terça-feira, 28 de novembro de 2017

"Aura", Carlos Fuentes

Olá, queridos leitores!

Carlos Fuentes
Hoje venho compartilhar uma leitura fantasmagórica de arrepiar. Trata-se da novela "Aura", escrita pelo mexicano Carlos Fuentes (1928-2012). Eu não conhecia esse autor e confesso que esse foi o meu primeiro contato com a literatura mexicana. Gostei muito do estilo de escrita do autor e já me animei a ler mais da sua obra. Ele nasceu, na verdade, na Cidade do Panamá, mas se mudou para o México aos 16 anos. Seus pais eram diplomatas mexicanos e, por isso, passou sua infância morando em diversas metrópoles mundiais - chegou até a morar no Rio de Janeiro. Na idade adulta, seguiu os passos dos pais e entrou para a diplomacia, trabalhando como embaixador do México na França por diversos anos. Também trabalhou como professor em renomadas universidades norte-americanas, incluindo Harvard, e recebeu diversos prêmios literários ao longo da sua carreira.

Com um currículo e tanto, não podemos deixar de ler Fuentes, não é mesmo?

"Aura" é uma das principais obras literárias de Fuentes, publicada em 1962. A primeira característica que chamou a minha atenção foi que o texto é escrito na segunda pessoa do singular, o que é uma prática um tanto quanto incomum. Ele inicia o texto da seguinte forma:

"Você lê esse anúncio: uma oferta assim não é feita todos os dias. Lê e relê o anúncio. Parece dirigido a você, a ninguém mais."

O narrador se dirige, portanto, diretamente a você, que se torna o protagonista da história. Você se torna Felipe Montero, vê o que ele vê, pensa o que ele pensa, sente o que ele sente. É uma experiência literária muito interessante.

Felipe é um jovem historiador que se sente intrigado com esse anúncio de trabalho no jornal, que parece ser direcionado a ele. Só faltava que lhe pusessem o nome. Precisando de um emprego, ele decide ir até o local descrito no anúncio para descobrir mais sobre esse posto. Ele chega em um casarão que parece abandonado, no meio do centro da cidade, rodeado por prédios modernos e comerciais que parecem engolir a velha casa.

Ele entra no casarão, que está totalmente escuro do lado de dentro. As luzes estão todas apagadas e há um cheiro de mofo e podridão no ar. Uma atmosfera um tanto fantasmagórica, que já induz o leitor a pensar que algo não está certo com relação a esse local.

Uma voz o chama de dentro da casa, e ele segue até um quarto, onde uma velha senhora se encontra deitada em uma cama. É ela quem o chamava. A cama em que ela deita está cheia de migalhas de comida e a velha está deitada, parecendo muito frágil, junto com um coelho. A cena fica cada vez mais esquisita.

A velha, chamada Dona Consuelo, lhe conta porque precisa dos seus serviços. Ela é viúva e gostaria que Felipe organizasse as memórias do seu falecido marido, o general Llorente, para publicá-los. Ela lhe entrega as pastas com os antigos documentos e avisa que Felipe deve morar na casa para terminar o trabalho o quanto antes. Felipe se sente indeciso ao olhar ao seu redor, mas sua indecisão se dissipa quando ele percebe que há outra pessoa no quarto. Aparentemente, ela estava ali o tempo todo. Era Aura, sobrinha de Dona Consuelo, que cuida da sua saúde. Ela é morena de olhos verdes e Felipe se sente atraído por ela instantaneamente e decide aceitar a proposta.


Conforme Felipe vai descobrindo mais sobre Dona Consuelo, Aura e o general através das memórias do falecido, o jovem vai ficando cada vez mais intrigado. Há uma atmosfera sombria nessa casa escura e na maneira como as duas mulheres se comportam. Durante um jantar, ele percebe que uma parece copiar os movimentos da outra, como se uma fosse o reflexo em um espelho da outra.

Mas Felipe não consegue deixar a casa, já se sente preso a Aura, que de um dia para o outro parece ter envelhecido vinte anos.

Como a história termina, eu não vou contar para vocês! Vale a pena ler esse livrinho curto de Fuentes e descobrir por si próprio. Aliás, há muitas interpretações possíveis. Gostaria muito de saber a sua opinião depois dessa leitura.

Eu estou curiosíssima para ler mais textos de Fuentes. Se você já leu algo do autor, deixe suas sugestões aqui nos comentários!

Uma ótima semana a todos e ótimas leituras!

Fernanda


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"O Estranho que Nós Amamos", Thomas Cullinan

Boa noite, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura. E, devo adicionar, uma leitura muito envolvente, devorei as páginas! Trata-se de O Estranho que Nós Amamos, ou The Beguiled no idiomas original, escrito pelo norte-americano Thomas Cullinan (1919-1995) e publicado pela primeira vez em 1966.

Esse romance recebeu atenção renovada nesse último ano porque foi adaptado para o cinema sob direção de Sofia Coppola, e com Nicole Kidman e Kirsten Dunst no elenco. A versão do livro que chegou até mim foi a que traz na capa uma imagem do filme, que encontrei em uma caixa de promoções em uma livraria. Me interessei pela capa, pela ideia da adaptação cinematográfica, pela cineasta e atrizes envolvidas e, é claro, pela trama da história. Portanto, decidi levá-lo. E ainda bem que fiz essa escolha, pois esse livro se tornou um dos meus preferidos de 2017 com toda a certeza!

Antes de conversarmos sobre a trama, precisamos explorar um pouquinho do contexto histórico da época em que o livro se passa, pois ele é essencial para o desenrolar do romance. Estamos nos Estados Unidos na década de 1860 em plena Guerra de Secessão, ou Guerra Civil Americana, como também é conhecida, que durou de 1861 a 1865. Esse conflito se desenrolou entre os estados do Norte, conhecidos como a União, e os estados do Sul, ou Confederados. O Sul era escravocrata, enquanto o Norte era abolicionista, e essa foi a principal razão do conflito armado.



O Estranho que Nós Amamos se passa durante esse período em uma escola para meninas em Virginia, território dos Confederados, administrada pelas irmãs Martha e Harriet Farnsworth. Como se trata de um período de guerra, a comida se tornou escassa e muitas das alunas voltaram para as suas casas, com exceção de cinco garotas que permaneceram - ou por não terem para onde ir, ou porque suas casas foram ocupadas pelo exército Yankee, os nortenhos. As cinco garotas são extremamente diferentes umas das outras: Emily Stevenson é filha de um general de alto escalão do exército confederado e segue todas as regras. Alicia Simms é a segunda mais velha, tem 16 anos, e foi deixada na escola por sua mãe, uma mulher de reputação duvidosa e que não pagava as contas escolares. Edwina Morrow é a mais velha das garotas e a mais problemática. Ela trouxe roupas bonitas, itens de luxo - como sabonetes perfumados - e dinheiro para a escola. Houve rumores de que seu pai a abandonou na instituição porque ela era uma filha ilegítima de mãe negra. Amelia Dabney é a mais selvagem de todas, a segunda mais nova, gosta de passar o maior tempo possível na floresta, caçando animais e insetos para cuidar deles. E, por fim, Marie Deveraux, a única católica entre as alunas, é a mais nova de todas, tem apenas 10 anos, mas é muito inteligente e gosta de espionar os outros.


Mapa dos Estados Unidos durante a Guerra de Secessão

As duas mulheres que comandam a escola são irmãs que, ao perderem o pai e o irmão, herdam a propriedade no sul dos Estados Unidos. Porém, sem dinheiro para manter a mansão, elas decidem transformá-la em uma escola para meninas. Quem as auxilia é Mattie, a única escrava que permaneceu na casa. Os outros foram todos vendidos para cortar as despesas.

As meninas com Miss Martha e Miss Harriet no filme de Coppola

Em uma manhã durante o ano escolar, Amelia encontra algo surpreende ao caminhar pela floresta como de costume: um soldado Yankee ferido. A princípio, ela não sabe como agir, pois ele é do exército inimigo. Porém, ao perceber que ele estava muito ferido e semi-inconsciente, ela decide arrastá-lo para a escola. Há muita discussão e excitação entre as ocupantes da mansão, pois há muito tempo não havia um homem entre elas. Por fim, Miss Martha, a líder das irmãs, consente em deixá-lo ali até que ele se recupere. Ela usa de seus conhecimentos de enfermeira e cuida dos ferimentos do soldado, que aos poucos se recupera.

Colin Farrell como Johnny McBurney no filme de Coppola

O que era para ser um curto período do soldado Johnny McBurney na escola das irmãs Farnsworth acaba se tornando semanas e meses. A presença de Johnny na casa atrapalha a rotina de estudos da instituição e distrai as meninas, que, uma a uma, são seduzidas pelo charme desse estranho. No filme de Coppola, quem interpreta o soldado Johnny é Colin Farrell.

O soldado Johnny seduzindo uma das garotas
Miss Martha percebe a influência do rapaz nas meninas, mas mandá-lo embora se torna cada vez mais difícil, pois Johnny sabe de segredos que as garotas e mulheres na casa prefeririam não revelar. Juntas, elas terão que descobrir uma maneira de se livrar dessa constante presença.

O que eu mais gostei no livro de Cullinan foi que a história é contada através da perspectiva de todas as mulheres da trama. Cada seção traz o nome de uma das oito mulheres, e nesse trecho a perspectiva em primeira pessoa é da mulher ou garota que a nomeia. Dessa forma, podemos conhecer melhor a personalidade de cada uma através da maneira como ela escreve, e podemos saber seus mais íntimos pensamentos e segredos. É uma escrita muito envolvente, principalmente devido a essa presença sedutora e, ao mesmo tempo, assustadora.

Thomas Cullinan

Thomas Cullinan não é um nome muito conhecido da literatura mundial. Ele escreveu romances e peças teatrais. O Estranho que Nós Amamos é o seu livro mais famoso, que já foi adaptado ao cinema também em 1971, com Clint Eastwood no papel do sedutor soldado.Além desse romance, Cullinan publicou The Besieged (1970), O Oitavo Sacramento (1977) e The Bedeviled (1978). Eu fiquei curiosa para ler mais trabalhos desse autor!

Ainda não tive a oportunidade de assistir ao filme da Sofia Coppola - que, aliás, eliminou o papel da Mattie!. Por enquanto, vou deixar o trailer aqui para vocês conferirem:




Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda



terça-feira, 10 de outubro de 2017

"Paris no século XX", Júlio Verne

Olá, pessoal!

Hoje venho compartilhar com vocês uma das minhas mais recentes leituras, Paris no século XX, do renomado escritor francês Júlio Verne (1828-1905). Já fazia tempo que gostaria de ler algo escrito por Verne, principalmente seus livros mais conhecidos, como Viagem ao Centro da Terra, publicado em 1864, e Vinte Mil Léguas Submarinas, de 1870. Ao pesquisar sobre o autor, fiquei pasma com a quantidade de obras publicadas por ele: mais de 50! Por isso, levarei um bom tempo para conhecer a vasta produção do francês, mas como já tinha em casa o Paris no século XX, resolvi começar por ele.

Esse é um livro que tenho na minha estante há muito tempo! É uma edição publicada pela Editora Ática em 1994. Sabe quando você observa os seus livros e surge uma vontade inexplicável de ler um dos livros que estão lá esperando para serem lidos há muito tempo? Isso acontece comigo às vezes. Portanto, quando me deparei com Paris no século XX ali, acumulando pó na estante, decidi lê-lo!

Hetzel, editor de Verne
Logo no início da leitura, o preâmbulo do editor e o prefácio escrito por Piero Gondolo della Riva, conhecedor italiano das obras de Verne, já chamaram a minha atenção. Della Riva escreve que Paris no século XX foi provavelmente escrito  em 1863, no início da carreira do francês, mas ele só foi publicado em 1989, quando o manuscrito da obra foi encontrado por um bisneto do escritor. Logo após a escrita do romance, ele foi categoricamente recusado pelo editor Pierre-Jules Hetzel (1814-1886), que havia publicado o primeiro livro do autor, Cinco Semanas em um Balão (1863).

Segundo della Riva, Hetzel não gostou dos neologismos de Verne, afirma que certos diálogos são cansativos e criticou o protagonista Michel, que mais parece "um pavão com os seus versos".

Em sua carta para Verne, Hetzel escreveu o seguinte:

"Estou desolado, desolado por ter que lhe escrever o que estou escrevendo - eu consideraria um desastre para seu nome a publicação de seu trabalho."

Della Riva, no entanto, escrevendo no final do século XX, vê qualidades na obra de Verne que podem ter escapado Hetzel em meados do século XIX. Ele afirma que - tanto ele como o leitor contemporâneo tendo passado já pelo século XX - o livro apresenta uma perspectiva interessante da visão de Verne do futuro século XX, ainda mais se compararmos com o que de fato aconteceu. Segundo della Riva, "conhecemos a Paris do século XX, e a comparação entre a realidade e as fantásticas intuições do jovem Verne não pode deixar de surpreender-nos".

Della Riva vê um caráter autobiográfico nessa obra de Verne (o filho de Verne, aliás, também se chama Michel, assim como o protagonista de Paris no século XX) e o considera "uma enciclopédia do pensamento futuro de Verne". Nesse romance, Verne tem uma visão bem pessimista do mundo, dos avanços da tecnologia e ciência e com relação à solidão do ser humano em meio a todos esses avanços.

A minha leitura do romance em si foi, portanto, influenciada por essa visão de della Riva e pela recusa de Hetzel. Tinha altas expectativas em ler um romance distópico de Júlio Verne, e confesso que me desapontei. A história não me cativou, tampouco os personagens. Ao final, já não via a hora do livro acabar e eu poder partir para outra leitura.

Michel e seu tio Huguenin
De maneira geral, o livro nos conta a história de Michel, um rapaz jovem e sonhador nessa Paris distópica do século XX: tomada pela industrialização e por um senso de praticidade, as letras e artes foram abolidas da sociedade. Ninguém mais lê, os grandes escritores franceses do século passado - como Hugo e Flaubert - foram esquecidos, e os cursos de letras abolidos do sistema educacional focado nas ciências práticas. Nesse universo, Michel, órfão de pais e sobrinho do notável Sr. Stanislas Boutardin, banqueiro e diretor da Sociedade das Catacumbas de Paris, tem que se adaptar para sobreviver. Sonhador e amante das letras, ele não se conforma com os rumos da sociedade parisiense. Sua vida ganha sentido quando conhece o pobre irmão da sua mãe falecida, o tio Huguenin, que trabalha na decadente biblioteca da cidade - que tornou-se praticamente um museu - e reascende a chama artística do garoto. Michel também reencontra o Sr. Richelot, que foi seu professor na infância, e a filha Srta. Lucy, por quem Michel se apaixona. Os quatro formam um grupinho de resistência à mecanização da cidade e da própria humanidade. O resultado, porém, não é nada positivo.

Em 1863, portanto, Verne imagina como seria a Paris de 1960. Por exemplo, o orador durante a premiação da Sociedade Geral de Crédito Instrucional elogiava o presente moderno:

"O orador prosseguia, sem vacilar. Lançou-se de corpo e alma ao elogio do presente em detrimento do passado; entoou a litania das descobertas modernas; deu mesmo a entender que, nesse aspecto, o futuro pouco teria a fazer; falou com um desprezo benevolente da pequena Paris de 1860 e da pequena França do século XIX; enumerou, com profusão de epítetos, as benfeitorias de seu tempo, as comunicações rápidas entre os diversos pontos da Capital, as locomotivas cruzando o asfalto dos bulevares, a força motriz distribuída a domicílio, o ácido carbônico desbancando o vapor de água e finalmente o Oceano, o próprio Oceano lavando com suas vagas as praias de Grenelle; foi sublime, lírico, ditirâmbico, em suma, perfeitamente insuportável e injusto, esquecendo-se de que as maravilhas do século XX já estavam presentes nos projetos do século XIX" (38-39).

Foi uma leitura lenta, mas de nenhuma forma totalmente negativa. Achei interessantes as previsões de Verne com relação ao sistema ferroviário e educacional no futuro, formas de energia e novas tecnologias. Muita coisa do que Verne previu chegou, de fato, a se concretizar, enquanto outras se mantiveram apenas na imaginação do autor. Paris no século XX é um relato fictício pessimista de uma Paris moderna mas sem arte, e que, por isso, estava fadada ao fracasso. É evidente a crítica de Verne à rápida industrialização da cidade e mecanização do trabalho, e à desvalorização das letras e artes.

Júlio Verne

Minha jornada pelos escritos de Verne apenas começou. Pretendo ler mais livros escritos pelo francês, principalmente seus livros de aventura e viagens que o tornaram imortal através das suas palavras.

Ótima semana a todos e ótimas leituras!

Fernanda



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

"Assassinatos na Academia Brasileira de Letras", Jô Soares

Olá, pessoal!

Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, de Jô Soares.

Eu me apaixonei pelo trabalho de Jô Soares como escritor quando eu li pela primeira vez O Xangô de Baker Street, o quarto livro escrito pelo autor e publicado em 1995. O Xangô se passa no Rio de Janeiro do século XIX e ninguém menos que Sherlock Holmes vem para as terras tropicais do Rio para desvendar assassinatos envolvendo um violino Stradivarius. Eu sou apaixonada por histórias que se passam no Rio do século XIX e me envolvi muito com a trama de Jô.

Quem tiver interesse em conhecer mais esse livro, a resenha feita aqui no blog pode ser acessada aqui:

http://www.oprazerdaliteratura.com.br/2015/02/o-xango-de-baker-street-jo-soares.html


Mas o tema de hoje é outro livro de Jô, publicado dez anos mais tarde, em 2005, e ambientado no Rio de Janeiro da década de 1920.
O ano é 1924, o luxuoso Copacabana Palace acaba de ser inaugurado e a sociedade carioca está em alvoroço porque um imortal da Academia Brasileira de Letras foi assassinado na noite de sua posse. E o pior é que o assassino não para por aí, e os demais 39 acadêmicos correm risco de vida.

A Academia Brasileira de Letras foi fundada em 20 de julho de 1897 nos moldes da Academia Francesa de Letras por escritores como Machado de Assis, Olavo Bilac, Graça Aranha, Visconde de Taunay, Ruy Barbosa, entre outros. Seu objetivo é cultivar e preservar a língua portuguesa e a cultura brasileira. Em 1923 (um ano antes da data em que se passa a história de Jô Soares), o governo francês doou à Academia Brasileira de Letras uma réplica do Petit Trianon de Versalhes, construído para a Exposição do Centenário da Independência do Brasil. A Academia está instalada lá até os dias de hoje.

Caso queira conferir os membros passados e atuais da ABL, é só clicar aqui.


Sede da Academia Brasileira de Letras, Petit Trianon, no Rio de Janeiro

Quem fica encarregado de solucionar os crimes é o comissário Machado Machado, assim chamado devido ao amor de seu pai por Machado de Assis. O comissário é, também, um apaixonado das letras, e se interessou pelos "Crimes do Penacho", como ficaram conhecidos na mídia, pelo envolvimento de escritores e intelectuais. Ele herdou o amor à Machado de Assis, fundador da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, e cita trechos de sua obra de cor, surpreendo os outros aos seu redor.


Copacabana Palace quando da sua inauguração em 1923

Catherine Deshayes
A história dos assassinatos é atrativa, mas o que mais me chamou atenção nesse livro foi o plano de fundo. Adorei conhecer mais do Rio da década de 20. Jô Soares menciona diversos estabelecimentos que existiram de verdade, como o Teatro São José (e a influência do teatro francês e das féeries), fundado em 1813, Café Lamas, fundado em 1874, os bondes de Santa Teresa, entre outros.

Jô também cita uma seita de envenenadores que data dataria Idade Média, Veneficorum Secta. Não há registros de que essa seita tenha mesmo existido, mas algumas pessoas que Jô cita que teriam participado dessa seita existiram na realidade, como Catherine Deshayes, dita La Voisin, considerada uma feiticeira francesa do século XVI. 

Apenas duas coisas me incomodaram nesse livro de Jô Soares. A primeira foi o fato de todas as mulheres da trama sentirem uma atração incontrolável pelo comissário Machado Machado. Acho isso difícil de acreditar. E o fato de que lá por 3/4 do livro, eu já imaginava quem seria o assassino. Esperei por uma reviravolta ao final do livro, mas ela não aconteceu.

De qualquer forma, foi uma leitura rápida e muito prazerosa, além de ter enriquecido meu conhecimento sobre o Rio da década de 1920 e sobre a própria Academia Brasileira de Letras. Recomendadíssimo!


Rio de Janeiro na década de 1920



Jô Soares
Além de O Xangô de Baker Street e Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, Jô Soares (1938-) já publicou outros 5 livros. Já tenho As Esganadas (2011) em casa, mas estou mais animada para ler O Homem que Matou Getúlio Vargas (1998) e conhecer melhor o Brasil da década de 1950.

Uma ótima semana a todos e, claro, ótimas leituras!

Fernanda


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

"A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra", Robin Sloan

Bom dia, queridos leitores!

Hoje eu estou de volta para comentar com vocês a minha última leitura, "A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra", do norte-americano Robert Sloan.
Confesso que primeiramente me senti atraída a ler esse livro pela capa! Eu simplesmente amo livros com livros na capa! O trecho do livro publicado na contracapa também me aguçou a curiosidade:

"Perdido nas sombras das estantes, quase caio da escada. Estou exatamente no meio do caminho. O chão da livraria está bem longe de mim, a superfície de um planeta que deixei para trás. O topo das estantes está bem próximo,e é escuro por lá."

É justamente com essas palavras que o livro inicia. Ele é contado em primeira pessoa por Clay Jannon (adoro livros contados em primeira pessoa!), um webdesigner que, devido à recessão nos Estados Unidos, perdeu seu emprego e se viu obrigado a trabalhar em uma livraria 24 horas. E pior, no turno da madrugada, das 22:00 às 6:00!

O dono dessa livraria peculiar é Mr. Penumbra, um velho de olhos azuis muito intensos. Ao contratar Clay, ele o faz apenas um pedido:

"- Fale um pouco sobre um livro que ame."

E Clay deu a resposta certa:

"- Eu amo As Crônicas da Balada do Dragão".

Assim, Clay começa a trabalhar nessa estranha livraria que atende ainda mais estranhos clientes. Eles são poucos, mas assíduos. E eles não se interessam pelos poucos lançamentos expostos na vitrine da loja, mas nos misteriosos volumes em capa de couro do Arquivo Pré-Histórico.

Uma cliente fora do normal em um dos turnos da madrugada de Clay foi Kat, uma jovem que trabalha no Google e entusiasta de novas tecnologias. Influenciado pelos interesses dela, Clay cria um protótipo em 3D da livraria do Mr. Penumbra, digitaliza o arquivo de entrada e saída e livros e acaba descobrindo um padrão singular. O que ele descobre é que os clientes esquisitos da livraria e o próprio Penumbra fazem parte de uma sociedade secreta, que busca desvendar um código escrito há mais de 500 anos. Será que a tecnologia do século XXI e os recursos do Google podem ajudar a desvendar esse mistério?
Ilustração por Laura Terry

O mistério dessa Irmandade envolve Aldus Manutius (1499-1515), um tipógrafo italiano, e Francesco Griffo (1450-1518), que também trabalhava com tipografia na Veneza do século XVI. Porém, no romance de Sloan, Francesco Griffo é transformado em Griffo Gerritszoon, o criador da fictícia fonte Gerritszoon. Eu acho muito interessante quando autores misturam fato e ficção. O importante é que o leitor, depois de terminada a leitura, não coloque o livro de volta na estante imediatamente, mas que busque mais informações sobre o que leu, diferentes opiniões na Internet, vídeo resenhas sobre o livro no YouTube... enfim, há tantos recursos hoje em dia e essa prática só enriquece a leitura!

Aldus Manutius

Eu gostei da leitura. O discurso principal do livro, na minha opinião, é o lugar e a importância da leitura e dos livros físicos na nossa era digital. E de quebra, há um código misterioso e uma sociedade secreta de bibliófilos. E também ficamos sabendo um pouco sobre o que acontece dentro do campus do Google em São Francisco.

Ilustração de Laurel Holden
Confesso que não era bem isso que eu estava esperando quando vi a capa do livro pela primeira vez e li a sinopse. A premissa do livro é bem interessante, mas a maneira como o autor escreveu poderia ser diferente. Os capítulos são divididos em trechos pequenos e nem sempre há um salto de tempo entre um e outro. Ou seja, eles funcionam como se fossem cenas em um filme. Porém, há casos em que essa divisão não era necessária. Às vezes sentia que estava lendo o roteiro de um filme ao invés de um romance escrito.

Também há várias referências à cultura atual, mas algumas me pareceram forçadas e com o intuito de fazer o leitor rir, como menções a magos adolescentes, ninjas inimigos, modo hamster de preparar para fugir, uma empresa digital especializada em criação e textura de seios 3D, uma história sobre um dragão cantor perdido no mar que pede ajuda a golfinhos e baleias e é resgatado por um anão sábio, entre outras. Algumas funcionam, mas outras não.

Mas, de modo geral, a leitura é prazerosa e dinâmica. Um bom livro sem muita pretensão para um final de semana chuvoso. Perfeito para quem gosta de livros e tecnologias mirabolantes!

Robin Sloan, autor do livro, nasceu em Detroit, nos Estados Unidos. Ele já trabalhou como programador (por isso a referência a esse universo em seus livros!) e atualmente escreve livros e produz azeite de oliva em Sunol, na Califórnia. "A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra" foi seu primeiro livro, publicado em 2012, e se tornou um best-seller mundial. Em 2013 ele publicou uma novela sobre Ajax Penumbra, o Mr. Penumbra, e sua juventude, intitulado "Ajax Penumbra 1969". Fiquei curiosa para ler esse! O Mr. Penumbra é, na minha opinião, o personagem mais instigante do romance! E neste ano de 2017, Sloan vai publicar o seu segundo romance, "Sourdough" (sem tradução ainda) sobre Louis Clary, uma jovem programadora que se muda para a Califórnia.

Robin Sloan

Espero que vocês tenham gostado dessa dica de leitura!

Um ótimo final de semana e ótimas leituras!

Fernanda


domingo, 10 de setembro de 2017

"O Último Reino", Bernard Cornwell

Boa noite, queridos leitores! Eu estou de volta!

Depois de um período de muito trabalho e leituras no mestrado de pesquisa em Estudos Literários na Universidade de Leiden, na Holanda, voltei ao Brasil! Como agora tenho mais tempo livre, poderei voltar a me dedicar ao blog! Outra novidade para os que ainda não souberam, tenho atualizado com frequência o meu canal no YouTube "O Prazer da Literatura". Convido a todos a conferir e se inscrever nesse canal, que administro com o maior carinho:


https://www.youtube.com/watch?v=HLyCJbUEeWQ

E agora... vamos à leitura de "O Último Reino", de Bernard Cornwell. Esse é o primeiro livro da saga "Crônicas Saxãs", que já estava na minha lista de leitura há muito tempo. Eu sou apaixonada por romances históricos e por livros que me levam a conhecer o passado de certos lugares, como a Inglaterra - país pelo qual fiquei encantada desde meu primeiro contato com a série "Harry Potter". Nas "Crônicas Saxãs", Cornwell nos leva de volta à Inglaterra Anglo-Saxã, no século IX, durante as invasões dinamarquesas e ataques Vikings.





A história é contada em primeira pessoa por Uhtred, filho de Uhtred, de Bebbamburg. Quando ele ainda era uma criança, a fortaleza de Bebbamburg, governada por seu pai e localizada na região da Nortúmbria, foi atacada por dinamarqueses ferozes, liderados por Ragnar. Seu pai é morto durante a batalha e Uhtred é tomado pelos dinamarqueses. Mesmo sendo uma criança, Uhtred avança contra Ragnar, que se diverte com a audácia do menino e decide levá-lo junto com os dinamarqueses, que estão tomando toda a Inglaterra,

Naquela época, a Inglaterra era dividida em sete reinos: Nortúmbria, Mércia, Ânglia Oriental, Essex, Kent, Sussex e Wessex. No período em que as "Crônicas Saxãs" se passam, século IX, seis reinos já haviam sucumbido ao poder dos dinamarqueses, com exceção de Wessex, o último reino - daí o título do primeiro volume da série.







Uhtred é levado pelos dinamarqueses e, então, tem uma juventude pagã. As crenças cristãs que ele havia aprendido em Bebbamburg entram em conflito com os novos ensinamentos pagãos que ele aprende com os dinamarqueses, principalmente com Ragnar - que o adota como se fosse um verdadeiro filho - e seu pai, o cego sábio Ravn. Porém, apesar de Uhtred se considerar um dinamarquês, seu coração ainda é inglês e pertence a Bebbamburg, que ele quer recuperar da posse ilegítima do seu tio.

Com a morte de Ragnar, não há nada mais que o prenda aos dinamarqueses, então ele, acompanhado de Brida - outra prisioneira inglesa que se adaptou aos costumes nortenhos - parte para Wessex para encontrar-se com o Rei Alfredo, auxiliá-lo contra as invasões de Ubba, um feroz dinamarquês, e retomar o que é seu por direito.


Rei Alfredo de Wessex

Eu achei a leitura desse primeiro volume muito prazerosa. Apesar de conter fatos históricos, a leitura é bem dinâmica, e como George Martin afirma na contracapa do livro, apresenta "as melhores cenas de batalha de qualquer escritor que eu já tenha lido, passado ou presente". As cenas de batalha são mesmo fantásticas, prendendo a atenção do leitor até o último parágrafo. Estou curiosíssima para ler a continuação da saga com "O Cavaleiro da Morte", o segundo volume.






Essa saga de Cornwell está sendo adaptada para a televisão em uma série da BBC. A primeira temporada estreou em 2015 e a segunda em 2017, com co-produção da Netflix. Quem interpreta Uhtred é o lindíssimo Alexander Dreymon. David Dawson interpreta o Rei Alfredo, Peter Gantzler é Ragnar, Rune Temte é Ubba, e Emily Cox interpreta Brida.




Assisti aos primeiros episódios da primeira temporada e devo dizer que fiquei um pouco desapontada. A produção deixou a desejar - não é nada aos padrões de "Vikings" ou "Game of Thrones". E, na minha opinião, há um uso excessivo de câmera subjetiva - quando a câmera acompanha o olhar de um personagem - e de câmera em movimento, o que me deixa um pouco tonta!
A ordem dos eventos no livro foram modificados. Muitos dos acontecimentos que ocorreram com Uhtred como criança foram transmitidos ao jovem Uhtred - já que, convenhamos, o jovem Uhtred é muito mais atrativo do que a criança! Isso não é necessariamente um ponto negativo.
O que me desapontou profundamente foi o papel de Ragnar na série. No livro, Ragnar (que, aliás, não é o mesmo Ragnar de "Vikings"!) é muito engraçado, tem paixão por batalhas e tem uma grande afeição pelo jovem Uhtred. Essa relação entre Uhtred e Ragnar, que é tão legal no livro, foi totalmente perdida na série, a meu ver.
De qualquer forma, vou continuar a assistir a série e espero que ela seja renovada para a terceira temporada!

Alexander Dreymon como Uhtred
Bernard Cornwell

Bernard Cornwell, o autor da saga, nasceu em Londres em 1944 e é um dos maiores escritores de romance histórico da atualidade. Além de escrever sobre a Inglaterra Anglo-Saxã, Cornwell também escreveu uma série de livros sobre o lendário Rei Artur, sobre a busca do Graal, sobre a batalha de Waterloo, entre outros temas.

Espero que tenham gostado dessa dica de livro. Tenho certeza de que irão gostar, principalmente os apaixonados por história antiga, como eu!

Um ótimo domingo a todos e ótimas leituras!

Fernanda

domingo, 9 de abril de 2017

"Eduardo I", Jean Plaidy

Bom dia, pessoal!

Hoje comecei o domingo com o término de uma ótima leitura! Trata-se do sétimo volume da saga Plantageneta da escritora britânica Jean Plaidy: Eduardo I. Eu já venho acompanhando esta série há mais de um ano. Como a série é longa, tem ao total 14 volumes, eu procuro intercalar a leitura de um livro da série com outros, assim não me canso das aventuras dos reis angevinos.

Como já falei nos posts anteriores sobre os volumes da série anteriores a este, eu sou simplesmente apaixonada por esta saga! Jean Plaidy consegue transmitir a sensação de viver na Idade Média, período marcado por intrigas de reis, batalhas sangrentas, lutas por territórios, torneios de cavaleiros, casamentos arranjados, enfim... uma época que me fascina!

Para ler as publicações referentes aos volumes anteriores da saga Plantageneta, clique aqui.

Eduardo I
Em Eduardo I, o jovem Eduardo se torna rei após a morte de seu pai, Henrique III. Seu pai morrera em 1272, porém neste período Eduardo, o herdeiro, não se encontrava na Inglaterra. Ele acompanhava o rei Luís IX da França na Oitava Cruzada. Quando soube da morte do pai, Eduardo voltou para a Inglaterra, porém só conseguiu chegar lá em 1274, dois anos após a morte do rei, para reivindicar a coroa.

Neste período em que Eduardo esteve fora, o reino foi governado por um Conselho liderado por Robert Burnell. Sua mãe, a dinâmica Eleanor de Provença (cuja personalidade me lembrou de Eleanor de Aquitânia, uma de minhas figuras históricas preferidas. Ela foi personagem principal nos volumes 1 e 2 da saga. Confira as resenhas anteriores), também fez o possível para garantir os planos do seu filho, agora Eduardo I.

Eduardo foi um rei forte, um alívio para os ingleses depois de Henrique III e João. Eduardo era enérgico e um ótimo guerreiro, temido por seus adversários como seu avô, Ricardo Coração de Leão. O maior desejo de Eduardo era unificar a Inglaterra, País de Gales e Escócia. Conseguiu conquistar os galeses, subjugando Llywelyn e Davydd, príncipes de Gales. Mais tarde, dedicou sua vida à causa escocesa. Conseguiu capturar e executar o rebelde Guilherme Wallace, que havia se tornado uma figura heroica que sonhava com a independência da Escócia.

Guilherme Wallace, interpretado por Mel Gibson no filme "Coração Valente"



Eleanor de Castela
Sua vida em família foi muito satisfatória. Casou-se com Eleanor de Castela (outra Eleanor em sua vida!), por quem foi profundamente apaixonado. Porém, o casamento parecia gerar apenas filhas saudáveis! E que filhas, aliás! Eleanor e Joana são personagens inesquecíveis! As duas se casaram com nobres ingleses, Margaret casou-se com João de Brabant, e Mary entrou para um convento. Eduardo era apaixonado por suas filhas e realizava todos os seus desejos, o que as tornou ousadas e rebeldes, principalmente Joana, que nasceu em Acre enquanto os pais estavam na Terra Santa, por isso ficou conhecida como Joana de Acre. Eleanor era muito esperta e Eduardo até cogitou a ideia de torná-la a herdeira do trono, mesmo sendo mulher. Como consequência, Eleanor casou-se muito tarde, somente depois que ficou claro que sua ascensão ao trono da Inglaterra nunca se concretizaria.

Marguerite da França
Os três filhos homens de Eleanor, John, Henrique e Alphonso, morreram ainda crianças. Por fim, em 1207 nasceu Eduardo, o esperado herdeiro! Uma tragédia familiar, contudo, abalou a vida de Eduardo. Sua adorada esposa Eleanor morre muito jovem, deixando um vazio em sua vida. Ele prometeu a si mesmo que não se casaria novamente, mas a existência de apenas um herdeiro homem era preocupante, por isso começou a pensar em casar-se novamente. Seu segundo casamento ocorreu em 1299, nove anos depois da morte de Eleanor de Castela, e foi com Marguerite, irmã do rei da França Filipe IV, o Belo. Ela, com menos de 20 anos, era muito mais jovem que o rei, que já beirava os 60 anos. O casamento, no entanto, foi feliz, resultando em três filhos: Thomas, Edmund e Eleanor.



Com a morte de Eduardo I, aos 68 anos, seu filho mais velho, Eduardo, se torna Eduardo II. Porém, Eduardo não é o que seu pai, forte e temido rei, esperava: ele é preguiçoso, delicado e tem uma amizade um tanto quanto exagerada com Piers Gaveston, uma má influência. É Eduardo II que protagoniza o próximo volume da saga, As Loucuras do Rei, que já estou louca para ler!

Eduardo II

Espero que tenham gostado de mais um episódio da intrigante história da Inglaterra.
Para mais informações sobre a autora, Jean Plaidy, não deixe de conferir as publicação anteriores sobre a saga Plantageneta.

Um ótimo domingo a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda