quinta-feira, 4 de março de 2021

"A Glória de um Covarde", Stephen Crane

Olá, pessoal! Hoje vou compartilhar com vocês minhas impressões sobre o livro A Glória de um Covarde, do norte-americano Stephen Crane (1871-1900). Este é um dos tantos livros sobre a Guerra Civil Americana, mas uma perspectiva diferente do que havia sido escrito até então. Publicado pela primeira vez de maneira serializada em uma revista literária em dezembro de 1894, o texto saiu em formato de livro no ano seguinte, e estabeleceu Crane como grande nome da produção literária americana da época. Crane nasceu em 1871, ou seja, seis anos após a guerra ter terminado. No entanto, a sua descrição psicológica das angústias de um soldado levou vários leitores a acreditarem que ele era um veterano de guerra. Ele afirmou para uma revista que nunca havia nem sentido cheiro de pólvora.
Quando o livro saiu, ele recebeu duras críticas de veteranos militares, que acreditavam que Crane havia ofendido os heróis de guerra ao tratar de temas como covardia e inutilidade da guerra. O protagonista dessa história é Henry Fleming, um jovem americano que, motivado pelas promessas de glória reservada aos heróis de batalhas, alista-se para o exército da União. No período da Guerra Civil (1861-1865), o país se dividiu em dois: o Norte, a União, industrializado e abolicionista, e o Sul, a Confederação, agrário e escravocrata. Fleming vai à guerra e faz parte do ficcional 304 regimento de Nova York. Ele se refere a outros soldados como o "soldado alto", "o soldado barulhento", o "soldado velho", etc. É uma maneira de Crane afirmar que estes homens poderiam ser qualquer pessoa.
O livro traz uma perspectiva muito interessante sobre a guerra. A narrativa é contada em terceira pessoa, mas através do ponto de vista de Henry. Por vezes, o leitor tem acesso a seus mais íntimos pensamentos, e, outras vezes, o observa de fora. Henry tinha uma visão muito idealizada da guerra, baseada em batalhas da Grécia Antiga. Ao se deparar com a realidade do campo de batalha, ele percebe que os momentos de glória são raríssimos. Em contrapartida, há fome, cansaço, muito deslocamento sem objetivo aparente, cumprimento de ordens sem saber o motivo pelos quais as cumpre... enfim, ele se sente "um gato jogado em uma bolsa". Um momento definitivo no livro é quando Henry percebe que sua primeira batalha e, consequentemente, seu primeiro contato com a morte, está próximo. Ele se pergunta: Como meu corpo reagirá à aproximação do inimigo? Terei coragem ou irei fugir? Serei um covarde? É muito interessante ler o que se passa na cabeça do jovem soldado, que reage ambiguamente à situação em que se encontra: ora, ele quer provar o seu valor; ora, ele se pergunta o que está fazendo ali e qual o objetivo de tanta morte?
Ele quer se colocar à prova o mais rápido possível, porque ele não aguenta o prolongamento do seu sofrimento. Porém, o regimento se arrasta por milhas até finalmente enfrentarem o inimigo. Henry quer exibir um emblema vermelho da guerra, que seria um ferimento aparente - a prova de sua coragem. Ele chega até mesmo a invejar os soldados feridos, pois ele não têm mais que se preocupar em comprovar a sua coragem. Este, aliás, é o título do livro no original: The Red Badge of Courage. Este título incrementa a ironia de ter um emblema vermelho de coragem devido à maneira como Henry consegue o seu. Cabe a você, leitor, descobrir. Esta foi uma leitura que me impactou bastante. Temos acesso a diversas narrativas (literárias ou cinematográficas) grandiosas de guerra, que exaltam o herói como alguém perfeito e auto-confiante. A Glória de um Covarde apresenta o lado mais humano, opressor e realista da guerra. E é incrível como Crane, mesmo nunca tendo participado de uma batalha, conseguiu captar os tormentos internos do protagonista.
Crane foi um autor prolífico, mas que, devido ao seu estilo de vida boêmio, morreu cedo. Ele foi um grande nome do Naturalismo Americano e escreveu diversos contos que aparecem em Antologias de Melhores Contos Norte-Americanos. Aqui no blog já escrevi sobre "A Noiva Chega a Yellow Sky". Para (re)ler este post, clique aqui. Espero que tenham gostado dessa sugestão de leitura. Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras! Fernanda

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

"Amada", Toni Morrison

 Olá, queridos leitores!


