quarta-feira, 20 de novembro de 2019

"Viagem ao Centro da Terra", Júlio Verne

Olá, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar a minha mais recente leitura e que foi uma agradável surpresa: Viagem ao Centro da Terra, do francês Júlio Verne (1828-1905). Este livro estava na minha lista de leituras de clássicos para ler em 2019 e finalmente o tirei da estante! Fiquei muito feliz com a leitura e acredito que seja um dos meus favoritos do ano!


O livro começa de maneira muito atrativa, na minha opinião, principalmente pelo fato de um dos protagonistas ser um professor pesquisador e mineralogista, Prof. Otto Lidenbrock. Eu, professora, simplesmente amo histórias com professores, especialmente professores excêntricos como Lidenbrock! 


Prof. Otto Lidenbrock
"Era professor no Johannaeum e dava aulas de mineralogia, durante as quais se encolerizava regularmente uma ou duas vezes. Isso não quer dizer que ele se preocupasse em ter alunos assíduos às suas lições ou se importasse com o grau de atenção que lhe concediam em classe, nem mesmo com o êxito que pudessem obter em sua matéria. Tais pormenores não o preocupavam nem um pouco. Ele dava aulas 'subjetivamente', conforme expressão da filosofia alemã, para si e não para os outros. Era um sábio egoísta, um poço de ciência que não admitia que lhe tirassem nada. Numa palavra: um avarento" (p. 16)


O narrador é Axel, sobrinho do professor, que conta a história em primeira pessoa. Órfão, ele vive com o tio e o ajuda em seus experimentos e estudos. Os dois vivem em uma casa na Königstrasse em Hamburgo juntamente com Grauben, a afilhada do professor e de quem Axel está secretamente noivo, e a cozinheira Marta. 

A história se inicia no dia 24 de maio de 1863, um domingo, como afirma o primeiro parágrafo do livro. O que é muito interessante, dado que o livro foi publicado em novembro de 1864. Portanto, a expedição retratada no livro seria um evento recente para os leitores da época.

Neste dia, o professor chega em casa atipicamente cedo, deixando a cozinheira alarmada pelo fato de o jantar ainda não estar pronto. Porém, o professor está sem apetite: ele acaba de descobrir um pergaminho manuscrito rúnico islandês dentro de um livro raro e não vai sossegar, comer ou dormir até decifrar o seu conteúdo. Com a ajuda de Axel, eles identificam que o pergaminho foi escrito por Arne Saknussemm, um alquimista célebre islandês que viveu no século XVI - que, na verdade, é um personagem criado por Verne. Ao desvendarem os símbolos rúnicos, Axel e seu tio partem para a mais fantástica expedição de suas vidas: um viagem ao centro da Terra!




Animado com a sua descoberta, Prof. Lidenbrock acredita que pode seguir os passos do sábio Saknussemm e caminhar até o centro da Terra através de uma abertura no vulcão Sneffels. Sim, caminhar! Descendo por superfícies rochosos e íngremes, guiados pelo islandês Hans Bjelke.

É claro que se trata de uma jornada fantástica, mas é interessante imaginar o pensamento de Júlio Verne em 1863, quando a ciência ainda estava dando os seus primeiros passos. Não vou contar a vocês se eles atingem o seu objetivo, o que encontraram por lá ou pelo caminho, tampouco se ou como saíram! Vale a pena a leitura. É uma narrativa tão envolvente e com capítulos curtos que terminei o livro em menos de uma semana. Não via a hora de voltar para a casa para poder continuar a expedição nos subterrâneos da Terra.




Viagem ao Centro da Terra é um dos famosos livros de Verne, que contam viagem extraordinárias e que foram percursores da literatura de ficção científica. Seu primeiro livro publicado foi Cinco Semanas em um Balão (1863), que conta a travessia do continente africano de leste a oeste em um balão, seguido por O Capitão Hateras (1864), que fala de aventuras polares. Entre seus livros de expedições extraordinárias, destaca-se também Vinte Mil Léguas Submarinas (1869), em que Verne imagina um submarino elétrico.

Eu fiquei fascinada por Viagem ao Centro da Terra e já quero ler todos os livros de Júlio Verne!

Com relação às adaptações cinematográficas da obra, há um filme norte-americano de 1959 dirigido por Henry Levin, como James Mason como Prof. Otto Lidenbrock (1909-1984) e Pat Boone (1934-) como Axel. 



Mais recentemente, uma produção de Hollywood de 2008 dirigida por Eric Brevig traz Brendan Fraser e Josh Hutcherson no elenco. Esta é uma adaptação livre sobre um grupo de pessoas que acredita que as obras de Júlio Verne são, de fato, reais. 




Júlio Verne

Ainda não assisti a nenhuma das adaptações, mas pretendo em breve. E vocês, já assistiram aos filmes ou leram o clássico de Verne?


Espero que tenham gostado dessa resenha. Viagem ao Centro da Terra foi uma ótima surpresa literária para mim!


Uma ótimas semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

sábado, 9 de novembro de 2019

"Madame Bovary", Gustave Flaubert




Olá, queridos leitores.


Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura. Trata-se de um livro essencial da literatura mundial e que já estava na minha lista de leitura há anos: Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1821-1880).
Madame Bovary é considerado por muitos críticos o percursor do movimento realista na literatura, que se distancia da tradição romântica do século XVIII e início do XIX, afastando-se de idealizações amorosas, do subjetivismo e do foco no indivíduo para uma abordagem da vida como ela é, sem idealizações ou artificialidade, retratando as diferentes realidades de classes sociais distintas.


Madame Bovary nos apresenta a vida de Charles e Emma Bovary em uma região rural da Normandia. O romance é dividido em três partes e inicia com foco em Charles, um jovem estudante que se torna médico, mas sem muitas ambições na vida ou gostos refinados. Ele encontra Emma em uma de suas visitas médicas e os dois logo se casam. Emma se torna, então, a Madame Bovary. Ela, no entanto, logo percebe que se casou muito cedo e que a vida depois do casamento, assim como o seu noivo, não era nada do que ela imaginava ou esperava. Ela havia sido educada em um convento e se distraído lendo romances, que a levaram a sonhar com bailes em castelos longínquos, amores proibidos, príncipes encantados e paixões arrebatadoras.

Emma e Charles Bovary


A primeira parte do romance tem um ritmo mais lento e entediante, assim como a vida da própria Emma. Sua vida muda quando Charles é convidado para um baile no castelo de La Vaubyessard. Lá ela encontra viscondes, damas da alta sociedade, lindos trajes, bebidas e comidas exóticas, escuta conversas indiscretas, e aí percebe que aquele mundo sobre o qual ela lera em romances realmente existia. Mas, infelizmente, era um mundo do qual ela não fazia parte. Há um trecho muito interessante no livro sobre o impacto desse momento na vida de Emma:


"A sua viagem a La Vaubyessard abrira um abismo e sua vida, como essas fendas imensas que uma tempestade, em uma só noite, às vezes cava nas montanhas. Mas ela resignou-se; encerrou devotamente na cama o seu belo vestido e até mesmo os seus sapatos de cetim, com solas amarelecidas pela cera deslizante do assoalho. O seu coração era como eles: ao roçar da riqueza, ele colocara-se sobre algo que não se apagaria" (p. 82)




E, de fato, não se apagou. A partir daí, a vida de Emma é uma série de vazios que ela tenta, em vão, preencher. Na parte 2, Charles e Emma se mudam para Yonville para buscar novos ares que acalmassem os nervos de Emma. Ela estava grávida de sua primeira filha e Charles foi bem-recebido na pequena vila como o novo médico da região, o que agregava status ao nome Bovary. Nessa pacata existência, Emma encontra Léon Dupuis, em quem ela reconhece uma alma parecida com a sua, que se encanta por livros e pelo teatro. Um novo sentimento floresce nela, seguido de ardentes desejos que ela, até então, consegue controlar. 


Ezra Miller como Léon Dupuis
Seu autocontrole se desfaz, contudo, com os avanços de outro homem, Rodolphe, proprietário de terras e charme, que enfim rompe a barreira moralista de Emma e a inicia em uma vida de adultério e excessos. Há outro trecho muito interessante sobre essa nova fase de Emma:


"Mas, ao ver-se no espelho, ficou surpreendida com a própria face. Jamais tivera olhos tão grandes, tão negros, nem tão profundos. Algo sutil a expandir-se em seu ser a transfigurara.
Ela repetia-se: - 'Eu tenho um amante! Um amante!' -, deleitando-se com esta ideia como se uma nova puberdade lhe tivesse retornado. Então finalmente ela ia possuir essas alegrias do amor, a febre da felicidade da qual ela já desesperara. Entrava em algo maravilhoso onde tudo seria paixão, êxtase, delírio" (p. 201)


A segunda parte do livro tem um ritmo mais frenético, assim como a vida e o coração de Emma, em contraste com a letargia da primeira parte e da falta de vivacidade de Charles. Porém, aos poucos, Emma cai em um abismo sem volta, pecando em excesso de luxúria e luxo, contraindo-se de dívidas e segredos que atormentavam a sua vida.


Esse desespero é levado ao máximo na terceira e última parte do livro, na qual ela vive desapontamento atrás de desapontamento e se vê cada vez mais em uma existência insignificante, rumando a um beco sem saída:


"Não importa! Ela não era feliz, nunca o havia sido. Então de onde vinha essa insuficiência da vida, esse apodrecimento instantâneo das coisas em que se apoiava?" (p. 330)


Seu amante não lhe dava mais prazer, tampouco seu lar ou até mesmo sua filha. Desesperada ao ver a fortuna de Charles ser confiscada por sua culpa, ela acaba se voltando à única saída que lhe parecia possível, chegando ao desfecho trágico conhecido da obra.


Jennifer Jones como Emma Bovary
Emma é uma personagem extremamente intrigante: o leitor a odeia, a acha engraçada, mesquinha, boba, sente pena, sente compaixão... apenas um grande mestre da literatura conseguiria causar tamanhos sentimentos diversos.


Flaubert dizia que não havia nada de genialidade ou inspiração no ofício da literatura, apenas trabalho, trabalho e mais trabalho. Ele se considerava um artesão da escrita. Seus manuscritos eram escritos, reescritos, revisados... o que demonstra o seu cuidado na escolha de palavras e estrutura do seu texto.


Madame Bovary foi publicado em capítulos na Revue de Paris a partir de 1856. Porém, sua publicação foi interrompida devido a um processo judicial que julgava a trama ser imprópria. De fato, Madame Bovary escandalizou leitores quando da sua publicação por retratar tão abertamente um tema tão tabu na época como o adultério. Porém, Flaubert e os editores da obra conseguiram que ela fosse publicada em formato de livro em 1857. O escândalo ao redor da publicação do livro certamente criou mais curiosidade no público em geral, vindo a se tornar um grande sucesso e um dos clássicos da literatura mundial. 

Gustave Flaubert

Espero que tenham gostado desse post. Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda