre.

O contexto de publicação do livro em si já é super interessante. Ele foi escrito por Charlotte Brontë, a mais velha das irmãs Brontë. As outras duas, Emily e Anne, também eram escritoras. Porém, no século XIX, ainda era muito difícil para uma mulher conseguir publicar seus trabalhos, ainda mais mulheres solteiras. Por isso, as meninas publicaram seus livros sob os pseudônimos Currer Bell (Charlotte), Ellis Bell (Emily) e Acton Bell (Anne). Quando as críticas de Jane Eyre saíram, a maioria imaginou que o autor da história era um homem, já que - de acordo com eles - uma mulher não seria capaz de escrever um romance tão complexo e com personagens tão desenvolvidos. Imagina a surpresa ao descobrirem mais tarde que se tratava de uma jovem mulher?

Charlotte Brontë
Jane Eyre foi publicado em três volumes em 1847. Mesmo depois de passada a primeira onda da literatura gótica (característica do final do século XVIII e ilustrada por trabalhos de escritores como Ann Radcliffe e Horace Walpole), o romance de Charlotte traz motivos góticos, como a mansão misteriosa, atmosfera de chuvas e neblina, um segredo do passado, sonhos e visões sobrenaturais, etc. Fica claro que Charlotte era uma leitora ávidas dos clássicos góticos do século anterior.

Ao longo do romance de quase 500 páginas, nós acompanhamos a protagonista Jane Eyre desde a sua infância, criada por uma tia depois da morte de ambos os pais. Sua tia, esposa do irmão da sua mãe, a considerava um empecilho e, por isso, a tratava mal. Quando Jane atingiu uma certa idade, foi mandada para a instituição para crianças órfãs Lowood, onde se tornou uma moça amarga e fechada, porém dedicada ao estudo e conhecimento. Após passar seis anos como estudante, trabalhou mais dois como professora na mesma instituição.

Jane Eyre na instituição Lowood. Cena do filme de 2011
Aos dezoito anos, Jane sonhava em deixar Lowood e conhecer mais do mundo. Por isso, começou a procurar emprego como governanta, até que foi chamada para trabalhar na mansão do Sr. Rochester, Thornfield Hall, como instrutora da pequena Adèle. As coisas parecem melhorar para Jane, até que ela começa a perceber barulhos e eventos curiosos - até mesmo perturbadores - na casa. Além disso, ela reluta em admitir que sente algo poderoso pelo seu patrão, que parece gostar dela também. Mas o passado desse homem é muito mais negro do que ela imagina.

E muitas outras coisas acontecem durante a história, mas não vou revelá-las aqui. Jane é uma personagem muito bem construída. A narrativa em primeira pessoa nos dá acesso aos seus pensamentos e sentimentos, sua força e desejo em ser uma mulher independente - o que ela consegue.

Não é à toa que Jane Eyre é um grande clássico da literatura e continua sendo lido nos dias de hoje, 170 anos depois da sua primeira publicação. Jane Eyre se tornou um dos meus livros preferidos e, tenho certeza, voltarei a lê-lo muitas vezes ainda no futuro.

Espero que tenham gostado dessa resenha. Uma ótima semana e ótimas leituras,

Fernanda