Hoje venho compartilhar com vocês a minha leitura de Amada (1987), livro vencedor do Prêmio Pulitzer de Literatura de 1988, escrito por Toni Morrison (1931-2019). Essa foi a leitura do meu Clube do Livro de Fevereiro, e que jornada essa leitura foi! 

Já havia um bom tempo que queria ler os livros de Toni Morrison, grande nome da literatura afro-americana e vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 1993. Seus livros normalmente têm protagonistas negras que sofrem com as restrições sociais nos séculos XIX e XX.


Em Amada, a história se passa nos Estados Unidos pós-Guerra Civil. A protagonista é Sethe, uma mulher negra que fugiu da escravidão em uma plantação no sul para os estados livres do Norte. A história é contada através de diversas perspectivas e camadas de tempo: no passado, década de 1850, Sethe fugiu da escravidão ainda grávida, deixou seu marido Halle para trás e embarcou seus outros filhos (uma menina e dois meninos) antes por outro caminho. Depois de uma penosa jornada e de ter dado à luz Denver no meio do percurso, Sethe reencontra seus filhos e sua sogra, Baby Suggs, em um casa em Cincinatti. A casa de número 124 se torna um ponto de encontro de ex-escravos refugiados e Baby Suggs a líder da comunidade. A harmonia é quebrada quando os donos da plantação Sweet Home em Kentucky, de onde Sethe e seus filhos fugiram, retorna para capturá-los e levá-los de volta ao trabalho forçado. Desde 1850, com o estabelecimento da Lei do Escravo Fugitivo, qualquer escravo foragido que escapasse para os estados livres do Norte poderia ser legalmente perseguido e devolvido a seus donos.  Ao perceber que ela e seus filhos iriam voltar para a condição de escravos em Kentucky, Sethe faz algo abominável: mata a sua filha de apenas dois anos e teria matado todos os seus outros filhos também se não tivesse sido contida. A seu ver, a morte era preferível à escravidão. Ela queria libertar seus filhos na morte. 

Toni Morrison 


Sethe e Paul D. Ilustração de Joe Morse

Em contrapartida a essa narrativa do passado, há o presente em 1873, dezoito anos depois do ocorrido. Sethe e Denver moram sozinhas na casa de número 124, isoladas do mundo exterior. A comunidade as exclui, os dois filhos a abandonaram e Baby Suggs morrera anos antes. A casa é assombrada pelo espírito da filha morta: espelhos se estihaçam, pegadas de bebê aparecem na cobertura do bolo, biscoitos se espalham pelo chão em uma linha reta, a casa treme, etc. Quando a sua filha morreu, Sethe não tinha dinheiro o suficiente para inscrever o seu nome completo em uma lápide. Com o que tinha, conseguiu apenas pagar pela palavra "Amada". Eis que um dia Paul D, outro sobrevivente da fazenda Sweet Home, chega ao número 124. Ele expulsa o espírito que assombrava a casa, mas no dia seguinte eles encontram uma jovem mulher com as roupas molhadas sentada em frente à casa em Cincinatti. Ninguém sabe de onde a mulher surgiu, ela apenas diz que chama "Amada". 



Outra ilustração de Joe Morse
Não vou contar o resto para vocês, pois o trabalho do leitor nesse livro é o de juntar os pedaços de informações e colocar as peças do quebra-cabeça no lugar correto. Aos poucos, o leitor sabe mais sobre o passado de Sethe e Paul D, sobre os desejos e medos de Denver, e sobre essa presença física e ao mesmo tempo sobrenatural de "Amada".


Uma curiosidade é que Toni Morrison se inspirou para escrever esse livro em uma história real. Margaret Garner foi uma escrava em Kentucky que foi recapturada durante sua tentativa de fuga para Cincinatti em 1856. Da mesma forma que Sethe no texto ficcional de Morrison, Garner matou sua família para que ela não voltasse à escravidão.




Uma pesquisa de escritores e críticos literários feita pelo New York Times em 2006 considerou o livro Amada como o melhor livro americano dos últimos 25 anos. Há uma adaptação cinematográfica da obra lançada em 1998, dirigida por Jonathan Demme, o mesmo diretor de O Silêncio dos Inocentes (1991), e estrelado por Oprah Winfrey no papel de Sethe. Eu ainda não assisti a essa adaptação, mas espero um dia poder assisti-la.


Espero que tenham gostado da minha dica de leitura de hoje, um livro presente em várias listas de livros para ler antes de morrer!

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

"As Aventuras de Tom Sawyer", Mark Twain

 Olá, pessoal!


Mark Twain (1835-1910)
Hoje venho compartilhar com vocês a minha leitura de As Aventuras de Tom Sawyer (1876), de Mark Twain (1835-1910). Uma leitura divertida, bem escrita e um dos clássicos da literatura mundial.

Twain é considerado um dos principais nomes da literatura norte-americana. Seu livro Aventuras de Huckleberry Finn, por exemplo, uma continuação da narrativa em Tom Sawyer publicada em 1884, é considerado por Ernest Hemingway como o maior romance de todos os tempos e o ponto de origem de toda a literatura norte-americana moderna. Ambos Tom Saywer e Huckleberry Finn figuram em listas dos melhores livros de todos os tempos e se tornaram memoráveis personagens. Para saber mais sobre Aventuras de Huckleberry Finn, clique aqui.





Meu primeiro contato com Twain foi na universidade, quando li Aventuras de Huckleberry Finn, a história de Huck, um garoto pobre do Missouri, cujo pai é um bêbado e o deixa perambular pelas ruas da pequena cidade de St. Petersburg (cidade ficcional criada por Twain com base na sua cidade-natal Hannibal, no Missouri) a procurar encrencas, nadar, fumar e aproveitar de sua liberdade. Um dos amigos de Huck é o esperto e travesso Tom Sawyer, o protagonista do romance de 1876. Ao contrário de Huck, Tom tem uma casa e uma família que o ama. Ele mora com sua tia Polly, seu irmão Sid e sua prima Mary. Ele vai à escola, à igreja, é obrigado a se comportar e a estudar a Bíblia. Tom, no entanto, aproveita cada oportunidade que lhe aparece para fugir de compromissos, brincar à beira do rio Mississippi e criar cenários imaginários baseados nos livros que lê, como as aventuras de Robin Hood e de grandes piratas do século passado. Ele inveja a liberdade que Huck tem e, apesar de ser aconselhado a manter distância dele, Tom o considera seu melhor amigo.

Tom Sawyer

As Aventuras de Tom Sawyer é escrito na terceira pessoa, mas através da perspectiva de Tom. Ou seja, é uma narrativa contada através da perspectiva inocente e cativante de uma criança conforme Tom passa por certas experiências que o levam cada vez mais próximo da vida adulta, deixando o romantismo da infância para trás e aceitando o realismo da vida madura.

Uma das principais aventuras no livro é quando Tom decide se tornar um ladrão e convida Huck para buscar um tesouro perdido, como nas lendas de piratas. O que eles não esperavam é que iriam ser testemunhas de um crime e que suas ações teriam consequências reais na vida de pessoas reais. É um banho de água fria de realidade na fantasia dos dois garotos. Mas eles nunca perdem o bom humor e a chance de transformar toda e qualquer ocorrência em um grande espetáculo.

Huck Finn
O livro se tornou muito popular, o que levou Twain a iniciar um nova aventura na mesma cidade de St. Petersburg, mas dessa vez sob a perspectiva de Huck Finn, que conta a história em primeira pessoa. Embora Twain tenha iniciado a escrita de Aventuras de Huckleberry Finn logo depois de terminar Tom Sawyer, ele deixou o projeto de lado depois do capítulo 16. Foi apenas em 1884, oito anos depois da publicação do primeiro livro, que Huckleberry Finn chega às livrarias. A história de Finn vai muito além da de Sawyer. Huck se depara com um escravo que fugira de uma propriedade em St. Petersburg e precisa refletir sobre o papel dessa pessoa na sociedade, considerado apenas uma propriedade por causa da cor de sua pele.

Se você ainda não conhece as obras de Mark Twain, eu recomendo a leitura desses dois clássicos da literatura juvenil. É interessante iniciar com as aventuras de Tom Sawyer para depois embarcar em uma jornada mais reflexiva pelo sul escravocrata americano pré-Guerra Civil.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!


Fernanda


segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

"O Coração é o Último a Morrer", Margaret Atwood

 Olá, pessoal!


Hoje venho compartilhar com vocês a minha primeira leitura do ano 2021. Trata-se do quarto livro do meu Book Club: The Heart Goes Last (2015), ou, em português, O Coração é o Último a Morrer, da escritora contemporânea canadense Margaret Atwood. Atwood é uma das principais autoras de distopia do momento. Ela já escreveu mais de sessenta livros, incluindo romances, contos, livros de poemas, infantis e de não-ficção. Além disso, ela já recebeu diversos prêmios literários, como o Booker Prize (um dos principais prêmios literários para livros escritos em inglês e publicados no Reino Unido ou Irlanda), duas vezes: em 2000 com o romance histórico The Blind Assassin, e em 2019 com Os Testamentos, ao lado de Bernardine Evaristo com o romance experimental Girl, Woman, Other.


Margaret Atwood



O meu primeiro contato com Atwood foi alguns anos atrás, acredito que em 2015, quando li pela primeira vez O Conto da Aia (1985). Foi uma experiência muito instigante. Eu fui levada pelo universo distópico e aterrorizante criado por Atwood, em que mulheres perdem totalmente sua individualidade, são colocadas em castas fixas e têm seus direitos restringidos. Nessa realidade, por exemplo, as mulheres não podiam ler! Para saber mais sobre esse livro de Atwood, clique aqui.

Antes de ler O Coração é o Último a Morrer, portanto, eu já esperava um universo similarmente aterrorizante.

O Coração é o Último a Morrer se passa em uma realidade alternativa em um futuro próximo no Estados Unidos depois de um colapso da economia americana. Diversos negócios e fábricas faliram, o que gerou um alto número de desemprego, levando pessoas de todas as classes sociais a verem seu padrão de vida baixar drasticamente de um dia para o outro. 

Os protagonistas dessa narrativa são Charmaine e Stan. Ambos levavam uma vida de casado confortável: tinham empregos estáveis, uma casa própria, um carro e nada do que reclamar. Porém, depois da depressão econômica, ambos perderam seus empregos. Eles não tinham como manter a casa, foram vendendo seus pertences aos poucos até perderem a casa por completo. Charmaine conseguiu um trabalho como garçonete em um bar durante as tardes, o que lhes proporcionava dinheiro raramente suficiente para comprar comida. A única coisa que lhes restava era o carro, onde dormiam e viviam. Durante a noite, precisavam estar atento às gangues e malfeitores que dominavam as ruas. Era uma vida penosa.


Eis que um dia Charmaine assiste a um comercial na televisão do bar em que trabalha. Trata-se de um anúncio de um novo projeto social para melhorar a vida de pessoas afetadas pela depressão econômica. O projeto, chamado Positron, oferece empregos estáveis e casa própria. Porém, em troca, os participantes devem passar um mês como cidadãos dessa cidade experimental chamada Consilience e um mês como penitenciários na prisão Positron, e assim sucessivamente; seis meses de liberdade e seis meses de reclusão por ano. Enquanto Charmaine e Stan estão passando o seu mês na prisão, os seus Alternates, o casal que divide a casa com eles, vivem na casa. No mês seguinte, Charmaine e Stan voltam para casa enquanto seus Alternates vão para a prisão. No entanto, é expressamente proibido encontrar ou tentar se comunicar com o seu Alternate

Desiludidos com sua situação atual, Charmaine e Stan aceitam a proposta e se mudam para Consilience.



Os primeiros meses parecem um sonho em comparação à vida aperada e miserável que levavam no carro. Ambos tinham empregos que gostavam, uma casa confortável e podiam viver sem preocupações. Porém, com o passar do tempo, a curiosidade pelos seus Alternates levam ambos a relações proibidas e perigosas. Além disso, eles descobrem que pessoas malquistas no local somem misteriosamente. Parece que a idílica cidade Consilience esconde planos secretos que involvem muito dinheiro para certas pessoas do lado de fora.


Não vou contar para vocês como essa história se desenrola. Apenas posso dizer que é uma jornada louca! Há momentos que parecem impossíveis de acontecer no mundo real. Porém, ao pensar sobre eles, você chega à conclusão de que, por mais absurdos que pareçam, eles poderiam, sim, ser realidade: o que me causa um frio na espinha!


Este é mais uma narrativa de Atwood sendo Atwood: instigante, aterrorizante, curioso, perturbador e perversamente factível. 

Atwood


The Heart Goes Last foi publicado em 2015. O livro foi baseado em uma série de contos lançados online pela autora em 2013 e que se passam em Positron. Várias das obras de Atwood já foram adaptadas para o cinema ou televisão. Eu acredito que The Heart Goes Last daria uma ótima série televisiva! Quem sabe em um futuro próximo?

Espero que tenham gostado dessa sugestão de leitura.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!


Fernanda


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

"The Witcher", Andrzej Sapkowski

 Olá, pessoal!

Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura. Já fazia um bom tempo que eu queria ler a saga do autor polonês Andrzej Sapkowski. Eu já havia encontrado os seus livros na seção de literatura fantástica em livrarias algumas vezes. As capas e os títulos me intrigaram, como o do primeiro volume: O Sangue dos Elfos, publicado no Brasil em 2013. Eu sabia que se tratava de um universo pseudo-medieval com criaturas mágicas, tavernas, bardos e feiticeiras. Exatamente o tipo de história que me atrai. Porém, como já tinha (e ainda tenho!) séries iniciadas e não terminadas, não queria começar a ler mais uma série de livros, então deixei para lá.



Eis que no final de 2019 a Netlix nos trouxe uma série intitulada The Witcher, com Henry Cavill no elenco. Eu gostei muito do trabalho dele na série histórica The Tudors, por isso fiquei interessada em assistir a série que, além de tudo, está inserida em um universo mágico medieval. Porém, até então eu não havia percebido que essa série era baseada naqueles livros de fantasia que eu havia encontrado em livrarias anos atrás! Ao terminar a primeira temporada da série, decidi que finalmente chegara a hora de ler os livros de Sapkowski.


No início do ano, li O Último Desejo, publicado originalmente em 1993 e no Brasil em 2011. Este é, na verdade, um livro de contos que apresenta o universo de The Witcher ao leitor e o seu protagonista, Geralt de Rívia. Gerald é um witcher, ser que dá nome à série: um caçador de criaturas com habilidades realçadas por magia, que perambula de vila em vila a oferecer os seus serviços por dinheiro. Witchers têm extrema força, não pode morrer por causas naturais, não podem ter filhos e não sentem emoções. Wicthers são treinados desde crianças (normalmente as crianças são levadas por um witcher como pagamento de alguma promessa) e passam por uma mutação através de processos alquímicos, a que muitos não sobrevivem. Somente os mais fortes conseguem se transformar em witchers.

Os principais personagens na saga, além de Geralt, são o bardo Dandelion (o meu preferido) e a feiticeira Yennefer de Vengerberg. Na série da Netflix, Dandelion é, na verdade, Jaskier, o nome original do personagem em polonês. Dandelion é um poeta, que percorre os reinos em busca de aventuras para transformar em baladas. Suas canções são muito populares e sua personalidade extravagante e carismática deixa a sua marca por todos os lugares por onde ele passa. Em uma das sua aventuras ele conhece Geralt e se tornam inesperadamente amigos. Suas jornadas tendem a se cruzar durante toda a saga de The Witcher

Yennefer é uma feiticeira muito poderosa. Apesar de ter uma idade avançada, Yennefer permanece com uma aparência jovem e é extremamente atraente. Geralt, apesar de witchers não terem sentimentos, se apaixona por Yennefer, e o sentimento parece ser recíproco. Geralt e Yennefer são feitos um para o outro, mas suas jornadas os separam.


Henry Cavill como Geralt

 

Os acontecimentos em O Último Desejo se passam antes do início da saga em si em O Sangue dos Elfos. Recentemente, terminei de ler A Espada do Destino, publicado na Polônia em 1992 e no Brasil em 2012. Este é, também, um livro de contos no universo de The Witcher com os mesmos personagens, O leitor acompanha Geralt em diversas jornadas, incluindo a busca por um dragão, um reecontro com Yennefer, um duelo com um feiticeiro também apaixonado por Yennefer, a caça a um dúplice que se passa por ananico (uma raça não humana de estatura reduzida), uma jornada pelo fundo do mar e o encontro com uma civilização submarina, entre outros. Os contos são bem dinâmicos e têm um tom divertido, principalmente quando Dandelion faz parte da trupe.

 


A saga de The Witcher se originou em um conto publicado pelo autor polonês para um concurso realizado pela revista Fantastyka em 1986. Apesar de terminar o concurso em terceiro lugar, a história de Gerald obteve muito sucesso e popularidade, levando Sapkowski a escrever mais material. A partir de 1990, esses contos foram reunidos e publicados nos dois volumes que mencionei aqui: A Espada do Destino e O Último Desejo, publicado depois de A Espada, mas que se passa cronologicamente antes dos eventos deste. 


Agora que fui iniciada no universo de The Witcher, quero ler a saga principal, que se inicia com O Sangue dos Elfos, seguido por Tempo do Desprezo, Batismo de Fogo, A Torre da Andorinha e A Senhora do Lago. A série da Netflix foi confirmada para uma segunda temporada, mas sem data de lançamento prevista. Além da série, a saga The Witcher também foi adaptada com sucesso para o universo de video games desde 2007, e para histórias em quadrinhos entre 1993 e 1995. Há, também, uma adaptação cinematográfica polonesa de 2001, mas foi recebido negativamente tanto pelo público como pela crítica e pelo próprio Sapkowski.


Andrzej Sapkowski e seus livros

Espero que tenham gostado de saber mais sobre o universo de The Witcher.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!


Fernanda

terça-feira, 29 de setembro de 2020

"O Caçador de Pipas", Khaled Hosseini

 Olá, pessoal!


Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura, que foi também o livro escolhido para o meu Clube do Livro de outubro. Trata-se de O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini. Eu já havia lido esse livro alguns tantos anos atrás, mas a experiência foi completamente diferente. Naquela época, a leitura não me cativou. Lembro que demorei um bom tempo para finalizar o livro e não me identifiquei com os personagens e suas jornadas. Na verdade, não tinha maturidade suficiente para entender as complexidades políticas, sociais e culturais dessa narrativa. Dessa vez, Hosseini me levou para as ruas de Cabul, capital do Afeganistão, da década de 1960, senti o cheiro de kebab e especiarias, vi as pipas voarem no céu, mas também sofri com as consequências da invasão soviética em 1979 e com as consequências ainda mais devastadoras da vitória dos talibãs em 1994.


O protagonsista dessa história é Amir, que em 2001 está com 38 anos e mora nos Estados Unidos. Ao receber um telefonema de Rahim Khan, velho amigo do seu pai, Amir sabe que precisa voltar ao Afeganistão e reconectar com o seu passado para curar as feridas que lhe atormentam há anos. É, então, que o leitor retorna à infância de Amir na Cabul de 1975, uma cidade próspera e segura, o completo oposto do que se tornaria décadas mais tarde com o domínio do movimento fundamentalista islâmico nacionalista, que transformou o Afeganistão no país mais perigoso do mundo com o maior número de refugiados buscando asilo fora do país.


Cabul na década de 1970

Amir passou a sua infância em uma bela casa no sofisticado bairro Wazir Akbar Khan. Seu pai, que ele chama de Baba, é um rico comerciante e zela por uma impecável reputação. Sua casa está sempre repleta de convidados ilustres e grandes nomes da elite afegã. A mãe de Amir morrera durante o parto, deixando Amir órfão de mãe. Baba e Amir moram com Ali, o fiel criado de Baba, e seu filho Hassan. Ali e Hassan são Hazaras, ou seja, descendentes de um povo de origem mongol. Por serem considerados forasteiros e pela maioria ser muçulmana xiita, os Hazaran foram perseguidos e discriminados em Cabul e por todo o Afeganistão. Apesar das diferenças sociais, Amir e Hassan crescem juntos como irmãos, brincam juntos, porém, ao final do dia, Hassan vai para o seu quarto confortável enquanto Hassan se retira para o casebre simples anexado à casa junto do seu pai. Além disso, Hassan é inteiramente submisso a Amir e o serve em diversas situações. A amizade entre os dois não é vista com bons olhos pela elite afegã, mas Baba os mantém por perto como se ambos fossem seus filhos.

Amir e Hassan no filme de 2007

Em uma competição de pipas durante o inverno de 1975, que, por sinal, era uma atividade tradicional da cidade muito aguardada pelas crianças participantes e pelos adultos espectadores, Amir queria vencer a qualquer custo e alcançar a pipa derrotada como prêmio da sua vitória. Ele acreditava que vencer o torneio de pipas faria com que Baba tivesse orgulho do seu filho. Hassan, para agradar Amir, saiu correndo pelas ruas de Cabul em busca da cobiçada pipa, porém é encurralado por uma gangue de garotos liderados por Assef, que o despreza por sua origem Hazara e o agride sexualmente. Essa é uma cena muito dolorosa do livro, ainda mais porque Amir se depara com esse crime e não consegue agir. Essa culpa ele carrega consigo por toda a sua vida.


Tomas Munita for The New York Times


Anos depois, Amir foge do Afeganistão com seu pai depois da ocupação soviética. Eles se mudam para os Estados Unidos, onde precisam inicar uma nova vida do zero. Baba, um homem rico e de prestígio em Cabul, precisa trabalhar como frentista de um posto de gasolina para ganhar dinheiro o suficiente alimentar sua família. Todas as riquezas, sua casa, seu estilo de vida tiveram que ficar para trás. O único objetivo era sobreviver. Apesar de Ali e Hassan estarem a milhares de quilômetros de distância, a dor de Amir ao pensar no sofrimento de seu companheiro (e que ele poderia ter evitado) continua a lhe assombrar. Um chance de redenção se apresenta em 2001, quando ele recebe o telefone de Rahim Khan. Ele tem a chance de voltar ao Afeganistão agora tomado pelo talibã para salvar o que Hassan deixou para trás: seu filho, Sohrab.

Romano Cagnoni / Getty Images

Esse livro me marcou de tantas formas! A dor de saber que milhares de pessoas sofreram como Amir e Baba, obrigados a deixarem sua vida para trás para iniciar um novo capítulo em um país desconhecido com uma cultura totalmente diferente. A dor de ler sobre como a Cabul idílica da infância de Amir simplesmente desapareceu sob bombas, minas e corpos. A dor de imaginar o sofrimento de crianças como Sohrab, negligenciadas pelo preconceito e roubadas de suas famílias. Não foi uma leitura fácil emocionalmente, mas uma leitura que me proporcionou diversas reflexões, principalmente de gratidão pela minha própria trajetória longe de sofrimentos como esses.


Talibã no Afeganistão - Wali Sabawoon/NurPhoto/Getty Images



Khaled Hosseini, autor do livro, nasceu em Cabul, assim como Amir. Aos 11 anos de idade, sua família se mudou para a França e quatro anos depois buscaram asilo nos Estados Unidos, onde mora até hoje. Ele voltou ao Afeganistão em 2001, com a idade de 36 anos, onde se sentiu um turista no seu próprio país. Interessantemente, Khaled só voltou ao Afeganistão depois de ter escrito o livro. Portanto, ao andar pelas ruas de Cabul, o autor não só relembrava a própria infância, como a infânciada de Amir criada por ele mesmo.

O autor Khaled Hosseini

Essa é uma leitura que te tira da zona de conforto e te proporciona uma visão mais ampla do mundo e das pessoas que nele vivem. Com certeza, vale a leitura!


Um grande abraço e ótimas leituras!


Fernanda

domingo, 30 de agosto de 2020

"The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade", Colson Whitehead

 Olá, pessoal!

Recentemente eu decidi iniciar algo que sempre quis fazer: criar um clube de leitura! Eu já participei de alguns book clubs, mas sempre tive a vontade de organizar um grupo que se interessasse por livros e por discutir leituras de maneira informal. Por isso, reuni alguns amigos e cada um sugeriu um livro que gostaria que fosse nossa primeira leitura do clube. A partir dessas opções, fizemos uma votação. E o livro mais votado foi The Underground Railroad, ou Os Caminhos para a Liberdade, como foi traduzido para o português, escrito pelo norte-americano Colson Whitehead.

Esse livro recebeu o Prêmio Pulitzer de Ficção em 2017, um ano após a primeira publicação nos Estados Unidos. Além de ser um livro reconhecido pela crítica, ele foi (e continua sendo) bastante discutido, principalmente por tratar de um lado sombrio da história americana: a escravidão. A narrativa se passa nas primeiras décadas do século XIX, período, portanto, pré-Guerra Civil, e se inicia em Georgia, um estado escravocrata no sul dos Estados Unidos. No mapa abaixo, você pode conferir como a divisão do território americano se modificou ao longo dos anos desde 1789 até 1861, ano de início da Guerra Civil, também conhecida como Guerra da Secessão, que dividiu os Estados Unidos em União, no Norte, que condenava a escravidão, e os Estados Confederados no Sul, que mantinham a escravidão legalizada.




Georgia, portanto, era um estado onde a escravidão era permitida e, de fato, a base da economia agrária. Diversas plantações de algodão, milho e arroz eram movidas pelo trabalho dos escravos, a princípio trazidos do continente africano, e, mais tarde, já nascidos em solo americano. 

A protagonista de The Underground Railroad é Cora, uma jovem mulher negra, neta de Ajarry, uma mulher que havia sido capturada na África e trazida para os Estados Unidos para trabalho forçado. A mãe de Cora, Mabel, foi a única escrava até o momento que havia conseguido fugir da plantação dos Randall sem ter sido resgatada pelo temido caçador de escravos Ridgeway. A história é contada pela maior parte através da perspectiva de Cora, o que subverte as narrativas históricas conservadoras, que levam apenas a visão do conquistador branco em consideração. Em The Underground Rairoad, o leitor adentra essa sub-cultura das plantações escravocratas do sul norte-americano do início do século XIX, sofrendo com a protagonista as atrocidades que o branco inflingia nos africanos e seus decendentes, até mesmo nos escravos que haviam comprado a sua liberdade.

O livro é dividido em 12 partes (Ajarray, Georgia, Ridgeway, Carolina do Sul, Stevens, Carolina do Norte, Ethel, Tennessee, Caesar, Indiana, Mabel e O Norte), que são intitulados a partir do nome de algum personagem ou local que marcam a trajetória de Cora desde a plantação dos Randall em Geórgia em direção à liberdade dos estados do norte. Além disso, a maioria dessas divisões se inicia com a transcrição de um anúncio de jornal sobre a fuga de um negro ou negra e a recompensa para a sua captura ou informações do seu paradeiro. Esses anúncios são reais e retirados da coleção digital da Universidade da Carolina do Norte, e ilustram a maneira como esses seres humanos eram tratados como animais ou objetos.


Trajetória de Cora


A premissa desse livro é baseada na "underground railroad", ou "ferrovia subterrânea" na tradução literal, que foi de fato uma estrutura clandestina de rotas para auxiliar negros a escaparem da escravidão e alcançar os estados do norte ou Canadá, ativa até a segunda metade do século XIX. Essas rotas e casas de abrigo eram supervisionadas por abolicionistas e simpatizantes da emancipação dos escravos. Na verdade, apesar de ser chamada de ferrovia, estas rotas não eram, de fato, linhas de trem (linhas de trem subterrâneas só foram instaladas nos Estados Unidos em 1863). O nome foi utilizado de forma metafórica já que as pessoas que se aventuravam por essas rotas secretas desapareciam, como se tivessem sido engolidas pela terra, e também por causa da terminologia utilizada entre os envolvidos: estações, condutores, agentes, cargo, passageiros, etc. Os escravos que conseguiam atravessar essa jornada com sucesso mudavam de nome e deixavam sua identidade como escravos para trás para viver uma nova vida no norte. 



No livro The Underground Railroad, o autor Colson Whitehead re-imagina esse projeto clandestino para libertar escravos afro-americanos como uma ferrovia subterrânea literalmente. Cora é convencida por Caesar, outro escravo da plantação Randall, a fugir pela "underground railroad". Caesar quer a presença de Cora por boa sorte, já que a mãe dela Mabel foi a única a conseguir fugir daquele inferno. A sua mãe é uma figura bastante paradoxical para Cora, pois ela representa esperança pelo fato de que ela alcançara a liberdade, mas também lhe causa raiva e rancor por Cora ter sido abandonada por sua própria mãe e deixada para sofrer as consequências da escravidão.


"Resurrection of Henry Box Brown" Engraving by John Osler, published in William Still, The Underground Railroad (Philadelphia, 1872)

Essa é uma história bem pesada, em certos momentos eu tive que colocar o livro de lado para digerir a narrativa e pensar sobre a crueldade do ser humano, que podia inflingir tanto sofrimento - físico e mental - a outro ser humano. Na verdade, os donos de plantações, caçadores de escravos e apoiadores da escravidão não consideravam o negro como um ser humano, mas como uma criatura, desprovido de inteligência, sentimentos ou sonhos. É difícil de aceitar a crueldade do ser humano, mas essa foi a base da criação dos Estados Unidos, assim como de tantos outros países colonizados e escravizados, como o nosso Brasil. O processo para reverter esse pensamento e para que todos acreditem e respeitem a igualdade ganhou força com os membros da "underground railroad". Porém, esse é um processo que ainda não terminou. Duzentos anos depois, ainda estamos aqui, lutando pela igualdade.


Colson Whitehead

A "underground railroad" se tornou um símbolo de luta pela liberdade nos Estados Unidos e por isso o livro de Whitehead é tão importante: ele nos lembra desse lado sombrio da história americana, nos faz sentir enjoados pela crueldade com que os escravos eram tratados e castigados, mas também nos lembra da importância da resistência e da liberdade.

Espero que tenham gostado de saber mais sobre esse grande livro da literatura norte-americana contemporânea. 


Um ótimo final de semana e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda