segunda-feira, 13 de julho de 2015

"Miopia Progressiva", Clarice Lispector

Boa tarde, queridos leitores!

"Se era inteligente, não sabia. Ser ou não inteligente dependia da instabilidade dos outros". É assim que inicia o conto Miopia Progressiva, de Clarice Lispector. E não é verdade? Somos constantemente julgados se somos inteligentes ou não através da perspectiva do outro, que nos julga. E o que sabe essa pessoa que nos julga? Que direito ela tem de nos julgar? É algo para se pensar, não é?

O narrador deste conto é um garoto que ainda não descobriu a chave de sua inteligência devido à instabilidade dos outros à sua volta. Quando ele faz uma observação que é considerada inteligente, ao repeti-la em outro momento, ele espera que ela acarrete uma reação parecida, mas não é sempre assim. O que é considerado inteligente um dia, já não é mais em outro. Que lógica há nisso?

O personagem, então, decide aceitar a instabilidade das coisas e o fato de que nunca encontrará a chave da inteligência, pois ninguém a tem.

Eis que um dia o garoto é convidado para passar um dia inteiro na casa de uma prima casada e sem filhos. Ele percebe que, neste dia, ele pode fazer a prima julgá-lo da maneira que ele quiser, pois ela não o conhece ainda. Ele pode fazer uma observação inteligente e ser considerado um menino inteligente durante o resto do dia; pode se comportar bem e ser julgado como um garoto bem-comportado; ou pode se fazer de palhaço e se passar por um o dia inteiro. E o mais importante, a maneira como a prima o julgasse não mudaria em nada a sua natureza! Irônico, não?

Contudo, quando o garoto chega na casa da prima, ela percebe que nada acontece do jeito que ele havia imaginado. O amor que ela deveria lhe dar não é como ele havia pensado, a comida não é a mesma que ele visualizou em sua mente, a própria prima era diferente, ela tinha um dente de ouro do lado esquerdo, algo com que ele definitivamente não contara. E é neste momento que o personagem chega a uma epifania:

A jovem Clarice
"Nesse dia, pois, ele conheceu uma das raras formas de estabilidade: a estabilidade do desejo irrealizável. A estabilidade do ideal inatingível. Pela primeira vez, ele, que era um ser votado à moderação, pela primeira vez sentiu-se atraído pelo imoderado: atração pelo extremo impossível".

E finalmente abraçou o inesperado da vida, que a torna maravilhosa do jeito que é: cheia de possibilidades, liberdade e paixão!

Este é um de meus contos preferidos de Clarice Lispector. A conclusão que o narrador chega ao final do conto é uma que já me passou pela cabeça diversas vezes: não importa o quanto tentemos manipular ou controlar nossas vidas, não há nada que possamos fazer! A vida é mesmo incontrolável e é, por isso mesmo, tão emocionante! É o que nos faz ansiar viver e encontrar aquilo que nos espera ao cruzar a próxima esquina!

Neste conto, publicado no livro Felicidade Clandestina (1971), é visível a influência da vanguarda europeia modernista em Clarice, mesmo que a autora tenha negado ser uma escritora modernista. Clarice preferia não se enquadrar em nenhuma corrente literária específica, mas, sim, escrever conforme sua imaginação a levava. Mas percebo neste conto uma epifania à la James Joyce, que deixa o leitor, mesmo finalizando a leitura, imerso em reflexão.

Clarice Lispector (1920-1977) nasceu na Ucrânia, mas naturalizou-se brasileira. Ela é considerada uma das escritoras mais importantes do cenário literário brasileiro de meados do século XX, escreveu contos, crônicas e ensaios. Clarice escrevia sobre cenas do cotidiano, que levavam personagens a refletir sobre sua própria existência. Uma grande escritora que levou nossa literatura brasileira a outro patamar.

Clarice Lispector

Um forte abraço e a todos e espero que se encantem com a escrita de Clarice Lispector!

Fernanda

10 comentários:

  1. Oi, Fernanda... tudo bem?
    Eu li poucas coisas da Clarice ao longo da vida, e infelizmente o conto em questão não está nessa lista. No entanto, fiquei super interessada nele por conta das divagações do menino e como as coisas foram se revelando. Eu acho super interessante como a autora sempre nos surpreende, e eu não fazia ideia de que ela não gostava de ser "rotulada" por conta de suas escritas. Se não me engano, eu tenho 'Felicidade Clandestina' em algum canto em casa, vou procurar e ler esse conto.

    Beijos,
    www.procurei-em-sonhos.com

    ResponderExcluir
  2. Ola Fe acredita que ainda não li nada completa da Clarice, exceto algumas frases que já amo, preciso ler e esse conto que chamou muito atenção, e realmente a vida é uma caixa de surpresas e muitas vezes não podemos controlar. beijos

    Joyce
    www.livrosencantos.com

    ResponderExcluir
  3. Oi Fernanda, tudo bem?

    Eu nunca cheguei a ler um livro da Clarice, exceto algumas frases. Porém eu gostei muito da premissa desse livro, principalmente por trazer temas importantes. As pessoas sempre querem nos julgar e isso é uma coisa que temos que lidar, mas não concordo com isso e que somos nós para julgar alguém, não é mesmo? Adorei a premissa do livro.
    Parabéns pela resenha.

    Beijos
    Leitora sempre

    ResponderExcluir
  4. Oi Fernanda, tudo bem?
    Conheço Clarice através de pequenos trechos e resenhas que leio pela internet. Nunca li uma obra completa da autora, até tentei, mas não fluiu.
    No entanto esse conto além de ter um proposta interessante ainda traz uma boa reflexão, pode ser que eu tente.

    Beijos.
    Leituras da Paty

    ResponderExcluir
  5. Olá...
    Eu curto muito a escrita da Clarice... ela é uma mulher bem a frente do seu tempo, com uma escrita leve e as vezes pesada... nunca li um livro dela inteiro, mas já li muitas passagens... e alguns textos e curti todos... adorei a premissa desse conto e fiquei encantada por ele, vou procurar.... Xero!

    ResponderExcluir
  6. Oi Fê, confesso que eu ainda não li nada da autora, mas não me falta vontade pq todo mundo fala super bem.
    Cara pela sua resenha o conto é bem no estilo de coisas que eu gosto. Vou ver se crio vergonha na cara e leio logo um livro dela.
    Tenho certeza que vou gostar.

    ResponderExcluir
  7. Olá Fernanda, eu não conhecia esse conto da autora, mas parece ser bem legal, eu só li um livro dela na época do ensino fundamental, mas lembro que gostei bastante e se tiver chance vou tentar ler essa antologia de contos dela *--*

    Visite "Meu Mundo, Meu Estilo"

    ResponderExcluir
  8. Oi Fer,

    Amo a Clarice por ter sido uma pessoa mega a frente do seu tempo! Ah! Como não amar esta sua escrita, Fer? “A vida é mesmo incontrolável e é, por isso mesmo, tão emocionante! É o que nos faz ansiar viver e encontrar aquilo que nos espera ao cruzar a próxima esquina!” Simplesmente apaixonante e verdadeira reflexão a ser feita.
    Amo esta vida cheia de incertezas e que nos dá possibilidades em cada passo em cada esquina a dobrar, em cada cruzamento a atravessar.
    Parabéns por sua escrita, Fer!

    Beijos
    Tânia Bueno
    www.facesdaleitura.com.br

    ResponderExcluir
  9. Olá Fernanda,
    eu sempre li em outros livros que mencionavam a escritora, ate mesmo trechos de suas escritas pela net, mas nunca li um conto ou livro que ela tenha escrito. Agora lendo sua visão sobre este conto, confesso que, se antes eu gostava do que ela escrevia, agora admiro seu trabalho e necessito muito conhecer sua escrita.
    Parabéns, amei o post e vou agora procurar os trabalhos da autora.

    Beijos Ana Zuky

    ResponderExcluir
  10. Oi Fernanda, tudo bem?
    Sempre encontro dicas maravilhosas quando visito seu cantinho e tenho que dizer que essa foi umas das melhores. Realmente acho que ninguém tem o direito de julgar ninguém, mas durante o conto percebe-se que o menino descobre uma visão diferente das coisas né? Adorei o post.

    Bjs, Glaucia.
    www.maisquelivros.com

    ResponderExcluir