sábado, 2 de junho de 2018

"Jane Eyre", Charlotte Brontë

Olá, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura. Trata-se de um livro que já está na minha lista há muitooo tempo: o clássico da literatura inglesa do século XIX, Jane Eyre.

O contexto de publicação do livro em si já é super interessante. Ele foi escrito por Charlotte Brontë, a mais velha das irmãs Brontë. As outras duas, Emily e Anne, também eram escritoras. Porém, no século XIX, ainda era muito difícil para uma mulher conseguir publicar seus trabalhos, ainda mais mulheres solteiras. Por isso, as meninas publicaram seus livros sob os pseudônimos Currer Bell (Charlotte), Ellis Bell (Emily) e Acton Bell (Anne). Quando as críticas de Jane Eyre saíram, a maioria imaginou que o autor da história era um homem, já que - de acordo com eles - uma mulher não seria capaz de escrever um romance tão complexo e com personagens tão desenvolvidos. Imagina a surpresa ao descobrirem mais tarde que se tratava de uma jovem mulher?

Charlotte Brontë
Jane Eyre foi publicado em três volumes em 1847. Mesmo depois de passada a primeira onda da literatura gótica (característica do final do século XVIII e ilustrada por trabalhos de escritores como Ann Radcliffe e Horace Walpole), o romance de Charlotte traz motivos góticos, como a mansão misteriosa, atmosfera de chuvas e neblina, um segredo do passado, sonhos e visões sobrenaturais, etc. Fica claro que Charlotte era uma leitora ávidas dos clássicos góticos do século anterior.

Ao longo do romance de quase 500 páginas, nós acompanhamos a protagonista Jane Eyre desde a sua infância, criada por uma tia depois da morte de ambos os pais. Sua tia, esposa do irmão da sua mãe, a considerava um empecilho e, por isso, a tratava mal. Quando Jane atingiu uma certa idade, foi mandada para a instituição para crianças órfãs Lowood, onde se tornou uma moça amarga e fechada, porém dedicada ao estudo e conhecimento. Após passar seis anos como estudante, trabalhou mais dois como professora na mesma instituição.

Jane Eyre na instituição Lowood. Cena do filme de 2011
Aos dezoito anos, Jane sonhava em deixar Lowood e conhecer mais do mundo. Por isso, começou a procurar emprego como governanta, até que foi chamada para trabalhar na mansão do Sr. Rochester, Thornfield Hall, como instrutora da pequena Adèle. As coisas parecem melhorar para Jane, até que ela começa a perceber barulhos e eventos curiosos - até mesmo perturbadores - na casa. Além disso, ela reluta em admitir que sente algo poderoso pelo seu patrão, que parece gostar dela também. Mas o passado desse homem é muito mais negro do que ela imagina.

E muitas outras coisas acontecem durante a história, mas não vou revelá-las aqui. Jane é uma personagem muito bem construída. A narrativa em primeira pessoa nos dá acesso aos seus pensamentos e sentimentos, sua força e desejo em ser uma mulher independente - o que ela consegue.

Não é à toa que Jane Eyre é um grande clássico da literatura e continua sendo lido nos dias de hoje, 170 anos depois da sua primeira publicação. Jane Eyre se tornou um dos meus livros preferidos e, tenho certeza, voltarei a lê-lo muitas vezes ainda no futuro.

Espero que tenham gostado dessa resenha. Uma ótima semana e ótimas leituras,

Fernanda


quinta-feira, 10 de maio de 2018

"Mistério em Chalk Hill", Susanne Goga

Olá, pessoal!

Hoje venho compartilhar com vocês uma leitura que acabo de terminar e que me deixou muito eufórica. Foi uma leitura extremamente envolvente e, por isso, vim direto aqui dividir minhas impressões com vocês. O livro ao qual me refiro é Mistério em Chalk Hill (2014), da escritora alemã Susanne Goga.

Eu cheguei até esse livro por pura casualidade. Como eu viajo muito de ônibus, eu comecei a escutar audiolivros durante o percurso para aproveitar esse momento de certa maneira, já que não consigo ler livros físicos em carros em movimento porque fico tonta! Tenho usado o aplicativo para smartphones uBook e tenho gostado bastante da experiência. Há diversos livros no catálogo e um deles é Mistério em Chalk Hill. A sinopse dizia que se tratava da história de uma jovem mulher alemã, Charlotte Pauly, que depois de se envolver em um escândalo na sociedade de Berlim decide se mudar para a Inglaterra em busca de emprego e uma nova vida. Detalhe: a história se passa em 1890. É claro que me interessei na hora! Adoro romances com governantas que se passam na Inglaterra vitoriana!




Comecei a escutar ao audiolivro sem grandes pretensões, já que sabia absolutamente nada sobre a autora alemã. E, capítulo por capítulo, a narração através da perspectiva de Fräulein Pauly - como é chamada na Inglaterra para enfatizar a sua origem estrangeira - me envolveu. Me identifiquei muito com a jovem alemã, que trabalha como professora, gosta de idiomas, adora ler - principalmente os contos de fadas dos irmãos Grimm e as peças de Shakespeare - gosta de tomar chá e ler em frente à lareira e, além de tudo, é uma mulher independente mas ao mesmo tempo muito sensível.


Charlotte é chamada para trabalhar em Chalk Hill como preceptora da pequena Emily, uma menina adorável de oito anos. Seu pai, Sir Andrew, contratou a jovem alemã para se encarregar da educação da filha depois da morte prematura da mãe, a Lady Ellen Clayworth. Ao iniciar seu trabalho na enorme mansão cercada por uma densa floresta em Chalk Hill, Charlotte percebe que há muitos mistérios envolvendo a morte da Lady Ellen. E para ajudar a jovem Emily, ela terá que desvendá-los.

A narrativa do ponto de vista da Fräulein Pauly é intercalada com trechos em que a perspectiva é de Tom Ashdown, um crítico de teatro londrino que perdeu a esposa recentemente. Ele escreve resenhas hilárias sobre as peças teatrais que assiste e frequenta bares e restaurantes em companhia de diversos intelectuais. Por ainda sofrer com a morte da esposa, ele acabou se envolvendo com a famosa Society for Psychical Research, uma sociedade baseada em Londres que analisa cientificamente eventos sobrenaturais e que existe até os dias de hoje.

E é através dessa sociedade que os destinos de Charlotte e Tom se cruzam e as histórias de Londres e Chalk Hill se entrelaçam. É um romance muito bem construído, que traz personagens reais como o Prof. Henry Sidgwick, professor da Universidade de Cambridge e um dos fundadores da Society for Psychical Research, e sua esposa, Eleanor Sidgwick, matemática e reitora do Newnham College em Cambridge.


Henry Sidgwick e Eleanor Sidgwick

É impossível ler a história de uma governanta que é chamada para trabalhar em uma enorme mansão cheia de mistérios na Inglaterra vitoriana e não relacioná-la com o clássico Jane Eyre (1847), de Charlotte Brontë. E, por coincidência, estou lendo Jane Eyre nesse momento. Portanto, a relação ficou ainda mais clara. Susanne escreve sobre a influência do romance de Charlotte Brontë na sua história no posfácio do livro. Além disso, há diversas alusões no livro de Susanne a outros clássicos da literatura, como o detetive Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle, o romance O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e diversas menções às peças de Shakespeare. Essas intertextualidades deixaram Mistério em Chalk Hill ainda mais saboroso para ler ou ouvir.



Se você gosta de histórias de mistério com toques sobrenaturais, conversas à frente da lareira crepitante sobre literatura, contos de fadas e o encantamento da Inglaterra do final do século XIX, esse é o livro ideal para você!

Ao que tudo indica, esse é o único livro da autora traduzido para o português. Ela já escreveu mais de oito romances históricos, que estou louca para ler! Porém, todos escritos em alemão. Espero que mais dos seus livros sejam traduzidos para o inglês. Gostei muito do estilo dessa escritora, que tem tudo para desenvolver uma carreira brilhante pela frente.

Espero que tenham gostado dessa dica.

Ótimas leituras!

Fernanda

sábado, 31 de março de 2018

"O Vendedor de Histórias", Jostein Gaarder

Olá, pessoal!


Hoje venho compartilhar com vocês uma das minhas leituras mais recentes. É um livro que já estava na minha estante há muito tempo, e fico muito feliz de o ter resgatado da pilha de livros esquecidos. Trata-se de O Vendedor de Histórias, de Jostein Gaarder (1952-). Você já deve ter ouvido falar desse escritor norueguês, pois foi ele o autor do livro grande campeão de vendas dos anos 1990, O Mundo de Sofia (1991). Também tenho O Mundo de Sofia em minha coleção, mas ainda não fiz a leitura. Agora que conheci o trabalho de Gaarder, fiquei curiosa para ler mais trabalhos dele.

O Vendedor de Histórias foi publicado pela primeira vez em 2001, quando Gaarder já se havia consolidado como escritor de sucesso. Ele é narrado em primeira pessoa por Petter, um garoto norueguês nascido em Oslo, e nós o acompanhamos durante toda a sua vida. Desde criança, ele tinha uma imaginação muito fértil. Sua imaginação era maior do que ele podia lidar. Por isso, ele sentia necessidade de colocar sua imaginação para fora, transformando-a em histórias. Sua mãe ficava surpresa com a tamanha criatividade do menino, que inventava narrativas complexas com uma facilidade incrível.

Jostein Gaarder
O menino foi crescendo e, aos poucos, percebeu que esse seu talento poderia se tornar rentável. Apesar de preferir a solidão dos seus mundos imaginários, Petter tinha muitos colegas no universo editorial: os que sentiam vontade de escrever, mas ainda não haviam publicado um livro, os escritores frustrados que já haviam publicado mas não produziam nada há tempo, os que tinham potencial e paciência para escrever um calhamaço de mais de setecentas páginas, os imediatistas que queriam fama logo, os incorruptíveis, etc. O pessoal sabia do seu talento em contar histórias, e quando Petter começou a sugerir a venda de suas anotações e planos detalhados para romances, seu negócio decolou. É claro que cada um de seus clientes achava que ele era único e suas transações exclusivas.

O tempo se passou, as ideias de Petter se tornaram best-sellers e romances premiadas. Certamente, alguns de seus esboços não foram bem trabalhados depois de vendidos e acabaram não dando em nada. Petter se divertia em ver como suas histórias ganhavam asas próprias.

Capa da edição norueguesa
O que eu achei muito interessante nesse livro é que o narrador, Petter, escreve algumas de suas histórias ou anotações para histórias. Portanto, o leitor tem acesso a algumas dessas histórias dentro da história. Eu acho esse mecanismo metaficcional muito engenhoso e interessante! Eu, particularmente, adorei a história de Petter sobre o jogo de xadrez e sobre o triplo assassinato após a morte. O narrador também reflete sobre a situação do universo literário e do mercado editorial nos dias de hoje, como o fato de que muitas pessoas querem se tornar escritores apenas pela fama e pelo dinheiro. Ele escreve sobre como muita coisa, até demais, é produzida hoje em dia (muita coisa boa, mas também muita coisa ruim). "Há mais cultura do que podemos digerir", ele afirma.

Além disso, ele escreve sobre a profissão do escritor. Ele afirma que, primeiro, deve-se viver para depois escrever, e não o contrário, como muitas pessoas fazem hoje em dia. Ele escreve:

"É um equívoco pós-moderno achar que você pode escrever primeiro e viver depois. Mas muitos jovens querem se tornar escritores principalmente porque querem viver como escritores. Isso é pôr o carro na frente dos bois. É preciso viver primeiro, e depois decidir se tem algo a dizer. A vida é o fator determinante. Escrever é o fruto da vida. A vida não é o fruto de escrever" (página 121).


Não é interessante? E é a mais pura verdade! Ele também coloca que um grande escritor não precisa buscar o que escrever, ele escreve quando tem que escrever: "Um grande escritor não tenta encontrar alguma coisa sobre a qual escrever, ele simplesmente escreve quando tem de escrever" (página 122). Eu, como escritora, refleti muito sobre isso. Achei muito interessante. Não adianta buscar uma ideia a todo custo. Se for uma ideia boa, não se preocupe, ela virá até você!

Porém, conforme Petter vai ficando mais velho, sua teia de negócios e conexões (que expandiu até mesmo para outros países) vai ficando mais e mais fina, até arriscar quebrar! Em uma feira de livros em Bolonha ele se reencontra com o seu passado de uma maneira surpreendente e chocante. Não vou contar para vocês o que acontece, apenas digo que vale muito a pena a leitura!


Espero que tenham gostado dessa minha dica de leitura! É muito interessante ler autores fora do eixo dos países de língua inglesa. Se você se interessa por livros sobre livros, histórias dentro de histórias, mistérios e peças de quebra-cabeça que se encaixam perfeitamente no final, O Vendedor de Histórias é o livro para você!

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

sexta-feira, 23 de março de 2018

"O Retrato de Dorian Gray", Oscar Wilde

Olá, pessoal!

Hoje venho compartilhar com vocês uma leitura que terminei recentemente e que já se tornou um dos meus livros preferidos de todos os tempos!



Estou falando de O Retrato de Dorian Gray, do fabuloso escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), publicado periodicamente durante o ano de 1890 em uma revista literária estadunidense. É interessante frisar que existem duas versões do texto: o texto original publicado nos Estados Unidos em 1890, e uma edição revisada publicada em formato de livro na Inglaterra em 1891. No entanto, a editora inglesa obrigou Wilde a  reescrever o texto de modo a deixá-lo menos "indecente", suavizando a influência negativa de Lorde Henry sobre Dorian Gray. Há muitas interpretações que vêem Lorde Henry como uma personificação do diabo, que teria levado Dorian para o mal caminho. Eu li a versão original, como idealizada primeiramente por Wilde.

Dorian é um jovem da elite na sociedade vitoriana. De personalidade doce e muito atraente, ele logo chama a atenção da sociedade e, em especial, de Basil Hallward, um pintor, que decide imortalizar a beleza de Dorian em um quadro. O quadro fica maravilhoso.

Cena do filme de 2009
Em uma tarde no estúdio de Basil, o pintor e Dorian são visitados por Lorde Henry. Lorde Henry é um personagem fantástico. Ele é um aristocrata metido a filósofo, que divaga sobre os prazeres da vida. Para ele, a maior dádiva é a beleza e o pior pesadelo da vida é o envelhecimento do corpo. Muitos críticos o vêem como uma crítica de Wilde ao homem decadente do século XIX - um homem libertino que preza pelo crescimento intelectual, mas que não mede as consequências de seus atos egoístas. Ele influencia Dorian com a sua visão de vida, levando-o à seguinte reflexão:

"Como isso é triste! Deverei envelhecer, e ficar horrível e assustador. Mas este retrato sempre permanecerá jovem. Nunca ficará mais velho do que este dia em particular de junho... se fosse ao contrário! Se fosse sempre eu a ficar jovem e o retrato envelhecer! Por isto - por isto - eu daria qualquer coisa! Sim, não há nada em todo o mundo que eu não daria"

Basil e Lorde Herny observam o retrato de Dorian
Este é o momento crucial do romance. O, digamos, pacto de Dorian com o diabo. É ali que ele vende a sua alma, aprisionando-a no quadro: a partir desse momento, o retrato envelhece enquanto Dorian permanece belo e jovem.

Esta narrativa de Oscar Wilde é também uma ilustração do movimento chamado Esteticismo na literatura do final do século XIX. Os seguidores desse movimento acreditavam na arte pela arte. Não viam a literatura, ou a arte em geral, como moralizante ou um veículo de crítica social. A arte deveria apenas ser bela e causar prazer através da beleza. É essa a filosofia de vida de Dorian a partir do momento em que ele se torna um objeto belo em busca de prazer. Ele busca prazer na música, na literatura, em lugares, objetos e tecidos exóticos, etc. Dorian se torna a personificação dos desejos estéticos de Lorde Henry.



Se você busca um livro envolvente, com um toque de sobrenatural, diversas referências à mitologia grega e às peças de Shakespeare (ilustrando o imenso repertório cultural de Wilde), odes à arte, à literatura e à beleza através de uma linguagem extremamente poética, O Retrato de Dorian Gray é o livro para você! Eu fiquei muitíssimo feliz com essa leitura e acredito que acabei de encontrar mais uma adição à minha lista de favoritos.

O mestre Oscar Wilde!

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

domingo, 25 de fevereiro de 2018

"As Loucuras do Rei", Jean Plaidy

Olá, queridos leitores!


Hoje trago para vocês as minhas impressões lendo o oitavo volume da Saga Plantageneta, "As Loucuras do Rei", escrita pela fantástica Jean Plaidy. Sim, já acompanho as aventuras de uma das maiores dinastias de governo do reinado da Inglaterra há oito volumes e os volumes ficam cada vez melhores!

Neste livro, o forte rei Eduardo I dá seu último suspiro. Ele, que lutou pela causa escocesa, buscando unir a Inglaterra, Escócia e País de Gales sob uma única coroa. Seus esforços, contudo, foram colocados em xeque quando seu filho, o jovem Eduardo II, assume o poder.

A primeira coisa que o jovem Eduardo faz assim que assume o trono em 1307 é chamar o charmoso Piers Gaveston de volta ao reino, que havia sido banido por seu pai. De acordo com Eduardo I, o animado Gaveston era uma má influência para o príncipe, levando-o a passar o tempo com frivolidades. Os rumores é que Eduardo e Gaveston tinham um caso amoroso.

Eduardp II
De volta à Inglaterra, Gaveston se torna abertamente o favorito do rei e aproveita (e muito) do seu lugar no coração do monarca, aceitando presentes caros, jóias, sedas, e tendo parte em praticamente todas as decisões reais.  Logo, os nobres barões começam a perceber e desconfiar da crescente influência do jovem Gaveston. Para acalmar os ânimos dos barões - que haviam ganhado maior poder depois da assinatura da Magna Carta pelo Rei João, bisavô de Eduardo - Eduardo resolve se casar. A escolhida é ninguém menos do que Isabella, a bela filha do Rei da França, Filipe IV. A garota é enviada para a Inglaterra, mas mal sabia das verdadeiras predileções do seu marido.

Forçado pelos barões e por sua esposa, Eduardo decreta o banimento de Gaveston. O jovem passa certo tempo fora do país, mas logo volta para as graças do rei, que promete nunca mais deixá-lo. A Rainha Isabella, no entanto, não é mais a inocente garota vinda da França e, aos poucos, consegue o apoio dos barões para tramar a morte brutal de Gaveston.
Piers Gaveston

O rei passa por um período de intensa depressão e isola-se do resto da sociedade. Um jovem, porém, vê na morte de Gaveston uma oportunidade para se aproximar do rei. Aos poucos, Hugh Despenser se torna o novo favorito de Eduardo II, causando novo descontentamento entre os barões e a Rainha Isabella. A essa altura, a rainha já havia dado à luz alguns filhos, incluindo o primogênito Eduardo, que viria a se tornar Eduardo III mais tarde.

Cansada de ser deixada de lado pelo rei e das humilhações sofridas, a Rainha Isabella se junta a Roger Mortimer, um inimigo ferrenho de Eduardo II. Os dois iniciam um caso amoroso e planejam a deposição de Eduardo. Juntos, eles conseguem a execução de Hugh e, logo depois, forçam Eduardo II a abdicar do trono devido a ineficiência.

Isabella da França

O jovem Eduardo III é proclamado rei, enquanto seu pai é desprovido de seus títulos e se torna prisioneiro. A Rainha e Mortimer planejavam governar através do jovem Eduardo, então com 14 anos, e sabiam que tal façanha só seria possível se o monarca deposto fosse morto. Assim, o antigo rei é brutalmente assassinado enquanto dormia a mando da rainha e seu amante. Seu desaparecimento foi um mistério para a época.


Eduardo III, no entanto, não se mostra uma criança inocente, facilmente manipulada por sua mãe. Desde muito jovem ele apresenta uma personalidade forte, e é Eduardo III o protagonista do nono volume da saga, "O Juramento do Rei", que eu já estou louca para ler.


Se você perdeu as postagens anteriores referentes aos primeiros volumes da saga ou se você quer saber mais sobre a inglesa Jean Plaidy, clique aqui.

Jean Plaidy (1906-1993)

Essa é uma maravilhosa série de romances históricos para quem, como eu, quer saber mais sobre a história da Inglaterra e, ao mesmo tempo, adora uma aventura medieval.

Espero que vocês tenham gostado dessa dica de leitura.
Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

"Solteirona", Kate Bolick

Bom dia, queridos leitores!

Sabem aqueles livros que simplesmente te encontram? Foi o que aconteceu comigo e "Solteirona", de Kate Bolick. Esse livro simplesmente me encontrou, me fascinou e me inspirou!

Além da capa ser incrivelmente linda e chamativa (com uma mulher sentada em um sofá vintage dourado, segurando uma xícara de chá), me interessei pela premissa do livro: resgatar a palavra "solteirona" do cunho pejorativa e reivindicar à mulher o direito de escolher a própria vida. É claro que levei o livro imediatamente!

Kate Bolick é uma jornalista e escritora norte-americana, nascida em 1972. Aos 45 anos, ela nunca se casou e compartilha a sua história como mulher solteira na nossa sociedade atual. Ela afirma que cinco mulheres escritoras a inspiraram nessa jornada, as quais ela chama de despertadoras: Maeve Brennan, que a inspirou como ensaísta; Neith Boyce, que a inspirou como colunista; Edna St. Vincent Millay, que a inspirou como poeta; Edith Wharton, que a inspirou como romancista; e Charlotte Perkins Gilman, que a inspirou como visionária social. Essas cinco mulheres viveram em momentos históricos e circunstâncias diferentes, mas todas foram norte-americanas, escritoras e advogadas dos direitos da mulher, assim como Kate. Eu não conhecia todas essas mulheres e fiquei encantada em conhecê-las melhor e saber como elas influenciaram a vida de Kate.

Maeve Brennan (1917-1993)


Maeve Brennan
A primeira despertadora de Kate, a jornalista e escritora Maeve Brennan, parece ser a que teve uma marca maior na vida de Kate, pois ela reaparece diversas vezes durante a narrativa de "Solteirona". Brennan nasceu na Irlanda, mas mudou-se para os Estados Unidos em 1934, aos 17 anos. Brennan escreveu ensaios para a revista The New Yorker sob o pseudônimo "A Senhora Prolixa", que mais tarde foram reunidos e publicados. Brennan escrevia sobre suas experiências em uma Nova York paradoxalmente superpopulosa e solitária ao mesmo tempo. Ela se destacou por sua inteligência e elegância singular, principalmente nas décadas de 40 e 50. Brennan casou-se com seu colega de trabalho St. Clair McKelway, mas a união durou apenas cinco anos. Durante o resto da sua vida, Brennan permaneceu solteirona e aproveitando seu tempo para escrever. Depois da década de 1960, Brennan começou a desenvolver doenças mentais, parou de cuidar da sua aparência, não tinha residência fixa e morreu em um lar de idosos em 1993. Apesar do fim triste, Brennan teve uma vida produtiva e, diferente da maioria das mulheres, com liberdade.

Neith Boyce (1872-1951)

Neith Boyce
A segunda despertadora de Kate, a escritora, jornalista e dramaturga Neith Boyce, nasceu 45 anos antes de Maeve, em Indiana, Estados Unidos. Boyce escrevia uma coluna na Vogue sob o pseudônimo de "The Bachelor Girl", "A Garota Solteira" em português, na qual ela escrevia sobre o louvor da vida de solteira. Na época de Boyce, ser solteira era ainda menos comum do que na época de Brennan. Durante a chamada época vitoriana norte-americana (apesar de ser estranho utilizar o termo "vitoriano" para um período histórico nos Estados Unidos), o casamento ainda era visto como a razão de existência para qualquer mulher, e Boyce simplesmente desafiou esse plano. Como Kate, Neith se mudou para Nova York para morar sozinha e tentar a vida na grande cidade. A popularidade da coluna de Neith na época ilustra a curiosidade de outras mulheres sobre a vida e as possibilidades de uma mulher solteira. Boyce se casou com o romancista e jornalista Hutchins Hapgood em 1899. Seu casamento era moderno para a época: prezava-se pela igualdade entre os dois, e ambos tinham a liberdade para ter casos fora do casamento. Porém, a experiência não deu muito certo, pois Hutch se revelou mais conservador do que parecia a princípio. Seu marido morreu em 1944 e Neith sete anos depois, em 1951 aos 79 anos.

Edna St. Vincent Millay (1892-1950)

Edna St. Vincent Millay
A terceira despertadora foi Edna St. Vincent Millay, poeta, dramaturga e vencedora do Prêmio Pulitzer de Poesia em 1923. Uma mulher baixinha e atraente, que chamava a atenção tanto de homens quanto mulheres por onda passava. Edna ficou conhecida quando enviou o seu poema Renascence para um concurso de poemas. Seu poema não recebeu o primeiro lugar, mas foi considerado por muitos (inclusive o ganhador do concurso) como merecedor do grande prêmio. Como várias das despertadoras de Kate e até mesmo Kate, Edna mudou-se para Nova York para viver sozinha e trabalhar. Edna viveu por um tempo em Paris e foi até pedida em casamento em 1920, mas recusou. Porém, Edna se juntou ao grupo de mulheres casadas três anos mais tarde, 1923, quando se casou com Eugen Jan Boissevain. Boissevain respeitava a personalidade e carreira literária de Edna, apoiando-a e livrando-a de questões de gestão doméstica. Os dois permaneceram juntos em um casamento aberto até 1949, quando Boissevain morreu de câncer de pulmão. Edna morreu um ano depois, vítima de um ataque cardíaco, aos 58 anos. Edna é exemplo de um casamento que não limitou a sua produção artística ou a sua liberdade.

Edith Wharton (1862-1937)

Edith Wharton
A quarta despertadora de Kate foi a conhecida romancista norte-americana Edith Wharton, autora de livros como The House of Mirth (1905) e The Age of Innocence (1920), que venceu o Prêmio Pulitzer de Ficção em 1921. Essa não seria uma despertadora óbvia para uma solteirona, já que Edith passou a maior parte da sua vida casada com Edward Wharton, desde 1885, quando ela tinha apenas 23 anos, até 1913, quando os dois se divorciaram depois de 28 anos de casados. Edith escrevia desde criança, mas sua família não queria que seu nome aparecesse em publicações, porque mulheres respeitáveis não trabalhavam na época. Ela teve poemas publicados anonimamente, mas seu nome só apareceu com a publicação do poema The Last Giustiniani em 1889. Edith e seu marido compartilhavam da paixão por viajar. Como ambos eram de famílias ricas, eles podiam se dar ao luxo de passar meses e meses apenas viajando. Kate se identificou com Edith principalmente por ambas gostarem de e escreverem sobre decoração de interiores. Kate trabalhou por alguns anos em uma revista de decoração e descobriu que Edith escreveu e publicou um manual de decoração doméstica em 1897. Edith descobriu sua paixão e sua vocação: a escrita, e tal descoberta levou Kate a descobrir a sua vocação também: escrever. A maior parte das publicações de Edith foram produzidas depois do divórcio em 1913, quando Edith voltou a ter tempo para si própria.

Charlotte Perkins Gilman (1860-1935)

Charlotte Perkins Gilman
A última despertadora de Kate foi a escritora, socióloga e feminista Charlotte Perkins Gilman. Você talvez se lembre de Charlotte por conta do seu famoso conto O Papel de Parede Amarelo, publicado em 1892. Se você não se lembra desse conto, pode refrescar a memória acessando a postagem do blog sobre essa história clicando aqui. Charlotte chamou a atenção de Kate por seus pensamentos revolucionários e por viver uma vida pública em prol das mulheres ao invés de uma vida privada satisfatória. Ela viveu pelos outros. Ou pelas outras, melhor dizendo. Charlotte se apaixonou por uma amiga durante a sua juventude, Martha Luther, porém seu amor não foi correspondido da mesma forma. Depois que a amiga se casou, Charlotte permaneceu solteira por um período maior. Ainda em dúvida se o casamento era realmente algo para ela, Charlotte se casou com Charles Walter Stetson em 1884, aos 24 anos. No ano seguinte, eles tiveram sua única filha, e em 1888, Charlotte se separou do seu marido e se divorciaram formalmente em 1894. Foi um casamento de apenas quatro anos. Depois da separação, Charlotte tornou-se extremamente ativa em movimentos feministas e organizações reformistas. No ano de 1900, Charlotte se casou com o seu primo Houghton Gilman. Os dois ficaram juntos até 1922 e moraram em Nova York. O segundo casamento de Charlotte foi muito diferente do primeiro. Depois de todo o seu trabalho e viagens, ela se sentia preparada para se apaixonar de novo e para atender às demandas da vida à dois.


Eu gostei muito de conhecer melhor essas mulheres que inspiraram Kate Bolick. Juntamente com fatos contemporâneos sobre as mulheres solteiras hoje em dia e com as narrativas das vidas das suas cinco despertadoras, Kate escreveu sobre sua própria vida, experiências de trabalho e amorosas. Ela é muito divertida e me identifiquei com diversas situações pelas quais Kate passou, como a vontade de viver da escrita, mas não saber como, a primeira experiência de viver sozinha em uma cidade grande, o prazer de se sentar sozinha em uma poltrona confortável com uma xícara de chá e ler um bom livro, etc. Acho que em muitos quesitos, eu sou muito parecida com Kate, embora eu não me imagino solteira aos 45 anos. Mas... nunca se sabe, não é mesmo?

Achei muito legal a maneira como Kate termina o livro. Como prometido, ela desmistifica a palavra solteirona, utilizada pelas pessoas como algo negativo, para se referir uma mulher velha, louca e mal-amada. O que ela afirma é que "a questão que por muito tempo me impunha - ser casada ou ser solteira - é um binarismo falso. O lugar no qual sempre quis viver - na realidade, onde passei minha vida adulta - não fica entre esses dois pólo, mas além deles" (p. 301). Uma mulher não deve ser julgada ou caracterizada como solteira ou casada. Ser mulher vai muito além disso. A nova definição para o termo solteirona proposta por Bolick é a seguinte: "agarrar-se ao que a torna independente e autossuficiente" (p. 302), e isso vale tanto para mulheres solteiras como casadas:

Kate Bolick

- "Se você é solteira, seja porque nunca se casou, se divorciou ou ficou viúva, pode carregar a palavra solteirona como um talismã, um lembrete de que está em boa companhia" - você é a sua melhor companhia!

- "Se você estiver infeliz em um relacionamento, pode usar a palavra solteirona para invocar um tempo em que não estava e para se lembrar de que ficar sozinha é, muitas vezes, preferível a permanecer em um relacionamento ruim" - seja feliz, acima de tudo!

- "Para aquelas que estão em relacionamentos felizes, sobretudo as que equilibram trabalho e filhos, solteirona pode ser um código para se lembrarem de reservar um tempo para si mesmas" - não se esqueça do prazer da sua própria companhia!

Portanto, Solteirona não é um manifesto que orienta as mulheres a nunca se casarem. Pelo contrário, é um livro que nos faz lembrar da importância de sermos felizes acima de tudo, sozinhas ou em companhia, e do fundamental valor do direito de escolher a nossa própria vida!

Esse, sem dúvida alguma, se tornou um dos meus livros preferidos, e um lembrete a mim mesma para seguir meus sonhos e aproveitar as oportunidades que a vida nos apresenta, e as oportunidades que nós atraímos para nós mesmas.

Espero que vocês tenham gostado desse post e que se deixem inspirar por Solteirona, de Kate Bolick.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

"Jane Austen e o Natal", Carlo Devito

Olá, queridos leitores!

Chegamos ao mês de dezembro e nada melhor do que entrar no clima do Natal com o perfeito livro, né?
Um dos livros natalinos que escolhi ler neste ano foi o maravilhoso "A Jane Austen Christmas: Celebrating the Season of Romance, Ribbons & Mistletoe", ou "Jane Austen e o Natal: Celebrando a Temporada de Romance, Fitas e Ramos de Visco", do autor Carlo Devito. O livro é uma preciosidade só! Capa dura, uma jacket com um design lindíssimo em vermelho e preto e com a característica silhueta da Austen, ilustrações em preto e branco e um design interior bastante caprichado. Comprei esse livro no ano passado, mas esperei o mês de dezembro para lê-lo, justamente para entrar no clima de Natal dentro e fora das páginas.

Eu achei a premissa desse livro muito interessante porque Carlo Devito escreve sobre como o Natal era celebrado na época de Jane Austen, e sobre alguns Natais em especial na vida da grande escritora. O livro é divido em uma introdução, seis partes e um epílogo. Cada parte se refere a uma temporada de Natal específica: A primeira parte se refere a 1786, a segunda a 1794, a terceira a 1795, a quarta a 1802, a quinta a 1809, a sexta a 1815, e o epílogo aos últimos dias de vida de Jane.

Jane Austen
Jane Austen menciona os feriados de Natal em todos os seus romances. Ela mesma gostava muito das celebrações natalinas. Além disso, muitos eventos da sua vida pessoal se passaram nessa mesma época, a começar pelo seu nascimento! Jane nasceu em 16 de dezembro de 1775,  nove dias antes do Natal. Como Devito explica, na época de Jane, não se comemorava apenas o dia 25 de dezembro ou a véspera de Natal, mas praticamente o mês de dezembro todo - e, principalmente, os 12 dias de Natal, que compreendiam o período entre 25 de dezembro e o Dia de Reis, 6 de janeiro. Durante todo esse tempo, era comum as pessoas visitarem umas às outras, principalmente no campo. Por isso, sempre havia comida em abundância e opções de entretenimento de sobra durante todo o mês. Estavam todos preparados para o caso de alguém decidir fazer uma visita.

Vamos ver o que aconteceu de tão especial em cada um desses anos selecionados por Devito:

1786

Jane estava com 11 anos durante essa temporada de Natal. Seu pai, George Austen, era um pastor, e muito provavelmente era responsável pelo sermão do dia de Natal. Jane, sua mãe, sua irmã Cassandra e seus irmãos Henry, James, Francis, Edward, Charles e George enfrentariam a neve para ouvir as palavras do pai durante a celebração na paróquia.

Na época de Jane, ainda não havia o costume de ter uma árvore de Natal em casa. Porém, o pessoal decorava as casas com folhagens, ramos verdes e frutas como maçãs e laranjas, que davam um cheiro característico ao lugar. Também era costume buscar o maior tronco de árvore da redondeza e arrastá-lo com pompa e cerimônia para dentro da casa. O tronco, chamado de Yule log, queimaria e proveria fogo para todos os 12 dias de Natal. Esse ritual é derivado de uma tradição medieval nórdica, que simboliza luz e iluminação.

Tradição do Yule log


Eliza de Feuillide
Uma das presenças mais marcantes das festividades de Natal de 1786 para a jovem Jane foi a de sua prima Eliza de Feuillide. Ela era uma mulher extravagante para a época, nascida na Índia, mas morou também na França e Inglaterra. Ela se casou com o capitão francês Jean-François Capot de Feuillide, um conde. Por isso, ela se tornou uma condessa. Seu marido, leal à monarquia francesa, foi preso e guilhotinado durante a Revolução Francesa, o que a levou a retornar à Inglaterra. Em 1786, no entanto, Eliza ainda era casada com o conde, mas flertava abertamente com os irmãos de Jane, principalmente Henry e James, o que causou alvoroço na casa dos Austen. Anos depois, depois de viúva, Eliza viria a se casar com Henry. De qualquer modo, Eliza impressionou a jovem Jane, que a usou como modelo para algumas de suas personagens.


1794


No Natal de 1794, a Inglaterra estava em guerra com a República da França. Porém, por mais que a guerra afetasse a vida de Jane, já que alguns de seus irmãos participaram ativamente de batalhas, ela não faz referência aos conflitos em seus romances.

Escrivaninha portátil de Jane
Jane já estava com 19 anos e já havia iniciado sua jornada pelo universo literário. Ela escrevia desde criança - provavelmente desde os 11 ou 12 anos de idade. Seu pai encorajava a relação de Jane com as letras, e até mesmo deixava Jane ler o que quisesse da sua biblioteca (o Reverendo Austen administrava uma escola para meninos em sua casa, por isso contava com diversos livros de estudos à disposição) - o que era vedado à maioria das meninas da época de Jane. Para o seu aniversário de 19 anos, o pai de Jane lhe deu uma escrivaninha portátil de mogno, que hoje se encontra em exposição na British Library. Jane simplesmente amou o presente! E naquele mesmo ano, naquela escrivaninha, Jane começou a escrever seu primeiro romance, Lady Susan.




1795

A temporada natalina do ano seguinte foi especial para Jane, porque, aos 20 anos, ela teve sua primeira experiência amorosa. Jane havia ficado amiga da Sra. Lefroy, esposa do Reverendo Isaac Lefroy, uma família inglesa distinta. Jane era frequentemente convidada à casa dos Lefroy, que já haviam captado algo de especial na moça. 



Thomas Lefroy
Jane gostava muito de participar de bailes, um dos principais entretenimentos da Inglaterra Regencial. Durante o Natal de 1795, Jane foi a muitos bailes, se divertiu e dançou muito, e em um desses bailes conheceu Thomas Langlois Lefroy, sobrinho da Sra. Lefroy. O rapaz havia estudo Direito na Trinity College, na Irlanda, e agora trabalhava no Lincoln's Inn, em Londres. Os dois se deram bem imediatamente e se reencontraram em outros bailes durante a temporada. Porém, Jane sabia que Tom voltaria para Londres depois do último baile da estação. Em uma carta a sua irmã Cassandra, Jane parece esperar que Tom a peça em casamento durante a dança antes de voltar para a capital. No entanto, o baile tão esperado acaba se tornando um pesadelo para Jane. A família do rapaz, com medo que o jovem promissor se comprometesse com uma moça da classe média sem muito futuro, o convence a deixar o local na noite anterior. Jane nunca viu Tom novamente, mas o seu desapontamento amoroso serviu como uma nova motivação para se afundar na escrita novamente.

1802

Silhueta de Cassandra
Durante essa temporada, Jane e Cassandra passaram um tempo em Bath na casa de suas amigas, as irmãs Bigg. Jane já estava com quase 27 anos e sua irmã Cassandra, dois anos mais velha, já tinha 29. O noivo de Cassandra, Thomas Fowle, havia morrido de febre amarela durante uma expedição militar no Caribe em 1797. Depois desse incidente, Cassandra nunca mais se comprometeu com ninguém. Portanto, em 1802 as duas irmãs estavam beirando os 30 anos e permaneciam solteiras (fato que não mudou até o final das suas vidas). Para a época, uma mulher solteira nessa idade era inaceitável. As duas já eram consideradas spinsters, ou solteironas, e mal vistas na sociedade. 

Harris Bigg-Wither
Em 1802, o irmão mais novo das moças Bigg, Harris Bigg-Wither, estava presente. Ele havia mudado e crescido bastante desde que Jane e Cassandra o tinham visto pela última vez. Jane e Harris se deram muito bem, e no dia 2 de dezembro, Harris surpreendeu Jane com um pedido de casamento. No calor do momento, Jane aceitou, mas depois de uma noite de reflexão, ela resolveu voltar atrás e declinar o pedido de Haris na manhã seguinte. O rapaz se sentiu humilhado. Jane e Cassandra tiveram que deixar a casa dos Bigg-Wither antes da noite de Natal e a amizade com as irmãs de Harris também foi afetada pela reação de Jane.

Os casos amorosos de Jane com Thomas e Harris são retratados no filme Becoming Jane, ou Amor e Inocência no Brasil, de 2007 com Anne Hathaway no papel de Jane. Para quem ainda não assistiu esse filme, vou deixar o trailer aqui:



1809

Desde a morte do pai de Jane em 1805, Jane, Cassandra e sua mãe tiveram que se mudar para lugares menores e mudar drasticamente o seu estilo de vida. Naquela época, as mulheres não podiam herdar propriedade por lei, portanto as mulheres Austen se viram sem fonte de renda e sem um lugar para morar. Elas dependiam da ajuda dos seus irmãos, principalmente Henry.

Em Julho de 1809 as três mulheres se mudaram para Chawton, na casa onde hoje se encontra o museu Jane Austen. Jane adorava morar ali!

Casa onde Jane Austen morou em Chawton

Devido ao seu estilo de vida menos requintado, Jane, sua irmã e sua mãe recebiam menos convidados em casa. Portanto, o Natal de 1809 foi bem tranquilo. Jane aproveitou o tempo com a família e se dedicou à escrita. Na casa em Chawton ela revisou os manuscritos de Razão e Sensibilidade, publicado em 1811, e Orgulho e Preconceito, publicado em 1813.






1815

Durante o período de Natal de 1815, o último romance de Jane Austen publicado em vida foi lançado: Emma. Jane já havia se estabilizado como escritora e já recebia uma boa quantia por seus livros.

Rei George IV
(anteriormente, Príncipe Regente)

Em dezembro desse ano, Jane foi convidada pelo bibliotecário do Príncipe Regente George, mais tarde Rei George IV, a conhecer a biblioteca do Palácio Carlton House, a pedido do próprio príncipe, que era, aparentemente, fã dos romances de Jane. Jane, no entanto, não gostava do príncipe, pois não aprovava o seu comportamento: ele se vestia de maneira extravagante demais, era obeso mas não maneirava na comida ou na bebida, gastava muito dinheiro, e se relacionava com muitas mulheres. O príncipe pediu que o próximo livro de Jane, Emma, fosse dedicado a ele. A escritora não estava muito feliz com a ideia, mas ela logo descobriu que um pedido real é uma ordem.


Dedicatória ao príncipe regente George


Jane estava no auge da sua carreira literária. Uma carreira, no entanto, que estava fadada a ser breve.


Epílogo

Jane aos poucos percebeu que se sentia mais cansada do que o normal. Os médicos da época não conseguiram diagnosticar o problema de Jane, mas hoje acredita-se que ela tenha tido a doença de Addison. Quando Emma saiu em dezembro de 1815, Jane mal sabia que ela só veria mais um Natal. A escritora partiu em 18 de julho de 1817.

No início de 1817, Jane acreditava estar se sentindo melhor, mas percebeu uma piora em Abril, quando escreveu seu testamento. Três meses depois, ela faleceu.

Jane, incrível mulher e apaixonada pelo Natal, não pôde participar das festividades natalinas de 1817, nem de nenhum outro Natal subsequente. No entanto, ela ainda faz parte de nossas vidas através dos seus romances, que nos tocam duzentos anos depois. 

Jane deixou dois manuscritos não publicados depois de sua morte. Foi seu irmão Henry que insistiu em publicar A Abadia de Northanger e Persuasão, ambos em 1818. E, dessa vez, não de maneira anônima. Henry queria que o mundo inteiro soubesse que era sua irmã quem os tinha escrito e todos os romances anteriores (que haviam sido assinados by a lady).

Nessa noite de Natal, vamos pensar em Jane, em como ela adoraria estar em volta do fogo do Yule log, rodeada por familiares e amigos, pronta para um baile ou jogo de cartas, e no legado fantástico que ela nos deixou.