terça-feira, 23 de janeiro de 2018

"Solteirona", Kate Bolick

Bom dia, queridos leitores!

Sabem aqueles livros que simplesmente te encontram? Foi o que aconteceu comigo e "Solteirona", de Kate Bolick. Esse livro simplesmente me encontrou, me fascinou e me inspirou!

Além da capa ser incrivelmente linda e chamativa (com uma mulher sentada em um sofá vintage dourado, segurando uma xícara de chá), me interessei pela premissa do livro: resgatar a palavra "solteirona" do cunho pejorativa e reivindicar à mulher o direito de escolher a própria vida. É claro que levei o livro imediatamente!

Kate Bolick é uma jornalista e escritora norte-americana, nascida em 1972. Aos 45 anos, ela nunca se casou e compartilha a sua história como mulher solteira na nossa sociedade atual. Ela afirma que cinco mulheres escritoras a inspiraram nessa jornada, as quais ela chama de despertadoras: Maeve Brennan, que a inspirou como ensaísta; Neith Boyce, que a inspirou como colunista; Edna St. Vincent Millay, que a inspirou como poeta; Edith Wharton, que a inspirou como romancista; e Charlotte Perkins Gilman, que a inspirou como visionária social. Essas cinco mulheres viveram em momentos históricos e circunstâncias diferentes, mas todas foram norte-americanas, escritoras e advogadas dos direitos da mulher, assim como Kate. Eu não conhecia todas essas mulheres e fiquei encantada em conhecê-las melhor e saber como elas influenciaram a vida de Kate.

Maeve Brennan (1917-1993)


Maeve Brennan
A primeira despertadora de Kate, a jornalista e escritora Maeve Brennan, parece ser a que teve uma marca maior na vida de Kate, pois ela reaparece diversas vezes durante a narrativa de "Solteirona". Brennan nasceu na Irlanda, mas mudou-se para os Estados Unidos em 1934, aos 17 anos. Brennan escreveu ensaios para a revista The New Yorker sob o pseudônimo "A Senhora Prolixa", que mais tarde foram reunidos e publicados. Brennan escrevia sobre suas experiências em uma Nova York paradoxalmente superpopulosa e solitária ao mesmo tempo. Ela se destacou por sua inteligência e elegância singular, principalmente nas décadas de 40 e 50. Brennan casou-se com seu colega de trabalho St. Clair McKelway, mas a união durou apenas cinco anos. Durante o resto da sua vida, Brennan permaneceu solteirona e aproveitando seu tempo para escrever. Depois da década de 1960, Brennan começou a desenvolver doenças mentais, parou de cuidar da sua aparência, não tinha residência fixa e morreu em um lar de idosos em 1993. Apesar do fim triste, Brennan teve uma vida produtiva e, diferente da maioria das mulheres, com liberdade.

Neith Boyce (1872-1951)

Neith Boyce
A segunda despertadora de Kate, a escritora, jornalista e dramaturga Neith Boyce, nasceu 45 anos antes de Maeve, em Indiana, Estados Unidos. Boyce escrevia uma coluna na Vogue sob o pseudônimo de "The Bachelor Girl", "A Garota Solteira" em português, na qual ela escrevia sobre o louvor da vida de solteira. Na época de Boyce, ser solteira era ainda menos comum do que na época de Brennan. Durante a chamada época vitoriana norte-americana (apesar de ser estranho utilizar o termo "vitoriano" para um período histórico nos Estados Unidos), o casamento ainda era visto como a razão de existência para qualquer mulher, e Boyce simplesmente desafiou esse plano. Como Kate, Neith se mudou para Nova York para morar sozinha e tentar a vida na grande cidade. A popularidade da coluna de Neith na época ilustra a curiosidade de outras mulheres sobre a vida e as possibilidades de uma mulher solteira. Boyce se casou com o romancista e jornalista Hutchins Hapgood em 1899. Seu casamento era moderno para a época: prezava-se pela igualdade entre os dois, e ambos tinham a liberdade para ter casos fora do casamento. Porém, a experiência não deu muito certo, pois Hutch se revelou mais conservador do que parecia a princípio. Seu marido morreu em 1944 e Neith sete anos depois, em 1951 aos 79 anos.

Edna St. Vincent Millay (1892-1950)

Edna St. Vincent Millay
A terceira despertadora foi Edna St. Vincent Millay, poeta, dramaturga e vencedora do Prêmio Pulitzer de Poesia em 1923. Uma mulher baixinha e atraente, que chamava a atenção tanto de homens quanto mulheres por onda passava. Edna ficou conhecida quando enviou o seu poema Renascence para um concurso de poemas. Seu poema não recebeu o primeiro lugar, mas foi considerado por muitos (inclusive o ganhador do concurso) como merecedor do grande prêmio. Como várias das despertadoras de Kate e até mesmo Kate, Edna mudou-se para Nova York para viver sozinha e trabalhar. Edna viveu por um tempo em Paris e foi até pedida em casamento em 1920, mas recusou. Porém, Edna se juntou ao grupo de mulheres casadas três anos mais tarde, 1923, quando se casou com Eugen Jan Boissevain. Boissevain respeitava a personalidade e carreira literária de Edna, apoiando-a e livrando-a de questões de gestão doméstica. Os dois permaneceram juntos em um casamento aberto até 1949, quando Boissevain morreu de câncer de pulmão. Edna morreu um ano depois, vítima de um ataque cardíaco, aos 58 anos. Edna é exemplo de um casamento que não limitou a sua produção artística ou a sua liberdade.

Edith Wharton (1862-1937)

Edith Wharton
A quarta despertadora de Kate foi a conhecida romancista norte-americana Edith Wharton, autora de livros como The House of Mirth (1905) e The Age of Innocence (1920), que venceu o Prêmio Pulitzer de Ficção em 1921. Essa não seria uma despertadora óbvia para uma solteirona, já que Edith passou a maior parte da sua vida casada com Edward Wharton, desde 1885, quando ela tinha apenas 23 anos, até 1913, quando os dois se divorciaram depois de 28 anos de casados. Edith escrevia desde criança, mas sua família não queria que seu nome aparecesse em publicações, porque mulheres respeitáveis não trabalhavam na época. Ela teve poemas publicados anonimamente, mas seu nome só apareceu com a publicação do poema The Last Giustiniani em 1889. Edith e seu marido compartilhavam da paixão por viajar. Como ambos eram de famílias ricas, eles podiam se dar ao luxo de passar meses e meses apenas viajando. Kate se identificou com Edith principalmente por ambas gostarem de e escreverem sobre decoração de interiores. Kate trabalhou por alguns anos em uma revista de decoração e descobriu que Edith escreveu e publicou um manual de decoração doméstica em 1897. Edith descobriu sua paixão e sua vocação: a escrita, e tal descoberta levou Kate a descobrir a sua vocação também: escrever. A maior parte das publicações de Edith foram produzidas depois do divórcio em 1913, quando Edith voltou a ter tempo para si própria.

Charlotte Perkins Gilman (1860-1935)

Charlotte Perkins Gilman
A última despertadora de Kate foi a escritora, socióloga e feminista Charlotte Perkins Gilman. Você talvez se lembre de Charlotte por conta do seu famoso conto O Papel de Parede Amarelo, publicado em 1892. Se você não se lembra desse conto, pode refrescar a memória acessando a postagem do blog sobre essa história clicando aqui. Charlotte chamou a atenção de Kate por seus pensamentos revolucionários e por viver uma vida pública em prol das mulheres ao invés de uma vida privada satisfatória. Ela viveu pelos outros. Ou pelas outras, melhor dizendo. Charlotte se apaixonou por uma amiga durante a sua juventude, Martha Luther, porém seu amor não foi correspondido da mesma forma. Depois que a amiga se casou, Charlotte permaneceu solteira por um período maior. Ainda em dúvida se o casamento era realmente algo para ela, Charlotte se casou com Charles Walter Stetson em 1884, aos 24 anos. No ano seguinte, eles tiveram sua única filha, e em 1888, Charlotte se separou do seu marido e se divorciaram formalmente em 1894. Foi um casamento de apenas quatro anos. Depois da separação, Charlotte tornou-se extremamente ativa em movimentos feministas e organizações reformistas. No ano de 1900, Charlotte se casou com o seu primo Houghton Gilman. Os dois ficaram juntos até 1922 e moraram em Nova York. O segundo casamento de Charlotte foi muito diferente do primeiro. Depois de todo o seu trabalho e viagens, ela se sentia preparada para se apaixonar de novo e para atender às demandas da vida à dois.


Eu gostei muito de conhecer melhor essas mulheres que inspiraram Kate Bolick. Juntamente com fatos contemporâneos sobre as mulheres solteiras hoje em dia e com as narrativas das vidas das suas cinco despertadoras, Kate escreveu sobre sua própria vida, experiências de trabalho e amorosas. Ela é muito divertida e me identifiquei com diversas situações pelas quais Kate passou, como a vontade de viver da escrita, mas não saber como, a primeira experiência de viver sozinha em uma cidade grande, o prazer de se sentar sozinha em uma poltrona confortável com uma xícara de chá e ler um bom livro, etc. Acho que em muitos quesitos, eu sou muito parecida com Kate, embora eu não me imagino solteira aos 45 anos. Mas... nunca se sabe, não é mesmo?

Achei muito legal a maneira como Kate termina o livro. Como prometido, ela desmistifica a palavra solteirona, utilizada pelas pessoas como algo negativo, para se referir uma mulher velha, louca e mal-amada. O que ela afirma é que "a questão que por muito tempo me impunha - ser casada ou ser solteira - é um binarismo falso. O lugar no qual sempre quis viver - na realidade, onde passei minha vida adulta - não fica entre esses dois pólo, mas além deles" (p. 301). Uma mulher não deve ser julgada ou caracterizada como solteira ou casada. Ser mulher vai muito além disso. A nova definição para o termo solteirona proposta por Bolick é a seguinte: "agarrar-se ao que a torna independente e autossuficiente" (p. 302), e isso vale tanto para mulheres solteiras como casadas:

Kate Bolick

- "Se você é solteira, seja porque nunca se casou, se divorciou ou ficou viúva, pode carregar a palavra solteirona como um talismã, um lembrete de que está em boa companhia" - você é a sua melhor companhia!

- "Se você estiver infeliz em um relacionamento, pode usar a palavra solteirona para invocar um tempo em que não estava e para se lembrar de que ficar sozinha é, muitas vezes, preferível a permanecer em um relacionamento ruim" - seja feliz, acima de tudo!

- "Para aquelas que estão em relacionamentos felizes, sobretudo as que equilibram trabalho e filhos, solteirona pode ser um código para se lembrarem de reservar um tempo para si mesmas" - não se esqueça do prazer da sua própria companhia!

Portanto, Solteirona não é um manifesto que orienta as mulheres a nunca se casarem. Pelo contrário, é um livro que nos faz lembrar da importância de sermos felizes acima de tudo, sozinhas ou em companhia, e do fundamental valor do direito de escolher a nossa própria vida!

Esse, sem dúvida alguma, se tornou um dos meus livros preferidos, e um lembrete a mim mesma para seguir meus sonhos e aproveitar as oportunidades que a vida nos apresenta, e as oportunidades que nós atraímos para nós mesmas.

Espero que vocês tenham gostado desse post e que se deixem inspirar por Solteirona, de Kate Bolick.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

"Jane Austen e o Natal", Carlo Devito

Olá, queridos leitores!

Chegamos ao mês de dezembro e nada melhor do que entrar no clima do Natal com o perfeito livro, né?
Um dos livros natalinos que escolhi ler neste ano foi o maravilhoso "A Jane Austen Christmas: Celebrating the Season of Romance, Ribbons & Mistletoe", ou "Jane Austen e o Natal: Celebrando a Temporada de Romance, Fitas e Ramos de Visco", do autor Carlo Devito. O livro é uma preciosidade só! Capa dura, uma jacket com um design lindíssimo em vermelho e preto e com a característica silhueta da Austen, ilustrações em preto e branco e um design interior bastante caprichado. Comprei esse livro no ano passado, mas esperei o mês de dezembro para lê-lo, justamente para entrar no clima de Natal dentro e fora das páginas.

Eu achei a premissa desse livro muito interessante porque Carlo Devito escreve sobre como o Natal era celebrado na época de Jane Austen, e sobre alguns Natais em especial na vida da grande escritora. O livro é divido em uma introdução, seis partes e um epílogo. Cada parte se refere a uma temporada de Natal específica: A primeira parte se refere a 1786, a segunda a 1794, a terceira a 1795, a quarta a 1802, a quinta a 1809, a sexta a 1815, e o epílogo aos últimos dias de vida de Jane.

Jane Austen
Jane Austen menciona os feriados de Natal em todos os seus romances. Ela mesma gostava muito das celebrações natalinas. Além disso, muitos eventos da sua vida pessoal se passaram nessa mesma época, a começar pelo seu nascimento! Jane nasceu em 16 de dezembro de 1775,  nove dias antes do Natal. Como Devito explica, na época de Jane, não se comemorava apenas o dia 25 de dezembro ou a véspera de Natal, mas praticamente o mês de dezembro todo - e, principalmente, os 12 dias de Natal, que compreendiam o período entre 25 de dezembro e o Dia de Reis, 6 de janeiro. Durante todo esse tempo, era comum as pessoas visitarem umas às outras, principalmente no campo. Por isso, sempre havia comida em abundância e opções de entretenimento de sobra durante todo o mês. Estavam todos preparados para o caso de alguém decidir fazer uma visita.

Vamos ver o que aconteceu de tão especial em cada um desses anos selecionados por Devito:

1786

Jane estava com 11 anos durante essa temporada de Natal. Seu pai, George Austen, era um pastor, e muito provavelmente era responsável pelo sermão do dia de Natal. Jane, sua mãe, sua irmã Cassandra e seus irmãos Henry, James, Francis, Edward, Charles e George enfrentariam a neve para ouvir as palavras do pai durante a celebração na paróquia.

Na época de Jane, ainda não havia o costume de ter uma árvore de Natal em casa. Porém, o pessoal decorava as casas com folhagens, ramos verdes e frutas como maçãs e laranjas, que davam um cheiro característico ao lugar. Também era costume buscar o maior tronco de árvore da redondeza e arrastá-lo com pompa e cerimônia para dentro da casa. O tronco, chamado de Yule log, queimaria e proveria fogo para todos os 12 dias de Natal. Esse ritual é derivado de uma tradição medieval nórdica, que simboliza luz e iluminação.

Tradição do Yule log


Eliza de Feuillide
Uma das presenças mais marcantes das festividades de Natal de 1786 para a jovem Jane foi a de sua prima Eliza de Feuillide. Ela era uma mulher extravagante para a época, nascida na Índia, mas morou também na França e Inglaterra. Ela se casou com o capitão francês Jean-François Capot de Feuillide, um conde. Por isso, ela se tornou uma condessa. Seu marido, leal à monarquia francesa, foi preso e guilhotinado durante a Revolução Francesa, o que a levou a retornar à Inglaterra. Em 1786, no entanto, Eliza ainda era casada com o conde, mas flertava abertamente com os irmãos de Jane, principalmente Henry e James, o que causou alvoroço na casa dos Austen. Anos depois, depois de viúva, Eliza viria a se casar com Henry. De qualquer modo, Eliza impressionou a jovem Jane, que a usou como modelo para algumas de suas personagens.


1794


No Natal de 1794, a Inglaterra estava em guerra com a República da França. Porém, por mais que a guerra afetasse a vida de Jane, já que alguns de seus irmãos participaram ativamente de batalhas, ela não faz referência aos conflitos em seus romances.

Escrivaninha portátil de Jane
Jane já estava com 19 anos e já havia iniciado sua jornada pelo universo literário. Ela escrevia desde criança - provavelmente desde os 11 ou 12 anos de idade. Seu pai encorajava a relação de Jane com as letras, e até mesmo deixava Jane ler o que quisesse da sua biblioteca (o Reverendo Austen administrava uma escola para meninos em sua casa, por isso contava com diversos livros de estudos à disposição) - o que era vedado à maioria das meninas da época de Jane. Para o seu aniversário de 19 anos, o pai de Jane lhe deu uma escrivaninha portátil de mogno, que hoje se encontra em exposição na British Library. Jane simplesmente amou o presente! E naquele mesmo ano, naquela escrivaninha, Jane começou a escrever seu primeiro romance, Lady Susan.




1795

A temporada natalina do ano seguinte foi especial para Jane, porque, aos 20 anos, ela teve sua primeira experiência amorosa. Jane havia ficado amiga da Sra. Lefroy, esposa do Reverendo Isaac Lefroy, uma família inglesa distinta. Jane era frequentemente convidada à casa dos Lefroy, que já haviam captado algo de especial na moça. 



Thomas Lefroy
Jane gostava muito de participar de bailes, um dos principais entretenimentos da Inglaterra Regencial. Durante o Natal de 1795, Jane foi a muitos bailes, se divertiu e dançou muito, e em um desses bailes conheceu Thomas Langlois Lefroy, sobrinho da Sra. Lefroy. O rapaz havia estudo Direito na Trinity College, na Irlanda, e agora trabalhava no Lincoln's Inn, em Londres. Os dois se deram bem imediatamente e se reencontraram em outros bailes durante a temporada. Porém, Jane sabia que Tom voltaria para Londres depois do último baile da estação. Em uma carta a sua irmã Cassandra, Jane parece esperar que Tom a peça em casamento durante a dança antes de voltar para a capital. No entanto, o baile tão esperado acaba se tornando um pesadelo para Jane. A família do rapaz, com medo que o jovem promissor se comprometesse com uma moça da classe média sem muito futuro, o convence a deixar o local na noite anterior. Jane nunca viu Tom novamente, mas o seu desapontamento amoroso serviu como uma nova motivação para se afundar na escrita novamente.

1802

Silhueta de Cassandra
Durante essa temporada, Jane e Cassandra passaram um tempo em Bath na casa de suas amigas, as irmãs Bigg. Jane já estava com quase 27 anos e sua irmã Cassandra, dois anos mais velha, já tinha 29. O noivo de Cassandra, Thomas Fowle, havia morrido de febre amarela durante uma expedição militar no Caribe em 1797. Depois desse incidente, Cassandra nunca mais se comprometeu com ninguém. Portanto, em 1802 as duas irmãs estavam beirando os 30 anos e permaneciam solteiras (fato que não mudou até o final das suas vidas). Para a época, uma mulher solteira nessa idade era inaceitável. As duas já eram consideradas spinsters, ou solteironas, e mal vistas na sociedade. 

Harris Bigg-Wither
Em 1802, o irmão mais novo das moças Bigg, Harris Bigg-Wither, estava presente. Ele havia mudado e crescido bastante desde que Jane e Cassandra o tinham visto pela última vez. Jane e Harris se deram muito bem, e no dia 2 de dezembro, Harris surpreendeu Jane com um pedido de casamento. No calor do momento, Jane aceitou, mas depois de uma noite de reflexão, ela resolveu voltar atrás e declinar o pedido de Haris na manhã seguinte. O rapaz se sentiu humilhado. Jane e Cassandra tiveram que deixar a casa dos Bigg-Wither antes da noite de Natal e a amizade com as irmãs de Harris também foi afetada pela reação de Jane.

Os casos amorosos de Jane com Thomas e Harris são retratados no filme Becoming Jane, ou Amor e Inocência no Brasil, de 2007 com Anne Hathaway no papel de Jane. Para quem ainda não assistiu esse filme, vou deixar o trailer aqui:



1809

Desde a morte do pai de Jane em 1805, Jane, Cassandra e sua mãe tiveram que se mudar para lugares menores e mudar drasticamente o seu estilo de vida. Naquela época, as mulheres não podiam herdar propriedade por lei, portanto as mulheres Austen se viram sem fonte de renda e sem um lugar para morar. Elas dependiam da ajuda dos seus irmãos, principalmente Henry.

Em Julho de 1809 as três mulheres se mudaram para Chawton, na casa onde hoje se encontra o museu Jane Austen. Jane adorava morar ali!

Casa onde Jane Austen morou em Chawton

Devido ao seu estilo de vida menos requintado, Jane, sua irmã e sua mãe recebiam menos convidados em casa. Portanto, o Natal de 1809 foi bem tranquilo. Jane aproveitou o tempo com a família e se dedicou à escrita. Na casa em Chawton ela revisou os manuscritos de Razão e Sensibilidade, publicado em 1811, e Orgulho e Preconceito, publicado em 1813.






1815

Durante o período de Natal de 1815, o último romance de Jane Austen publicado em vida foi lançado: Emma. Jane já havia se estabilizado como escritora e já recebia uma boa quantia por seus livros.

Rei George IV
(anteriormente, Príncipe Regente)

Em dezembro desse ano, Jane foi convidada pelo bibliotecário do Príncipe Regente George, mais tarde Rei George IV, a conhecer a biblioteca do Palácio Carlton House, a pedido do próprio príncipe, que era, aparentemente, fã dos romances de Jane. Jane, no entanto, não gostava do príncipe, pois não aprovava o seu comportamento: ele se vestia de maneira extravagante demais, era obeso mas não maneirava na comida ou na bebida, gastava muito dinheiro, e se relacionava com muitas mulheres. O príncipe pediu que o próximo livro de Jane, Emma, fosse dedicado a ele. A escritora não estava muito feliz com a ideia, mas ela logo descobriu que um pedido real é uma ordem.


Dedicatória ao príncipe regente George


Jane estava no auge da sua carreira literária. Uma carreira, no entanto, que estava fadada a ser breve.


Epílogo

Jane aos poucos percebeu que se sentia mais cansada do que o normal. Os médicos da época não conseguiram diagnosticar o problema de Jane, mas hoje acredita-se que ela tenha tido a doença de Addison. Quando Emma saiu em dezembro de 1815, Jane mal sabia que ela só veria mais um Natal. A escritora partiu em 18 de julho de 1817.

No início de 1817, Jane acreditava estar se sentindo melhor, mas percebeu uma piora em Abril, quando escreveu seu testamento. Três meses depois, ela faleceu.

Jane, incrível mulher e apaixonada pelo Natal, não pôde participar das festividades natalinas de 1817, nem de nenhum outro Natal subsequente. No entanto, ela ainda faz parte de nossas vidas através dos seus romances, que nos tocam duzentos anos depois. 

Jane deixou dois manuscritos não publicados depois de sua morte. Foi seu irmão Henry que insistiu em publicar A Abadia de Northanger e Persuasão, ambos em 1818. E, dessa vez, não de maneira anônima. Henry queria que o mundo inteiro soubesse que era sua irmã quem os tinha escrito e todos os romances anteriores (que haviam sido assinados by a lady).

Nessa noite de Natal, vamos pensar em Jane, em como ela adoraria estar em volta do fogo do Yule log, rodeada por familiares e amigos, pronta para um baile ou jogo de cartas, e no legado fantástico que ela nos deixou.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

"Aura", Carlos Fuentes

Olá, queridos leitores!

Carlos Fuentes
Hoje venho compartilhar uma leitura fantasmagórica de arrepiar. Trata-se da novela "Aura", escrita pelo mexicano Carlos Fuentes (1928-2012). Eu não conhecia esse autor e confesso que esse foi o meu primeiro contato com a literatura mexicana. Gostei muito do estilo de escrita do autor e já me animei a ler mais da sua obra. Ele nasceu, na verdade, na Cidade do Panamá, mas se mudou para o México aos 16 anos. Seus pais eram diplomatas mexicanos e, por isso, passou sua infância morando em diversas metrópoles mundiais - chegou até a morar no Rio de Janeiro. Na idade adulta, seguiu os passos dos pais e entrou para a diplomacia, trabalhando como embaixador do México na França por diversos anos. Também trabalhou como professor em renomadas universidades norte-americanas, incluindo Harvard, e recebeu diversos prêmios literários ao longo da sua carreira.

Com um currículo e tanto, não podemos deixar de ler Fuentes, não é mesmo?

"Aura" é uma das principais obras literárias de Fuentes, publicada em 1962. A primeira característica que chamou a minha atenção foi que o texto é escrito na segunda pessoa do singular, o que é uma prática um tanto quanto incomum. Ele inicia o texto da seguinte forma:

"Você lê esse anúncio: uma oferta assim não é feita todos os dias. Lê e relê o anúncio. Parece dirigido a você, a ninguém mais."

O narrador se dirige, portanto, diretamente a você, que se torna o protagonista da história. Você se torna Felipe Montero, vê o que ele vê, pensa o que ele pensa, sente o que ele sente. É uma experiência literária muito interessante.

Felipe é um jovem historiador que se sente intrigado com esse anúncio de trabalho no jornal, que parece ser direcionado a ele. Só faltava que lhe pusessem o nome. Precisando de um emprego, ele decide ir até o local descrito no anúncio para descobrir mais sobre esse posto. Ele chega em um casarão que parece abandonado, no meio do centro da cidade, rodeado por prédios modernos e comerciais que parecem engolir a velha casa.

Ele entra no casarão, que está totalmente escuro do lado de dentro. As luzes estão todas apagadas e há um cheiro de mofo e podridão no ar. Uma atmosfera um tanto fantasmagórica, que já induz o leitor a pensar que algo não está certo com relação a esse local.

Uma voz o chama de dentro da casa, e ele segue até um quarto, onde uma velha senhora se encontra deitada em uma cama. É ela quem o chamava. A cama em que ela deita está cheia de migalhas de comida e a velha está deitada, parecendo muito frágil, junto com um coelho. A cena fica cada vez mais esquisita.

A velha, chamada Dona Consuelo, lhe conta porque precisa dos seus serviços. Ela é viúva e gostaria que Felipe organizasse as memórias do seu falecido marido, o general Llorente, para publicá-los. Ela lhe entrega as pastas com os antigos documentos e avisa que Felipe deve morar na casa para terminar o trabalho o quanto antes. Felipe se sente indeciso ao olhar ao seu redor, mas sua indecisão se dissipa quando ele percebe que há outra pessoa no quarto. Aparentemente, ela estava ali o tempo todo. Era Aura, sobrinha de Dona Consuelo, que cuida da sua saúde. Ela é morena de olhos verdes e Felipe se sente atraído por ela instantaneamente e decide aceitar a proposta.


Conforme Felipe vai descobrindo mais sobre Dona Consuelo, Aura e o general através das memórias do falecido, o jovem vai ficando cada vez mais intrigado. Há uma atmosfera sombria nessa casa escura e na maneira como as duas mulheres se comportam. Durante um jantar, ele percebe que uma parece copiar os movimentos da outra, como se uma fosse o reflexo em um espelho da outra.

Mas Felipe não consegue deixar a casa, já se sente preso a Aura, que de um dia para o outro parece ter envelhecido vinte anos.

Como a história termina, eu não vou contar para vocês! Vale a pena ler esse livrinho curto de Fuentes e descobrir por si próprio. Aliás, há muitas interpretações possíveis. Gostaria muito de saber a sua opinião depois dessa leitura.

Eu estou curiosíssima para ler mais textos de Fuentes. Se você já leu algo do autor, deixe suas sugestões aqui nos comentários!

Uma ótima semana a todos e ótimas leituras!

Fernanda


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"O Estranho que Nós Amamos", Thomas Cullinan

Boa noite, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura. E, devo adicionar, uma leitura muito envolvente, devorei as páginas! Trata-se de O Estranho que Nós Amamos, ou The Beguiled no idiomas original, escrito pelo norte-americano Thomas Cullinan (1919-1995) e publicado pela primeira vez em 1966.

Esse romance recebeu atenção renovada nesse último ano porque foi adaptado para o cinema sob direção de Sofia Coppola, e com Nicole Kidman e Kirsten Dunst no elenco. A versão do livro que chegou até mim foi a que traz na capa uma imagem do filme, que encontrei em uma caixa de promoções em uma livraria. Me interessei pela capa, pela ideia da adaptação cinematográfica, pela cineasta e atrizes envolvidas e, é claro, pela trama da história. Portanto, decidi levá-lo. E ainda bem que fiz essa escolha, pois esse livro se tornou um dos meus preferidos de 2017 com toda a certeza!

Antes de conversarmos sobre a trama, precisamos explorar um pouquinho do contexto histórico da época em que o livro se passa, pois ele é essencial para o desenrolar do romance. Estamos nos Estados Unidos na década de 1860 em plena Guerra de Secessão, ou Guerra Civil Americana, como também é conhecida, que durou de 1861 a 1865. Esse conflito se desenrolou entre os estados do Norte, conhecidos como a União, e os estados do Sul, ou Confederados. O Sul era escravocrata, enquanto o Norte era abolicionista, e essa foi a principal razão do conflito armado.



O Estranho que Nós Amamos se passa durante esse período em uma escola para meninas em Virginia, território dos Confederados, administrada pelas irmãs Martha e Harriet Farnsworth. Como se trata de um período de guerra, a comida se tornou escassa e muitas das alunas voltaram para as suas casas, com exceção de cinco garotas que permaneceram - ou por não terem para onde ir, ou porque suas casas foram ocupadas pelo exército Yankee, os nortenhos. As cinco garotas são extremamente diferentes umas das outras: Emily Stevenson é filha de um general de alto escalão do exército confederado e segue todas as regras. Alicia Simms é a segunda mais velha, tem 16 anos, e foi deixada na escola por sua mãe, uma mulher de reputação duvidosa e que não pagava as contas escolares. Edwina Morrow é a mais velha das garotas e a mais problemática. Ela trouxe roupas bonitas, itens de luxo - como sabonetes perfumados - e dinheiro para a escola. Houve rumores de que seu pai a abandonou na instituição porque ela era uma filha ilegítima de mãe negra. Amelia Dabney é a mais selvagem de todas, a segunda mais nova, gosta de passar o maior tempo possível na floresta, caçando animais e insetos para cuidar deles. E, por fim, Marie Deveraux, a única católica entre as alunas, é a mais nova de todas, tem apenas 10 anos, mas é muito inteligente e gosta de espionar os outros.


Mapa dos Estados Unidos durante a Guerra de Secessão

As duas mulheres que comandam a escola são irmãs que, ao perderem o pai e o irmão, herdam a propriedade no sul dos Estados Unidos. Porém, sem dinheiro para manter a mansão, elas decidem transformá-la em uma escola para meninas. Quem as auxilia é Mattie, a única escrava que permaneceu na casa. Os outros foram todos vendidos para cortar as despesas.

As meninas com Miss Martha e Miss Harriet no filme de Coppola

Em uma manhã durante o ano escolar, Amelia encontra algo surpreende ao caminhar pela floresta como de costume: um soldado Yankee ferido. A princípio, ela não sabe como agir, pois ele é do exército inimigo. Porém, ao perceber que ele estava muito ferido e semi-inconsciente, ela decide arrastá-lo para a escola. Há muita discussão e excitação entre as ocupantes da mansão, pois há muito tempo não havia um homem entre elas. Por fim, Miss Martha, a líder das irmãs, consente em deixá-lo ali até que ele se recupere. Ela usa de seus conhecimentos de enfermeira e cuida dos ferimentos do soldado, que aos poucos se recupera.

Colin Farrell como Johnny McBurney no filme de Coppola

O que era para ser um curto período do soldado Johnny McBurney na escola das irmãs Farnsworth acaba se tornando semanas e meses. A presença de Johnny na casa atrapalha a rotina de estudos da instituição e distrai as meninas, que, uma a uma, são seduzidas pelo charme desse estranho. No filme de Coppola, quem interpreta o soldado Johnny é Colin Farrell.

O soldado Johnny seduzindo uma das garotas
Miss Martha percebe a influência do rapaz nas meninas, mas mandá-lo embora se torna cada vez mais difícil, pois Johnny sabe de segredos que as garotas e mulheres na casa prefeririam não revelar. Juntas, elas terão que descobrir uma maneira de se livrar dessa constante presença.

O que eu mais gostei no livro de Cullinan foi que a história é contada através da perspectiva de todas as mulheres da trama. Cada seção traz o nome de uma das oito mulheres, e nesse trecho a perspectiva em primeira pessoa é da mulher ou garota que a nomeia. Dessa forma, podemos conhecer melhor a personalidade de cada uma através da maneira como ela escreve, e podemos saber seus mais íntimos pensamentos e segredos. É uma escrita muito envolvente, principalmente devido a essa presença sedutora e, ao mesmo tempo, assustadora.

Thomas Cullinan

Thomas Cullinan não é um nome muito conhecido da literatura mundial. Ele escreveu romances e peças teatrais. O Estranho que Nós Amamos é o seu livro mais famoso, que já foi adaptado ao cinema também em 1971, com Clint Eastwood no papel do sedutor soldado.Além desse romance, Cullinan publicou The Besieged (1970), O Oitavo Sacramento (1977) e The Bedeviled (1978). Eu fiquei curiosa para ler mais trabalhos desse autor!

Ainda não tive a oportunidade de assistir ao filme da Sofia Coppola - que, aliás, eliminou o papel da Mattie!. Por enquanto, vou deixar o trailer aqui para vocês conferirem:




Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda



terça-feira, 10 de outubro de 2017

"Paris no século XX", Júlio Verne

Olá, pessoal!

Hoje venho compartilhar com vocês uma das minhas mais recentes leituras, Paris no século XX, do renomado escritor francês Júlio Verne (1828-1905). Já fazia tempo que gostaria de ler algo escrito por Verne, principalmente seus livros mais conhecidos, como Viagem ao Centro da Terra, publicado em 1864, e Vinte Mil Léguas Submarinas, de 1870. Ao pesquisar sobre o autor, fiquei pasma com a quantidade de obras publicadas por ele: mais de 50! Por isso, levarei um bom tempo para conhecer a vasta produção do francês, mas como já tinha em casa o Paris no século XX, resolvi começar por ele.

Esse é um livro que tenho na minha estante há muito tempo! É uma edição publicada pela Editora Ática em 1994. Sabe quando você observa os seus livros e surge uma vontade inexplicável de ler um dos livros que estão lá esperando para serem lidos há muito tempo? Isso acontece comigo às vezes. Portanto, quando me deparei com Paris no século XX ali, acumulando pó na estante, decidi lê-lo!

Hetzel, editor de Verne
Logo no início da leitura, o preâmbulo do editor e o prefácio escrito por Piero Gondolo della Riva, conhecedor italiano das obras de Verne, já chamaram a minha atenção. Della Riva escreve que Paris no século XX foi provavelmente escrito  em 1863, no início da carreira do francês, mas ele só foi publicado em 1989, quando o manuscrito da obra foi encontrado por um bisneto do escritor. Logo após a escrita do romance, ele foi categoricamente recusado pelo editor Pierre-Jules Hetzel (1814-1886), que havia publicado o primeiro livro do autor, Cinco Semanas em um Balão (1863).

Segundo della Riva, Hetzel não gostou dos neologismos de Verne, afirma que certos diálogos são cansativos e criticou o protagonista Michel, que mais parece "um pavão com os seus versos".

Em sua carta para Verne, Hetzel escreveu o seguinte:

"Estou desolado, desolado por ter que lhe escrever o que estou escrevendo - eu consideraria um desastre para seu nome a publicação de seu trabalho."

Della Riva, no entanto, escrevendo no final do século XX, vê qualidades na obra de Verne que podem ter escapado Hetzel em meados do século XIX. Ele afirma que - tanto ele como o leitor contemporâneo tendo passado já pelo século XX - o livro apresenta uma perspectiva interessante da visão de Verne do futuro século XX, ainda mais se compararmos com o que de fato aconteceu. Segundo della Riva, "conhecemos a Paris do século XX, e a comparação entre a realidade e as fantásticas intuições do jovem Verne não pode deixar de surpreender-nos".

Della Riva vê um caráter autobiográfico nessa obra de Verne (o filho de Verne, aliás, também se chama Michel, assim como o protagonista de Paris no século XX) e o considera "uma enciclopédia do pensamento futuro de Verne". Nesse romance, Verne tem uma visão bem pessimista do mundo, dos avanços da tecnologia e ciência e com relação à solidão do ser humano em meio a todos esses avanços.

A minha leitura do romance em si foi, portanto, influenciada por essa visão de della Riva e pela recusa de Hetzel. Tinha altas expectativas em ler um romance distópico de Júlio Verne, e confesso que me desapontei. A história não me cativou, tampouco os personagens. Ao final, já não via a hora do livro acabar e eu poder partir para outra leitura.

Michel e seu tio Huguenin
De maneira geral, o livro nos conta a história de Michel, um rapaz jovem e sonhador nessa Paris distópica do século XX: tomada pela industrialização e por um senso de praticidade, as letras e artes foram abolidas da sociedade. Ninguém mais lê, os grandes escritores franceses do século passado - como Hugo e Flaubert - foram esquecidos, e os cursos de letras abolidos do sistema educacional focado nas ciências práticas. Nesse universo, Michel, órfão de pais e sobrinho do notável Sr. Stanislas Boutardin, banqueiro e diretor da Sociedade das Catacumbas de Paris, tem que se adaptar para sobreviver. Sonhador e amante das letras, ele não se conforma com os rumos da sociedade parisiense. Sua vida ganha sentido quando conhece o pobre irmão da sua mãe falecida, o tio Huguenin, que trabalha na decadente biblioteca da cidade - que tornou-se praticamente um museu - e reascende a chama artística do garoto. Michel também reencontra o Sr. Richelot, que foi seu professor na infância, e a filha Srta. Lucy, por quem Michel se apaixona. Os quatro formam um grupinho de resistência à mecanização da cidade e da própria humanidade. O resultado, porém, não é nada positivo.

Em 1863, portanto, Verne imagina como seria a Paris de 1960. Por exemplo, o orador durante a premiação da Sociedade Geral de Crédito Instrucional elogiava o presente moderno:

"O orador prosseguia, sem vacilar. Lançou-se de corpo e alma ao elogio do presente em detrimento do passado; entoou a litania das descobertas modernas; deu mesmo a entender que, nesse aspecto, o futuro pouco teria a fazer; falou com um desprezo benevolente da pequena Paris de 1860 e da pequena França do século XIX; enumerou, com profusão de epítetos, as benfeitorias de seu tempo, as comunicações rápidas entre os diversos pontos da Capital, as locomotivas cruzando o asfalto dos bulevares, a força motriz distribuída a domicílio, o ácido carbônico desbancando o vapor de água e finalmente o Oceano, o próprio Oceano lavando com suas vagas as praias de Grenelle; foi sublime, lírico, ditirâmbico, em suma, perfeitamente insuportável e injusto, esquecendo-se de que as maravilhas do século XX já estavam presentes nos projetos do século XIX" (38-39).

Foi uma leitura lenta, mas de nenhuma forma totalmente negativa. Achei interessantes as previsões de Verne com relação ao sistema ferroviário e educacional no futuro, formas de energia e novas tecnologias. Muita coisa do que Verne previu chegou, de fato, a se concretizar, enquanto outras se mantiveram apenas na imaginação do autor. Paris no século XX é um relato fictício pessimista de uma Paris moderna mas sem arte, e que, por isso, estava fadada ao fracasso. É evidente a crítica de Verne à rápida industrialização da cidade e mecanização do trabalho, e à desvalorização das letras e artes.

Júlio Verne

Minha jornada pelos escritos de Verne apenas começou. Pretendo ler mais livros escritos pelo francês, principalmente seus livros de aventura e viagens que o tornaram imortal através das suas palavras.

Ótima semana a todos e ótimas leituras!

Fernanda



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

"Assassinatos na Academia Brasileira de Letras", Jô Soares

Olá, pessoal!

Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, de Jô Soares.

Eu me apaixonei pelo trabalho de Jô Soares como escritor quando eu li pela primeira vez O Xangô de Baker Street, o quarto livro escrito pelo autor e publicado em 1995. O Xangô se passa no Rio de Janeiro do século XIX e ninguém menos que Sherlock Holmes vem para as terras tropicais do Rio para desvendar assassinatos envolvendo um violino Stradivarius. Eu sou apaixonada por histórias que se passam no Rio do século XIX e me envolvi muito com a trama de Jô.

Quem tiver interesse em conhecer mais esse livro, a resenha feita aqui no blog pode ser acessada aqui:

http://www.oprazerdaliteratura.com.br/2015/02/o-xango-de-baker-street-jo-soares.html


Mas o tema de hoje é outro livro de Jô, publicado dez anos mais tarde, em 2005, e ambientado no Rio de Janeiro da década de 1920.
O ano é 1924, o luxuoso Copacabana Palace acaba de ser inaugurado e a sociedade carioca está em alvoroço porque um imortal da Academia Brasileira de Letras foi assassinado na noite de sua posse. E o pior é que o assassino não para por aí, e os demais 39 acadêmicos correm risco de vida.

A Academia Brasileira de Letras foi fundada em 20 de julho de 1897 nos moldes da Academia Francesa de Letras por escritores como Machado de Assis, Olavo Bilac, Graça Aranha, Visconde de Taunay, Ruy Barbosa, entre outros. Seu objetivo é cultivar e preservar a língua portuguesa e a cultura brasileira. Em 1923 (um ano antes da data em que se passa a história de Jô Soares), o governo francês doou à Academia Brasileira de Letras uma réplica do Petit Trianon de Versalhes, construído para a Exposição do Centenário da Independência do Brasil. A Academia está instalada lá até os dias de hoje.

Caso queira conferir os membros passados e atuais da ABL, é só clicar aqui.


Sede da Academia Brasileira de Letras, Petit Trianon, no Rio de Janeiro

Quem fica encarregado de solucionar os crimes é o comissário Machado Machado, assim chamado devido ao amor de seu pai por Machado de Assis. O comissário é, também, um apaixonado das letras, e se interessou pelos "Crimes do Penacho", como ficaram conhecidos na mídia, pelo envolvimento de escritores e intelectuais. Ele herdou o amor à Machado de Assis, fundador da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, e cita trechos de sua obra de cor, surpreendo os outros aos seu redor.


Copacabana Palace quando da sua inauguração em 1923

Catherine Deshayes
A história dos assassinatos é atrativa, mas o que mais me chamou atenção nesse livro foi o plano de fundo. Adorei conhecer mais do Rio da década de 20. Jô Soares menciona diversos estabelecimentos que existiram de verdade, como o Teatro São José (e a influência do teatro francês e das féeries), fundado em 1813, Café Lamas, fundado em 1874, os bondes de Santa Teresa, entre outros.

Jô também cita uma seita de envenenadores que data dataria Idade Média, Veneficorum Secta. Não há registros de que essa seita tenha mesmo existido, mas algumas pessoas que Jô cita que teriam participado dessa seita existiram na realidade, como Catherine Deshayes, dita La Voisin, considerada uma feiticeira francesa do século XVI. 

Apenas duas coisas me incomodaram nesse livro de Jô Soares. A primeira foi o fato de todas as mulheres da trama sentirem uma atração incontrolável pelo comissário Machado Machado. Acho isso difícil de acreditar. E o fato de que lá por 3/4 do livro, eu já imaginava quem seria o assassino. Esperei por uma reviravolta ao final do livro, mas ela não aconteceu.

De qualquer forma, foi uma leitura rápida e muito prazerosa, além de ter enriquecido meu conhecimento sobre o Rio da década de 1920 e sobre a própria Academia Brasileira de Letras. Recomendadíssimo!


Rio de Janeiro na década de 1920



Jô Soares
Além de O Xangô de Baker Street e Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, Jô Soares (1938-) já publicou outros 5 livros. Já tenho As Esganadas (2011) em casa, mas estou mais animada para ler O Homem que Matou Getúlio Vargas (1998) e conhecer melhor o Brasil da década de 1950.

Uma ótima semana a todos e, claro, ótimas leituras!

Fernanda