domingo, 30 de agosto de 2020

"The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade", Colson Whitehead

 Olá, pessoal!

Recentemente eu decidi iniciar algo que sempre quis fazer: criar um clube de leitura! Eu já participei de alguns book clubs, mas sempre tive a vontade de organizar um grupo que se interessasse por livros e por discutir leituras de maneira informal. Por isso, reuni alguns amigos e cada um sugeriu um livro que gostaria que fosse nossa primeira leitura do clube. A partir dessas opções, fizemos uma votação. E o livro mais votado foi The Underground Railroad, ou Os Caminhos para a Liberdade, como foi traduzido para o português, escrito pelo norte-americano Colson Whitehead.

Esse livro recebeu o Prêmio Pulitzer de Ficção em 2017, um ano após a primeira publicação nos Estados Unidos. Além de ser um livro reconhecido pela crítica, ele foi (e continua sendo) bastante discutido, principalmente por tratar de um lado sombrio da história americana: a escravidão. A narrativa se passa nas primeiras décadas do século XIX, período, portanto, pré-Guerra Civil, e se inicia em Georgia, um estado escravocrata no sul dos Estados Unidos. No mapa abaixo, você pode conferir como a divisão do território americano se modificou ao longo dos anos desde 1789 até 1861, ano de início da Guerra Civil, também conhecida como Guerra da Secessão, que dividiu os Estados Unidos em União, no Norte, que condenava a escravidão, e os Estados Confederados no Sul, que mantinham a escravidão legalizada.




Georgia, portanto, era um estado onde a escravidão era permitida e, de fato, a base da economia agrária. Diversas plantações de algodão, milho e arroz eram movidas pelo trabalho dos escravos, a princípio trazidos do continente africano, e, mais tarde, já nascidos em solo americano. 

A protagonista de The Underground Railroad é Cora, uma jovem mulher negra, neta de Ajarry, uma mulher que havia sido capturada na África e trazida para os Estados Unidos para trabalho forçado. A mãe de Cora, Mabel, foi a única escrava até o momento que havia conseguido fugir da plantação dos Randall sem ter sido resgatada pelo temido caçador de escravos Ridgeway. A história é contada pela maior parte através da perspectiva de Cora, o que subverte as narrativas históricas conservadoras, que levam apenas a visão do conquistador branco em consideração. Em The Underground Rairoad, o leitor adentra essa sub-cultura das plantações escravocratas do sul norte-americano do início do século XIX, sofrendo com a protagonista as atrocidades que o branco inflingia nos africanos e seus decendentes, até mesmo nos escravos que haviam comprado a sua liberdade.

O livro é dividido em 12 partes (Ajarray, Georgia, Ridgeway, Carolina do Sul, Stevens, Carolina do Norte, Ethel, Tennessee, Caesar, Indiana, Mabel e O Norte), que são intitulados a partir do nome de algum personagem ou local que marcam a trajetória de Cora desde a plantação dos Randall em Geórgia em direção à liberdade dos estados do norte. Além disso, a maioria dessas divisões se inicia com a transcrição de um anúncio de jornal sobre a fuga de um negro ou negra e a recompensa para a sua captura ou informações do seu paradeiro. Esses anúncios são reais e retirados da coleção digital da Universidade da Carolina do Norte, e ilustram a maneira como esses seres humanos eram tratados como animais ou objetos.


Trajetória de Cora


A premissa desse livro é baseada na "underground railroad", ou "ferrovia subterrânea" na tradução literal, que foi de fato uma estrutura clandestina de rotas para auxiliar negros a escaparem da escravidão e alcançar os estados do norte ou Canadá, ativa até a segunda metade do século XIX. Essas rotas e casas de abrigo eram supervisionadas por abolicionistas e simpatizantes da emancipação dos escravos. Na verdade, apesar de ser chamada de ferrovia, estas rotas não eram, de fato, linhas de trem (linhas de trem subterrâneas só foram instaladas nos Estados Unidos em 1863). O nome foi utilizado de forma metafórica já que as pessoas que se aventuravam por essas rotas secretas desapareciam, como se tivessem sido engolidas pela terra, e também por causa da terminologia utilizada entre os envolvidos: estações, condutores, agentes, cargo, passageiros, etc. Os escravos que conseguiam atravessar essa jornada com sucesso mudavam de nome e deixavam sua identidade como escravos para trás para viver uma nova vida no norte. 



No livro The Underground Railroad, o autor Colson Whitehead re-imagina esse projeto clandestino para libertar escravos afro-americanos como uma ferrovia subterrânea literalmente. Cora é convencida por Caesar, outro escravo da plantação Randall, a fugir pela "underground railroad". Caesar quer a presença de Cora por boa sorte, já que a mãe dela Mabel foi a única a conseguir fugir daquele inferno. A sua mãe é uma figura bastante paradoxical para Cora, pois ela representa esperança pelo fato de que ela alcançara a liberdade, mas também lhe causa raiva e rancor por Cora ter sido abandonada por sua própria mãe e deixada para sofrer as consequências da escravidão.


"Resurrection of Henry Box Brown" Engraving by John Osler, published in William Still, The Underground Railroad (Philadelphia, 1872)

Essa é uma história bem pesada, em certos momentos eu tive que colocar o livro de lado para digerir a narrativa e pensar sobre a crueldade do ser humano, que podia inflingir tanto sofrimento - físico e mental - a outro ser humano. Na verdade, os donos de plantações, caçadores de escravos e apoiadores da escravidão não consideravam o negro como um ser humano, mas como uma criatura, desprovido de inteligência, sentimentos ou sonhos. É difícil de aceitar a crueldade do ser humano, mas essa foi a base da criação dos Estados Unidos, assim como de tantos outros países colonizados e escravizados, como o nosso Brasil. O processo para reverter esse pensamento e para que todos acreditem e respeitem a igualdade ganhou força com os membros da "underground railroad". Porém, esse é um processo que ainda não terminou. Duzentos anos depois, ainda estamos aqui, lutando pela igualdade.


Colson Whitehead

A "underground railroad" se tornou um símbolo de luta pela liberdade nos Estados Unidos e por isso o livro de Whitehead é tão importante: ele nos lembra desse lado sombrio da história americana, nos faz sentir enjoados pela crueldade com que os escravos eram tratados e castigados, mas também nos lembra da importância da resistência e da liberdade.

Espero que tenham gostado de saber mais sobre esse grande livro da literatura norte-americana contemporânea. 


Um ótimo final de semana e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

"O Hobbit", J. R. R. Tolkien

Olá, pessoal!

Hoje eu venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura, que, aliás, é um livro que já estava em minha lista há realmente muito tempo. Eu li O Senhor dos Anéis quando eu ainda estava no colégio, e simplesmente me apaixonei pelo universo e estilo de escrita de J. R. R. Tolkien. Também me apaixonei pelos filmes de Peter Jackson, que me levaram a sonhar em ser diretora de cinema. Esse sonho não se concretizou, mas minha paixão pela atmosfera mágica da Terra Média não diminuiu. Os filmes da saga O Hobbit foram lançados entre 2012 e 2014 (nem acredito que já faz 8 anos da estreia do primeiro filme!) e renovaram o meu interesse no trabalho de Tolkien. Na época comprei uma belíssima edição de The Hobbit no original em inglês. São dois livros, Part 1 e Part 2, em um box de capa dura. Agora o porquê de eu ter esperado até julho de 2020 para iniciar essa leitura, eu realmente não sei explicar! Porém, esse dia finalmente chegou e a experiência foi fantástica!


The Hobbit, or There and Back Again foi o primeiro livro de Tolkien, publicado em 1937 (ele já havia publicado poemas anteriormente), e foi classificado como literatura infanto-juvenil. O livro foi muito bem-recebido pela crítica e pelo público leitor. Ele foi indicado à Medalha Carnegie, um importante prêmio literário para livros escritos para crianças e jovens, e recebeu o prêmio de melhor ficção juvenil pelo New York Herald Tribune. Até hoje, o livro já vendeu mais de 190 milhões de cópias.  

O livro se inicia com uma das frases mais conhecidas da literatura mundial (e uma das minhas preferidas!):


In a hole in the ground there lived a hobbit.

(Em um buraco no chão vivia um hobbit.)


O hobbit em questão é Bilbo Baggins, primo de Frodo Baggins, para quem é familiarizado com O Senhor dos Anéis. O buraco no qual Bilbo vivia, contudo, não era um buraco qualquer. Era um lar de um hobbit, e isso significa conforto: uma casa organizada, acolhedora, com muita comida e água quente sempre de prontidão na chaleira para um gostoso chá. Bilbo leva uma vida pacata e sozinha no Condado até receber uma visita inesperada. Por curiosidade, "Uma Festa Inesperada" é o primeiro capítulo de O Hobbit, que contrasta com o primeiro capítulo de O Senhor dos Anéis, intitulado "Uma Festa Muito Esperada". Essa visita inesperada consiste em um grupo de treze anões juntamente do mago Gandalf, que o convencem a participar de uma aventura. O objetivo: recuperar o tesouro que pertence à llinhagem de Thorin, filho de Thráin e neto do grande Rei Thór. A complicação? O tesouro está nas profundezas da Montanha Solitária, que fica do outro lado da perigosa floresta Mirkwood e guardada pelo dragão Smaug.



Para seguir nessa empreitada, Bilbo tem que deixar para trás os confortos do seu lar no Condado, mas ele terá como reconpensa uma viagem inesquecível - apesar de extremamente difícil e fatigante: eles encontram trolls, elfos, aranhas gigantescas, goblins, entre outros seres mágicos. Porém, como o próprio Gandalf diz, Bilbo nunca mais seria o mesmo. 

A continuação dessa saga prossegue com Frodo, primo mais jovem e herdeiro de Bilbo, na sua jornada ainda mais perigosa para destruir o anel. A trilogia O Senhor dos Anéis foi publicada entre 1954 e 1955, e traz uma atmosfera mais sombria e séria do que o divertido The Hobbit, porém tão fascinante quanto. Agora que retornei ao universo de Tolkien, quero ler mais obras do professor de Oxford. Graças ao trabalho de editor de seu filho, Christopher Tolkien, que infelizmente morreu em janeiro desse ano, mais textos de Tolkien estão disponíveis para o nosso prazer como leitores.


Espero que tenham gostado de saber mais sobre a minha experiência lendo O Hobbit.


Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

quinta-feira, 25 de junho de 2020

"A Maleta da Sra. Sinclair", Louise Walters

Olá, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar a minha mais recente leitura, que fez parte da minha TBR para a Maratona Literária de Inverno 2020, ou BooktuBatona 2020, organizada pelo canal Geek Freak. Eu gosto muito de participar de maratonas literárias, porque compartilhar as suas leituras com outras pessoas e escolher livros para participar de desafios literários são ótimas maneiras para se sentir mais motivado a ler!

Um dos desafios que escolhi foi o proposto pelo canal Palavras Radioativas: ler um livro encalhado na sua estante. Eu tenho váááários livros que já estão na minha estante há anos, apenas esperando para serem lidos! De forma um tanto quanto aleatória, eu escolhi ler A Maleta da Sra. Sinclair, de Louise Walters. E que bela surpresa! Gostei muito, muito mesmo, da leitura.

Esse livro há havia chamado a minha atenção pela capa, que traz uma jovem de luvas vestida no estilo anos 1940 ou 1950, sentada em uma mala. Mala é um objeto que remete a viagens e busca por conhecimento. Quando li a sinopse e percebi que a narrativa transita entre o presente e 1940, ou seja, em meio à Segunda Guerra Mundial, já me interessei. Eu sou apaixonada por histórias que mesclam o passado e o presente, unindo os destinos de duas pessoas.

No caso de A Maleta da Sra. Sinclair, essas duas pessoas são Dorothy Sinclair, a dona da maleta que dá título ao livro, e sua neta Roberta Pietrykowski, uma mulher na faixa dos 30 e poucos anos, solteira, que trabalha em uma livraria de livros novos e usados chamada Old & New, e que encontra a tal maleta. Roberta adora vasculhar livros antigos e encontrar vestígios da vida de outras pessoas e traços de outros leitores: marcações nas páginas, uma assinatura ou dedicatória, cartas ou cartões postais esquecidos entre as folhas amareladas. Eu me identifiquei muito com Roberta desde o início da história (apesar de que não concordamos em tudo), principalmente por esse fascínio sobre a vida de outras pessoas encontradas em livros antigos. A maioria dos capítulos que se passam no presente se inicia com a transcrição de uma dessas cartas esquecidas e o nome do livro no qual ela foi encontrada. É de arrepiar, mas o primeiro livro mencionado em A Maleta da Sra. Sinclair foi justamente o último livro que li: Mulherzinhas, de Louise May Alcott. Quais são as chances?? Além disso, há outros de meus livros preferidos mencionados, como Madame Bovary e Jane Eyre. Esses detalhes me fizeram sentir ainda mais próxima desse livro.



Dentro da tal maleta, que pertenceu à sua avó, Roberta encontra uma carta datada de 1941, assinada por Jan Pietrykowski, seu avô, que foi um piloto polonês com base na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial. O que chama a atenção de Roberta é a data da carta, pois seu avô supostamente teria morrido em 1940 em um acidente de guerra. O que havia por trás dessa história? É aí que ela passa a se interessar mais pelo seu próprio passado e de sua família.




O leitor sabe mais do que Roberta, pois nós temos acesso à narrativa da própria Dorothy em 1940, intercalada com a de Roberta em 2010. Dorothy viveu um casamento infeliz, foi abandonada por seu marido, sofreu com cinco abortos e o nascimento de um natimorto, nunca realizando o seu maior desejo de ser mãe. Sua vida muda com a chegada do batalhão de Jan Pietrykowski e ela conhece o amor pela primeira vez. Porém, seguir esse caminho não será fácil e ela terá que fazer uma escolhe entre dois tipos de amor, que marcará para sempre a sua vida.


No presente, Roberta se parece muito com a sua avó, e também descobre que terá que tomar uma iniciativa para tentar ser feliz no amor e deixar para trás a sua vida solitária.


Eu me apaixonei pela vida dessas duas mulheres, principalmente pela triste história de Dorothea, que fica ainda mais interessante por se passar durante um período tão importante e marcante da história mundial. O leitor deve colocar os pedaços do quebra-cabeça no lugar para finalmente descobrir o segredo que Dorothy ainda mantém. Eu teria dado 5 estrelas a esse livro se não fosse por um clichês totalmente desnecessário ao final da história de uma das mulheres, mas não vou contar para vocês o que é. Vocês terão que ler para descobrir!


Louise Walters

A autora Louise Walters nasceu em Oxfordshire, no Reino Unido. Esse é o seu romance de estreia, publicado pela primeira vez em 2014, e já foi traduzido e editado em 12 países. Ela publicou mais dois livros, A Life Between Us (2016) e The Road to California (2016), mas eles ainda não foram traduzidos para o português.

Espero que tenham gostado dessa dica de leitura.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

terça-feira, 16 de junho de 2020

"Mulherzinhas", Louisa May Alcott

Olá, queridos leitores!

Hoje eu venho compartilhar com vocês a minha leitura de Mulherzinhas (1868), de Louisa May Alcott. Esse é um livro que estava na minha lista de leituras há muito tempo por se tratar de uma obra importante na história da literatura norte-americana. Porém, foi quando eu assisti à mais recente adaptação cinematográfica da obra, Adoráveis Mulheres (2019), que a vontade de ler o romance despertou! Eu simplesmente amei esse filme! Sem falar que o elenco estava divino: Emma Watson no papel da irmã mais velha Meg, Saoirse Ronan como a icônica Jo, Eliza Scanlen como a jovem Beth, e Florence Pugh como a espevitada Amy. Eu deixei o cinema com o coração aconchegado, eu ri, chorei e queria passar mais tempo com as irmãs March. Portanto, saí do cinema direto em direção à livraria e comprei o livro em capa dura, mas só agora, dois meses depois, tive a oportunidade de lê-lo.

Fiquei muito feliz com a leitura porque tive o mesmo sentimento aconchegante que senti no cinema. Adorava voltar para casa, abrir o livro e voltar ao dia-a-dia da família March. A história se inicia em dezembro de 1861, ou seja, no primeiro ano da Guerra Civil Americana. As quatro irmãs March estão em casa com sua mãe, que elas chamam carinhosamente de Marmee, e a empregada Hannah, ocupadas com os preparativos do Natal. Porém, apesar da atmosfera festiva, as garotas não estão completamente felizes porque seu pai, o Sr. March, estava lutando na Guerra Civil como um soldado da União, ou seja, do lado contra a escravidão. Além disso, os negócios da família tinham sofrido nos últimos anos, diminuindo as condições da família, que precisava ser criativa para manter certos hábitos - principalmente as garotas, que em sua adolescência ansiavam por presentes de Natal, roupas da moda, lenços para o cabelo, sapatos de seda e livros com capa de couro. Apesar da simplicidade e escassez, a família nunca deixou de ajudar os mais necessitados, oferecendo o seu próprio café da manhã natalino para uma pobre mãe com seis filhos.

Conforme o livro avança, nós acompanhamos as quatro irmãs, nos familiarizamos com os seus jeitos, gostos e ambições: a mais velha Meg é romântica mas sensata e sonha se casar por amor e construir uma família; Jo é a criativa das irmãs, que ama ler e escreve histórias, que eventualmente são publicadas e a levam a sonhar em ser uma famosa escritora; Beth é a mais doce e frágil das irmãs. Ela é apaixonada por música, ajuda a todos que puder, mas tem saúde e corpo frágeis, que causam preocupação às outras garotas e Marmee; e, finalmente, Amy, a mais nova mas que tem desejos bem definidos: ela quer usar sua beleza e charme para conseguir um lugar de prestígio na sociedade. Ela ama pintar e sonha em ser uma artista aclamada, mas percebe que gênio e talento são duas coisas distintas.

Originalmente, o livro foi publicado em dois volumes: Little Women em 1868, que corresponde a um ano inteiro desde dezembro de 1861 até o final de 1862, e 23 capítulos. O
romance foi tão bem-recebido que o editor pediu a Louisa May Alcott uma continuação, a qual ela publicou sob o título Good Wives, ou "Boas Esposas" em 1869. O segundo volume acompanha as garotas, que já se tornaram jovens mulheres, durante um período maior de tempo em suas jornadas de autoconhecimento e de busca pelo amor. Atualmente, o costume editorial é publicar os dois volumes em um só, como a edição da Penguin Classics que eu li. Portanto, é importante prestar atenção quando escolher o seu livro para verificar se ele traz a versão completa ou se tem só a Parte I.

A minha edição da Penguin Classics traz uma introdução escrita pela crítica literária Elaine Showalter (da qual soou fã!), que escreveu importantes livros sobre a presença das mulheres na história da literatura inglesa e americana, como A Literature of their Own (1977) e A Jury of her Peers (2009), respectivamente. Aliás, no meu canal no YouTube eu fiz uma série de vídeos com base nos primeiros capítulos de A Literature of their Own, cujo projeto eu intitulei "Uma Literatura Toda Delas". Para acessar os vídeos no canal, clique aqui:











Nesta introdução, Showalter comenta sobre a importância de Mulherzinhas para diversas autoras, como, por exemplo, a admirável Simone de Beauvoir (1908-1986). Beauvoir escreveu o seguinte: "Houve um livro no qual eu acreditei ter visto uma fagulha do meu 'eu' do futuro: Little Women, de Louisa May Alcott... eu me identifiquei apaixonadamente com Jo, a intelectual. Brusca e magrela, Jo escalava árvores quando ela queria ler; ela era mais durona e ousada do que eu, mas eu compartilhava o seu horror por costura e cuidados da casa e o seu amor por livros. Ela escrevia; de modo a imitá-la mais completamente, eu escrevi dois ou três contos" (Tradução livre minha).

Meg, Amy, Jo e Beth






Imaginem só! A personagem Jo levou Simone de Beauvoir a escrever! Eu também me identifiquei muito com Jo, o seu amor por livros, sua vontade de ser escritora e sua admiração pela biblioteca do Sr. Laurence, apesar de meu temperamento e comportamento serem mais compatíveis com o de Meg. Eu, por exemplo, nunca fui de escalar árvores! :)






Cena do filme de 2019


Mulherzinhas traz muitos elementos autobiográficos de Louisa May Alcott (1832-1888), uma jovem mulher da Nova Inglaterra, que começou sua carreira de escritora sob o pseudônimo A. M. Barnard, quando escreveu histórias de espiões e vingança no estilo dos contos sensacionalistas de Jo em Mulherzinhas. Louisa, como Jo, tinha três irmãs: Abigail, Elizabeth e Ana. Interessantemente, o sobrenome de Louisa é May, que significa Maio em português. As irmãs em Mulherzinhas têm o sobrenome March, que significa Março em português. Coincidência?
Louisa May Alcott

SPOILERS: Voltando ao filme de 2019, eu achei a adaptação de Greta Gerwig muito fiel (apesar de não gostar muito dessa palavra) ao romance. Como li o livro depois de assistir à adaptação, eu revi o filme em minha mente capítulo por capítulo. Há apenas duas alterações no filme, que eu achei que deram mais emoção à trama. Primeiramente, a tia March, interpretada pela fantástica Maryl Street, é um solteira convicta e ácida no filme, enquanto no livro ela é uma mulher casada e mais tradicional. Segundo, no livro não há nenhuma menção ao arrependimento de Jo por ter recusado Laurie, enquanto no filme a Jo de Saoirse Ronan chega a escrever uma carta para Laurie antes de descobrir que ele estava casado com Amy.

Espero ler mais livros como esse, que me aqueceu o coração e vai ter um lugar especial na minha estante para sempre.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda






domingo, 24 de maio de 2020

"Silas Marner", George Eliot

Olá, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar com vocês a minha última leitura, Silas Marner, o Tecelão de Raveloe, de George Eliot. Como os meus estudos de doutorado estão inseridos na produção artística da Inglaterra do século XIX, eu procuro ler as principais obras literárias desse período para ampliar o meu repertório cultural e meu entendimento da Inglaterra Vitoriana, o que inclui, certamente, o legado da grande George Eliot.

George Eliot
Apesar do nome George Eliot sugerir uma figura masculina, George Eliot era uma mulher, nascida Mary Ann Evans em 22 de novembro de 1819 em Nuneaton, uma cidade no norte de Warwickshire, Inglaterra. George Eliot foi o seu pseudônimo escolhido para publicar as suas obras. Como já discutimos aqui no blog, a situação para mulheres escritoras no século XIX não era nada fácil e uma das estratégias encontradas por elas foi o uso de pseudônimos masculinos, como, por exemplo, as irmãs Brontë, ou a publicação anônima, como Jane Austen e Mary Shelley.

Outro motivo para desejar permanecer incógnita era que Eliot mantinha uma relação amorosa com o filósofo e crítico literário e teatral George Henry Lewes, que já era casado. Os dois mantiveram um relacionamento por mais de vinte anos e chegaram a morar juntos abertamente.

Silas Marner foi o terceiro romance publicado por Eliot. Ela decidiu voltar a escrever sobre a Inglaterra rural dos últimos anos do século XVIII e início do XIX enquanto ela ainda trabalhava no grandioso Romola, publicado em série na revista Cornhill Magazine entre Julho de 1862 e Agosto de 1863, e que se passa na Florença do século XV. Silas Marner, com centenas de páginas a menos, foi publicado em volume único em 1861.

O protagonista do romance é o tecelão de linho Silas Marner, que, no início da narrativa, se estabelece na pequena Raveloe. O leitor descobre que Silas havia sido acusado erroneamente de ter roubado os fundos da igreja em Lantern Yard, onde morava anteriormente e onde era respeitado pela comunidade. Silas havia sido vítima de uma conspiração do seu melhor amigo, que invejava o seu papel na comunidade e o seu relacionamento com a jovem Sarah. A igreja da qual faziam parte, uma pequena e conservadora congregação religiosa calvinista, acreditava que Deus ficaria do lado da parte inocente e, durante o processo de investigação do roubo, que tem como base uma espécie de sorteio, Silas é condenado como culpado. Sarah se desencanta com Silas e decide se casar com o seu melhor amigo. Desiludido com sua vida e com um Deus que lhe considerou falsamente culpado, Silas se muda para Raveloe, onde vive uma existência completamente isolada de todos, de domingo a domingo trabalhando sem parar no seu tear. A população de Raveloe o vê com suspeita e as crianças até mesmo tinham medo de passar em frente a sua casa.

Ilustração de Hugh Thomson
Eis, então, que com o passar dos anos, Silas acumula uma grande quantidade de ouro, já que ele trabalhou incessantemente por um longo período e tinha poucos gastos, vivendo uma vida simples e econômica. Seu único consolo era passar as noites em frente ao fogo da lareira, contando a sua pilha de moedas de ouro e prata. Porém, em uma noite de chuva, ao retornar para a sua humilde casa, Silas percebe que o seu dinheiro havia sido roubado, e o seu único de desejo de viver extinguido. Após a fase inicial de desespero, Silas passa a existir, apenas, dia após dia. Até que, por fim, uma visita inesperada muda a sua vida.

Em uma noite fria, uma pobre mulher, Molly, caminha pelas ruas geladas de Raveloe com sua filha de dois anos no colo, abandonada pelo seu marido Godfrey Cass, filho de um importante homem da comunidade e proprietário de terras em Raveloe. Godfrey está arrependido de sua conexão com essa mulher de baixo nível, viciada em ópio, e que o impede de se casar com a bela e inocente Nancy Lammeter. Molly pretende se vingar do seu marido, que neste momento se divertia em uma festa no salão do seu pai enquanto ela passa por dificuldades e desprezo. Ela quer contar a todos a verdade sobre o seu casamento com Godfrey, mas, antes que ela possa completar a sua vingança, ela perece de frio e overdose de ópio em uma viela. A pequena criança órfã de mãe vê a luz do fogo vindo do casebre de Silas Marner, e é para lá que ela se dirige e é esta pequena menina que mudará para sempre o propósito de vida, as prioridades e crenças religiosas do tecelão.


Ilustração de Hugh Thomson
Silas Marner é uma leitura rápida, que te leva ao início do século XIX na área rural da Inglaterra. Porém, além de oferecer uma representação desse período e região, a narrativa oferece ao leitor uma relação com o protagonista, que sofre diversas perdas até poder encontrar o melhor presente da sua vida. O leitor sofre e cria esperanças juntamente com este protagonista, que reaprende a viver em sociedade e finalmente compreende a necessidade de amar e ser amado.


O livro se inicia uma epígrafe do poeta romântico William Wordsworth (1770-1850). Trata-se de um trecho do poema "Michael, a Pastoral Poem", publicado na edição de 1800 de Lyrical Ballads, e que conta a história de um velho pastor chamado Michael, sua esposa e seu único filho, Luke. Aqui está o trecho que inicia a narrativa de Eliot:



"A child, more than all other gifts
That earth can offer to declining man,
Brings hope with it, and forward-looking thoughts"
(Wordsworth) 

Minha tradução livre:


"Uma criança, mais do que qualquer presente
Que a terra  pode oferecer ao homem envelhecido,
Traz esperança e pensamentos que o levam ao futuro" 


Espero que tenham gostado de saber mais sobre esse livro de George Eliot. Eu já li outros dois títulos dessa grande autora, Middlemarch (1871-1872) e O Moinho à Beira do Rio Floss (1860) - ambos maravilhosos! Tenho certeza de que em breve lerei mais obras de George Eliot, um dos principais nomes da literatura vitoriana.

Um ótimo domingo a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

"Encontro de Marés", Manuela Marques Tchoe

Olá, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura. Trata-se de Encontro de Marés, da escritora brasileira Manuela Marques Tchoe. Manuela nasceu no Brasil, mas mora na Alemanha há muitos anos e escreve sobre relações entre culturas, tema que pervade, também, os seus contos na coletânea Ventos Nômades, publicada em 2018. Eu fiquei apaixonada pelo estilo de escrita de Manuela e fiquei muito feliz em ler o seu primeiro romance, publicado neste ano de 2019.

Eu simplesmente devorei Encontro de Marés, mas é preciso dizer que não é um livro fácil de ser lido, pois trata de temas difíceis de engolir, como a prostituição infantil, a violência nas favelas do Rio de Janeiro e Salvador, crimes contra mulheres e a corrupção da polícia. Porém, ignorá-los não significa que esses problemas não existam, e a escolha de Manuela de representá-los na literatura chama a atenção para a necessidade de combatê-los. Ler a narrativa de Rosa em primeira pessoa nos faz sentir no próprio coração as angústias e traumas de uma criança violentada e da mulher que ela se torna, e incita no leitor a vontade de tomar alguma atitude a respeito.

Contudo, Encontro de Marés não é apenas uma denúncia de problemas sociais brasileiros. O livro mostra através de um olhar brasileiro que vive longe de sua terra algumas delícias daqui, como a culinária, as belezas naturais, a cultura dos orixás, a fé em Iemanjá, a solidariedade e o aconchego do contato humano.

Iemanjá
A narrativa tem três fios condutores principais: Mariana, uma brasileira adotada por alemães quando criança que retorna ao Brasil a trabalho e acaba sentindo um desejo de saber mais sobre suas origens e resgatar o seu passado; Teresa, uma dona de casa de Ouro Preto, casada com Augusto e com dois filhos, que não suporta a ideia de ver a sua filha Janaína se mudar para a capital para seguir a sua própria vida; e a narrativa de Rosa em primeira pessoa, que se inicia em 1980. Rosa é uma menina de 12 anos que vive com a sua avó Dalva e que é obrigada a deixar o conforto da sua casa e o amor de sua avó quando é raptada por seu pai, Benedito, o cafetão-mor da Bahia, que vende sua própria filha para a prostituição.

São as histórias dessas três personagens que dão dinamismo ao romance, intercalado por capítulos que nos contam um pouco de cada uma e nos levam ao passado e ao presente em uma trama que se encaixa perfeitamente. Somente no final o leitor descobre como as vidas dessas três mulheres estão intrinsecamente ligadas e como o destino permitiu que elas finalmente se reencontrassem.

Além da trama envolvente e do estilo de escrita caprichado, que varia em oralidade e regionalismo de acordo com a personagem que se expressa, cada capítulo é intitulado a partir de uma canção brasileira, como "Insensatez", de Vinícius de Moraes e Tom Jobim, e "A Deusa dos Orixás", de Clara Nunes. Eu adorei essa escolha de Manuela que, além de dar uma brasilidade a mais para o texto, confere um ritmo e musicalidade à experiência de leitura. Que tal colocar "Garota de Ipanema" para tocar enquanto lê a chegada de Mariana ao Rio de Janeiro?

Manuela Tchoe

Manuela foi muito bem-sucedida neste primeiro romance e tenho certeza que estamos diante de um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea.

Espero que tenham gostado dessa dica de leitura.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda





sábado, 14 de dezembro de 2019

"A Besta Humana", Émile Zola



Olá, pessoal!

Hoje venho compartilhar com vocês a minha experiência lendo mais um clássico da literatura francesa: A Besta Humana (1890), de Émile Zola (1840-1902).

Em apenas duas palavras: Que livro! É, definitivamente, um romance perturbador, que explora a fundo a bestialidade da natureza humana. Se Madame Bovary (1856) causou furor quando da sua publicação (leia a resenha aqui), eu imagino como foi a reação dos leitores da época com o lançamento de A Besta Humana, trinta e quatro anos depois.

Émile Zola
Zola foi o grande precursor do Naturalismo na França, um ramo do movimento Realista da literatura de meados do século XIX. Sua obra O Romance Experimental (1880) é considerado o manifesto literário do movimento, que tem como premissa a observação e representação da realidade, o interesse pelo cientificismo e positivismo, e a crença que o homem é determinado pelo ambiente em que vive. A narrativa é impessoal, normalmente em terceira pessoa, e seus protagonistas geralmente fazem parte da classe trabalhadora e menos favorecida, retratando as condições sociais precárias em que vivem - como a exploração do trabalho em centros urbanos, a pobreza, a prostituição, o adultério, o desenvolvimento de doenças psicológicas, etc.
Em contrapartida ao Romantismo, que idealizava a relação do homem com a natureza e via o amor como algo sublime, no Naturalismo o homem passa a se relacionar com as criações da ciência e da modernidade, e as relações humanas são antes carnais do que amorosas.
Essas características também encontraram representatividade na literatura brasileira de fim do século XIX, principalmente através do seu maior expoente Aluísio Azevedo (1857-1913), autor de O Cortiço (1890). Para ler a resenha dessa obra brasileira aqui no blog, clique aqui.
Napoleão III da França

A Besta Humana faz parte do projeto literário de Zola que ele intitula Rougon-Macquart: História Natural e Social de uma Família sob o Segundo Império, série de vinte livros publicados entre 1871 e 1893 sobre a sociedade da época, na qual A Besta Humana é o livro de número 17. O próprio Zola disse que "os Rougon-Macquart personificarão a época, o próprio Império". Ele se referia ao período em que a trama se desenvolve, quando Napoleão III governou como Imperador da França de 1852 a 1870, e que chegou ao fim com a Guerra Franco-Prussiana, quando Napoleão foi capturado e deposto.
Rougon-Macquart é, de certa forma, similar ao projeto de Honoré de Balzac (1799-1850), A Comédia Humana - conjunto da obra de Balzac a partir de 1829, que inclui cerca de 95 títulos concluídos e 48 inacabados -, que buscou retratar a sociedade burguesa francesa à época da Restauração. Zola afirmou que a grande diferença entre os dois projetos é que o dele é menos social e mais científico, descrevendo uma família e as relações entre seus membros e determinados ambientes.

Árvore genealógica dos Rougon-Macquart

Jacques, um dos protagonistas de A Besta Humana, é filho de Gervaise Macquart e Auguste Lantier, cuja triste história é contada no sétimo volume da saga, L'Assommoir, ou A Taberna em português, publicado em 1876. É muito interessante como há essa recorrência de personagens e como eles estão relacionados entre si. Porém, cada volume da saga funciona como livro individual. Eu, por exemplo, comecei a minha leitura justamente por A Besta Humana, mas já tenho interesse em ler outros da série. Nem todos, contudo, já foram traduzidos para a língua portuguesa.

Jacques é um maquinista que conduz uma locomotiva, que ele chama de Lison, na linha Paris-Le Havre. O universo das locomotivas a vapor, das estações ferroviárias, dos trabalhadores da Companhia do Oeste e seus passageiros é onde a trama toda se passa. Assim como em O Cortiço, as vidas dos diferentes personagens de A Besta Humana se cruzam, transformando esse universo em um microcosmos de características próprias. Há ligações de negócios, de família, casos amorosos extraconjugais e fofoca entre vizinhos.

A locomotiva Lison

A locomotiva, uma besta metálica, é antropomorfizada no romance, onde é descrita com características humanas. O corpo da locomotiva é comparado ao corpo humano no seguinte trecho:

"À pobre Lison restavam apenas alguns minutos. Ela esfriava, as brasas da fornalha viravam cinza, o sopro que havia escapado tão violentamente das suas laterais abertas terminava como um suspiro de criança que chora. [...] Por um momento pôde-se ver, em suas entranhas arrombadas, funcionarem os órgãos, os pistões batendo como dois corações gêmeos, o vapor circular nas gavetas como o sangue nas veias." (p. 300)












Porém, assim como a besta de metal é humanizada, o ser humano é bestializado. O leitor é cruamente apresentado aos desejos mais sórdidos dos personagens: o maquinista Jacques não consegue sentir desejo carnal por uma mulher sem atiçar em si um desejo quase incontrolável de matar; o Sr. Roubaud, outro empregado da Companhia ferroviária, se torna extremamente agressivo com sua esposa em uma crise de ciúmes que o leva a cometer um crime irreparável; Séverine Roubaud, sua esposa, uma jovem e doce mulher, se deixa levar ao adultério pela paixão por Jacques e chega a arquitetar a morte de seu marido para enfim encontrar a liberdade; o presidente Grandmorin, grande personagem da política normanda, respeitado em sua carreira, mas cujo passado suja sua reputação; Flore, jovem prima de Jacques, levada pelo desejo por seu primo, ocasiona a morte de inúmeros inocentes. Enfim, a lista é longa! Nenhum personagem está isento de culpa. O romance mostra como o exterior muitas vezes esconde a bestialidade interna.

Simone Simon e Jean Gabin como Séverine e Jacques no filme de Jean Renoir de 1938

Outro tema presente no romance é a simultaneidade de eventos decisivos e banais, do extraordinário com o ordinário, do permanente com o fugaz, como os trens que continuam a seguir o seu percurso diário mesmo que um assassinato esteja sendo cometido próximo aos seus trilhos, e a solidão em meio à multidão, como ilustram os trechos abaixo sobre a vida de Tia Phasie, tia de Jacques, que morava em uma casinha bem em frente ao trilho do trem:

"No entanto, aquela ideia de multidão que os trens, indo e vindo, diariamente carregavam bem ali, à frente dela, no grande silêncio da solidão, deixou-a pensativa, olhando para a estrada de ferro, na noite que caía. [...]
Às vezes achava reconhecer alguns rostos, o de um senhor de barba alourada, provavelmente inglês, que toda semana fazia a viagem a Paris, e o de uma senhora morena, passando regularmente às quartas e sábados. Mas o trovão os levava embora, ela não tinha certeza de tê-los visto, todos os rostos se apagavam e se confundiam, iguais, dissipando-se uns nos outros. A torrente seguia, sem deixar nada de si. E o que a entristecia era que, por baixo daquele fluxo contínuo, sob o desfile de tanto conforto e tanto dinheiro, ninguém naquela multidão tão sôfrega sabia da sua presença ali, em perigo de vida. E isso a tal ponto que, se o marido a eliminasse uma noite, os trens continuariam a passar próximo ao seu cadáver, sem a menor noção do crime ocorrido no interior daquela casa solitária". (p. 60-61)



Esse livro não é para quem tem estômago fraco. Há menções explícitas à violência que me causaram bastante desconforto. Porém, não é uma violência gratuita, mas que induz o questionamento: a quais níveis de bestialidade o ser humano se deixa levar? E por quê?


Essa não foi uma leitura fácil, mas que certamente agregou - e muito - à minha experiência como leitora. Foi um dos meus livros favoritos de 2019.


Espero que tenham gostado dessa resenha sobre A Besta Humana e sobre o naturalismo de Zola.

Um ótimo final de semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda