sábado, 9 de novembro de 2019

"Madame Bovary", Gustave Flaubert




Olá, queridos leitores.


Hoje venho compartilhar com vocês a minha mais recente leitura. Trata-se de um livro essencial da literatura mundial e que já estava na minha lista de leitura há anos: Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1821-1880).
Madame Bovary é considerado por muitos críticos o percursor do movimento realista na literatura, que se distancia da tradição romântica do século XVIII e início do XIX, afastando-se de idealizações amorosas, do subjetivismo e do foco no indivíduo para uma abordagem da vida como ela é, sem idealizações ou artificialidade, retratando as diferentes realidades de classes sociais distintas.


Madame Bovary nos apresenta a vida de Charles e Emma Bovary em uma região rural da Normandia. O romance é dividido em três partes e inicia com foco em Charles, um jovem estudante que se torna médico, mas sem muitas ambições na vida ou gostos refinados. Ele encontra Emma em uma de suas visitas médicas e os dois logo se casam. Emma se torna, então, a Madame Bovary. Ela, no entanto, logo percebe que se casou muito cedo e que a vida depois do casamento, assim como o seu noivo, não era nada do que ela imaginava ou esperava. Ela havia sido educada em um convento e se distraído lendo romances, que a levaram a sonhar com bailes em castelos longínquos, amores proibidos, príncipes encantados e paixões arrebatadoras.

Emma e Charles Bovary


A primeira parte do romance tem um ritmo mais lento e entediante, assim como a vida da própria Emma. Sua vida muda quando Charles é convidado para um baile no castelo de La Vaubyessard. Lá ela encontra viscondes, damas da alta sociedade, lindos trajes, bebidas e comidas exóticas, escuta conversas indiscretas, e aí percebe que aquele mundo sobre o qual ela lera em romances realmente existia. Mas, infelizmente, era um mundo do qual ela não fazia parte. Há um trecho muito interessante no livro sobre o impacto desse momento na vida de Emma:


"A sua viagem a La Vaubyessard abrira um abismo e sua vida, como essas fendas imensas que uma tempestade, em uma só noite, às vezes cava nas montanhas. Mas ela resignou-se; encerrou devotamente na cama o seu belo vestido e até mesmo os seus sapatos de cetim, com solas amarelecidas pela cera deslizante do assoalho. O seu coração era como eles: ao roçar da riqueza, ele colocara-se sobre algo que não se apagaria" (p. 82)




E, de fato, não se apagou. A partir daí, a vida de Emma é uma série de vazios que ela tenta, em vão, preencher. Na parte 2, Charles e Emma se mudam para Yonville para buscar novos ares que acalmassem os nervos de Emma. Ela estava grávida de sua primeira filha e Charles foi bem-recebido na pequena vila como o novo médico da região, o que agregava status ao nome Bovary. Nessa pacata existência, Emma encontra Léon Dupuis, em quem ela reconhece uma alma parecida com a sua, que se encanta por livros e pelo teatro. Um novo sentimento floresce nela, seguido de ardentes desejos que ela, até então, consegue controlar. 


Ezra Miller como Léon Dupuis
Seu autocontrole se desfaz, contudo, com os avanços de outro homem, Rodolphe, proprietário de terras e charme, que enfim rompe a barreira moralista de Emma e a inicia em uma vida de adultério e excessos. Há outro trecho muito interessante sobre essa nova fase de Emma:


"Mas, ao ver-se no espelho, ficou surpreendida com a própria face. Jamais tivera olhos tão grandes, tão negros, nem tão profundos. Algo sutil a expandir-se em seu ser a transfigurara.
Ela repetia-se: - 'Eu tenho um amante! Um amante!' -, deleitando-se com esta ideia como se uma nova puberdade lhe tivesse retornado. Então finalmente ela ia possuir essas alegrias do amor, a febre da felicidade da qual ela já desesperara. Entrava em algo maravilhoso onde tudo seria paixão, êxtase, delírio" (p. 201)


A segunda parte do livro tem um ritmo mais frenético, assim como a vida e o coração de Emma, em contraste com a letargia da primeira parte e da falta de vivacidade de Charles. Porém, aos poucos, Emma cai em um abismo sem volta, pecando em excesso de luxúria e luxo, contraindo-se de dívidas e segredos que atormentavam a sua vida.


Esse desespero é levado ao máximo na terceira e última parte do livro, na qual ela vive desapontamento atrás de desapontamento e se vê cada vez mais em uma existência insignificante, rumando a um beco sem saída:


"Não importa! Ela não era feliz, nunca o havia sido. Então de onde vinha essa insuficiência da vida, esse apodrecimento instantâneo das coisas em que se apoiava?" (p. 330)


Seu amante não lhe dava mais prazer, tampouco seu lar ou até mesmo sua filha. Desesperada ao ver a fortuna de Charles ser confiscada por sua culpa, ela acaba se voltando à única saída que lhe parecia possível, chegando ao desfecho trágico conhecido da obra.


Jennifer Jones como Emma Bovary
Emma é uma personagem extremamente intrigante: o leitor a odeia, a acha engraçada, mesquinha, boba, sente pena, sente compaixão... apenas um grande mestre da literatura conseguiria causar tamanhos sentimentos diversos.


Flaubert dizia que não havia nada de genialidade ou inspiração no ofício da literatura, apenas trabalho, trabalho e mais trabalho. Ele se considerava um artesão da escrita. Seus manuscritos eram escritos, reescritos, revisados... o que demonstra o seu cuidado na escolha de palavras e estrutura do seu texto.


Madame Bovary foi publicado em capítulos na Revue de Paris a partir de 1856. Porém, sua publicação foi interrompida devido a um processo judicial que julgava a trama ser imprópria. De fato, Madame Bovary escandalizou leitores quando da sua publicação por retratar tão abertamente um tema tão tabu na época como o adultério. Porém, Flaubert e os editores da obra conseguiram que ela fosse publicada em formato de livro em 1857. O escândalo ao redor da publicação do livro certamente criou mais curiosidade no público em geral, vindo a se tornar um grande sucesso e um dos clássicos da literatura mundial. 

Gustave Flaubert

Espero que tenham gostado desse post. Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

terça-feira, 8 de outubro de 2019

"O Chamado do Cuco", Robert Galbraith

Bom dia, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar com vocês minhas impressões sobre um livro que já estava na minha lista de leituras há um bom tempo e estava, inclusive, na minha lista de livros para ler em 2019. Trata-se de O Chamado do Cuco, primeira incursão da autora britânica J. K. Rowling no universo da literatura policial sob o pseudônimo de Robert Galbraith.

Esse livro gerou bastante burburinho quando foi lançado em 2013. A identidade da autora era para ser mantida em segredo, mas acabou vazando, levando os fãs de Harry Potter a correrem para as livrarias para buscar seu exemplar de O Chamado do Cuco. Eu confesso que comprei esse livro em inglês na pré-venda e, imaginem só, li só agora, seis anos depois!

Como fã do trabalho da J. K. Rowling na série Harry Potter e amante de literatura policial, eu tinha grandes expectativas para esse livro. Porém, admito que a leitura se arrastou e nenhum personagem captou meu interesse, tampouco o crime que o detetive protagonista estava investigando. Na verdade, a assistente Robin é a personagem de quem mais gostei, mas ela, infelizmente, não foi muito bem explorada na trama.



J. K. Rowling
A história se passa na Londres contemporânea no universo de top models e rappers famosos em oposição às pessoas normais do seu entorno, como familiares, vizinhos, motoristas e colegas de clínica de reabilitação. O primeiro capítulo começa com a estranha morte de Lula Landry, uma linda modelo no auge de sua carreira. Ao que tudo indica, ela cometeu suicídio, jogando-se da varanda do seu apartamento em uma madrugada gelada de inverno. No entanto, o seu irmão adotivo John Bristow (Lula havia sido adotada pela família Bristow ainda criança depois que o irmão caçula de John morrera em um acidente na infância) não acredita que tenha sido suicídio e contrata o detetive particular Cormoran Strike para investigar o caso.



Robin e Cormoran na série da BBC
Cormoran é um sujeito grande, um tanto rude, que perdeu uma de suas pernas durante a guerra no Afeganistão e que acaba de terminar o relacionamento com a sua linda namorada. Ele sai do seu apartamento e, como não tem meios para hospedar-se em um hotel ou para arcar com o aluguel de outro apartamento, decide dormir no seu próprio escritório até se restabelecer. Ele contrata uma assistente temporária, Robin, que descobre ser apaixonada por investigações policiais e se transforma em uma grande ajuda para Cormoran.

Eu gostaria que ela tivesse tido um papel maior em O Chamado do Cuco. Quem sabe o seu personagem terá mais espaço nos livros subsequentes da série. O segundo volume se chama O Bicho-da-Seda, lançado no Brasil em 2014; o terceiro é Vocação para o Mal, lançado no Brasil em 2016; e o quarto se chama Branco Letal, lançado no Brasil em maio de 2019.

Eu achei os métodos investigativos de Cormoran Strike um tanto confusos e o autor não compartilha os questionamentos que se passam dentro da cabeça do detetive. Tudo se esclarece no final do livro, quando Cormoran explica a sua linha de raciocínio para chegar no nome do assassino, que, contudo, não parece muito convincente.




De qualquer maneira, acredito que lerei o segundo volume da série, mas não em breve. Os dois primeiros livros foram adaptados para uma minissérie da BBC intitulada Strike, que foi ao ar em 2017. Tom Burke interpreta Cormoran Strike e Holly Grainger a sua assistente Robin. Ao que tudo indica, a minissérie contará com mais uma temporada baseada nos livros 3 e 4 da série.

Espero que tenham gostado das minhas impressões sobre O Chamado do Cuco.
Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

domingo, 18 de agosto de 2019

"Elizabeth I - O Anoitecer de um Reinado", Margaret George

Bom dia, queridos leitores!



Hoje venho compartilhar com vocês a minha última leitura, Elizabeth I - O Anoitecer de um Reinado, um calhamaço de 792 páginas escrito pela autora norte-americana Margaret George (1943-), que é especialista na escrita de biografia histórias e ficção histórica. Seu trabalho inclui muita pesquisa e ela já escreveu sobre diversas personagens femininas marcantes, como Cleópatra, Maria Madalena, Helena de Tróia e, nesse livro, a rainha Elizabeth I.

O Anoitecer de um Reinado foi publicado pela primeira vez em 2011 e a tradução que eu tenho, feita por Lara Freitas e publicada pela Editora geração, foi publicada em 2012. O projeto gráfico é bem legal e a capa ficou muito bonita, porém a tradução deixou muito a desejar, além de diversos erros de digitação e repetição de palavras. Enfim, acredito que a leitura teria sido mais proveitosa se feita no idioma original!

Esse livro nos transporta para a Inglaterra do final do século XVI durante as últimas décadas do reinado e vida de Elizabeth I (1533-1603). Mais especificamente, ele inicia em 1588, período em que a Inglaterra protestante anglicana - o pai de Elizabeth, Henrique VIII havia criado a Igreja da Inglaterra e se desvinculado da Igreja católica e do poder papal em Roma - estava em guerra com a Espanha católica. Em 1569, o Papa Pio V promulgou uma bula de excomunhão da Rainha Elizabeth. Qualquer nação que apoiasse a Inglaterra estaria contra a Igreja. Em 1588, a Espanha, incitada pelo Papa Sisto V e comandada por Filipe II da Espanha, enviou a chamada Invencível Armada contra a Inglaterra. A Armada trazia cópias da bula de excomunhão de Elizabeth para serem distribuídas por onde passassem. É neste momento que se inicia o romance de Margaret George - o primeiro grande desafio do reinado de Elizabeth.

Lettice e, ao fundo, Robert Dudley e Elizabeth I

A partir daí, o romance é divido em dois pontos de vista: o da própria rainha, escrito em primeira pessoa, que reflete sobre suas ações, pensamento e sua devoção ao bem-estar da Inglaterra; e o de Lettice Devereux, sobrinha-neta de Ana Bolena e, portanto, parente de Elizabeth. Ela foi condessa de Essex devido ao seu primeiro casamento com Walter Devereux, 1o. conde de Essex, e mãe de Robert Essex, 2o. conde de Essex - quem teve um grande papel na história do reinado de Elizabeth e neste livro. O segundo casamento de Lettice foi com Robert Dudley, conde de Leicester, que lhe rendeu o título de condessa de Leicester. Dudley, ao que tudo indica, foi o grande amor da vida de Elizabeth I. Pelo fato de Lettice ter se casado com ele, as duas mulheres tornaram-se inimigas. Por fim, em seu último casamento, depois de tornar-se viúva duas vezes, Lettice se casou com o militar Christopher Blount.


Portanto, o leitor acompanha os acontecimentos da Inglaterra no final do século XVI e início do XVII através dos olhos dessas duas mulheres, que dizem que eram até parecidas fisicamente. Acompanhamos a vitória da Inglaterra contra a Armada Espanhola em 1588 e em outras tentativas fracassadas da Espanha em conquistar a Inglaterra; acompanhamos Elizabeth em suas consultas ao astrólogo John Dee sobre o seu futuro e o futuro do reino; as tentativas de controlar as terras e os rebeldes na Irlanda; as estratégias de governo da rainha e sua decisão em manter-se virgem e solteira para permanecer em controle absoluto do trono; e o seu relacionamento com o 2o. conde de Essex, filho de Lettice, que tornou um de seus favoritos. Porém, levado pela ambição, Essex foi condenado à morte após uma tentativa de conspiração contra a Sua Majestade em 1601, evento que ficou conhecido como o Levante de Essex.


A "Invencível" Armada




Robert Devereux, 2o. conde de Essex
Do outro ponto de vista, acompanhamos a sedutora Lettice Devereux - nascida Lettice Knollys - e seus diversos amantes, inclusive o dramaturgo William Shakespeare. Para mim, este foi um fato novo. É sabido que Shakespeare deixou sua esposa Anne Hathaway em Stratford-upon-Avon e se envolveu com outras mulheres durante sua estadia em Londres, porém acredito que não há provas do seu envolvimento com Lettice. É claro que as pessoas não mantinham registro de seus casos amorosos fora do casamento, então tudo não passa de especulações.  Também acompanhamos a estreia da peça Ricardo II, de Shakespeare, que levou ao palco a história do rei deposto por seu primo, Henry Bolingbroke - o futuro Henrique IV, e como tal peça foi escolhida pelos seguidores de Essex em 1601como um lembrete à população de que príncipes reais também caem. E o sofrimento de Lettice ao perder seu filho, Robert, por conta da sentença da rainha.

Ao final do livro, as duas mulheres - da mesma família mas separadas por quase suas vidas inteiras devido a desavenças amorosas - finalmente se reencontram. Então fica clara a escolha da autora em contrapor os pontos de vista dessas duas mulheres que se entrelaçam no final.

Margaret George

Esta não foi uma leitura fácil, pelo contrário, ela se arrastou por mais de três meses. Margaret George foi muito prolixa nessa obra, acredito que uma versão mais enxuta desse livro seria mais bem-sucedida. Porém, me alegro de ter terminado essa leitura, pois aprendi muito sobre a história da Inglaterra nesse período e sobre as últimas décadas do reinado de Elizabeth I, e me pegava pensando em como teria sido ser essa mulher e como ela teve que fazer escolhas difíceis, colocando o bem do seu reino sobre os seus sentimentos. Definitivamente, um saldo positivo.

Espero que tenham gostado de saber mais sobre essa obra grandiosa de Margaret George.


Um ótimo domingo a todos e ótimas leituras!

Fernanda

quarta-feira, 3 de julho de 2019

"Um crime na Holanda", Georges Simenon

Boa noite, queridos leitores!


Hoje venho compartilhar com vocês as minhas impressões sobre minha última leitura, o romance policial Um Crime na Holanda, do escritor belga Georges Simenon (1903-1989). Esta é a sétima aventura do comissário Maigret, personagem mais célebre do autor belga, personagem que me lembrou muito o famoso inspetor Hercule Poirot da rainha do crime Agatha Christie (1890-1976).

Eu me deparei com esse livro em uma livraria em Florianópolis. Como estou em período de leitura de um livro longo com mais de 700 páginas, vi nessa narrativa policial de menos de 140 páginas uma maneira de inserir uma leitura diferente e recuperar meu fôlego literário para voltar ao meu calhamaço. Além disso, ao saber que a história se passa na Holanda, país muito querido por mim e onde morei por um ano, não tive dúvidas e comecei a ler Um Crime na Holanda ali mesmo!

Esse romance de Simenon publicado pela primeira vez em 1931 - onze anos depois da primeira aparição do detetive de Agatha Christie, diga-se de passagem - nos leva a Delfzijl, um vilarejo portuário no nordeste da Holanda, próximo da cidade de Groningen. Nessa pacata região, um professor francês é convidado para dar uma palestra sobre criminologia. Ele se hospeda na casa do casal Popinga, onde houve uma festa para receber o renomado acadêmico. No dia seguinte, porém, o corpo do Sr. Popinga é encontrado sem vida. A polícia de Groningen é chamada, assim como o francês comissário Maigret, pois o professor de mesma nacionalidade se torna o principal suspeito do homicídio.

Maigret interpretado por Michael Gambon 
na série televisa de 1992
Com seu calculismo e raciocínio lógico, Maigret questiona todos os envolvidos, aos poucos percebe o lado obscuro do vilarejo escondido sob a fachada pacata e perfeita, e surpreende a polícia holandesa ao descobrir o verdadeiro culpado por trás desse crime premeditado.

"A calma continuava a imperar na atmosfera. Uma calma serena, quase plena demais. Uma calma capaz de convencer um francês de que toda aquela vida era tão artificial quanto um cartão-postal" (p. 68-69)

Eu gostei muito de acompanhar o método de Maigret - apesar de ele apresentar certos argumentos machistas, mas devemos lembrar que ele é um homem do início do século XX -, principalmente da re-encenação da noite do crime, que leva ao ápice da narrativa: a solução do grande mistério.

Georges Simenon

Eu gosto muito de narrativas policiais e fazia tempo que eu não me dava esse prazer de ler uma, ainda mais quando bem escrita como as de Simenon. Estou curiosa para ler as outras aventuras de Maigret e devo ler em seguida a sua primeira história, Pietr, o letão, também de 1931. A coleção Comissário Maigret foi publicada em português pela Companhia das Letras.

Então é isso, pessoal! Espero que tenham gostado dessa sugestão de livro, especialmente se você é fã de uma boa história policial.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda


sábado, 20 de abril de 2019

"O Juramento do Rei", Jean Plaidy

Olá, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar com vocês minha mais recente leitura: o novo volume da saga Plantageneta, O Juramento do Rei, de Jean Plaidy, pseudônimo da escritora inglesa Eleanor Hibbert (1906-1993).

Eu já estou lendo essa série sobre uma das principais dinastias de governantes da Inglaterra há alguns anos. A série inteira tem quatorze volumes e acompanha a história desde Henrique II (1133-1189) até Henrique VI (1421-1471), e é muito bem escrita por Jean Plaidy, que entrelaça fato e ficção, dando vida e personalidade a figuras históricas. O passo do livro é muito rápido, muita coisa acontece em poucas páginas, mas, assim que você se acostuma com o ritmo, a leitura flui muito bem e aprendemos muito sobre a história da monarquia inglesa.

Eduardo III
Neste nono volume, acompanhamos o jovem Eduardo III (1312-1377), coroado rei aos 14 anos em 1327 após a deposição forçada e misteriosa morte de seu pai, Eduardo II. Eduardo II (1284-1327) foi o protagonista do oitavo volume da saga, As Loucuras do Rei. Se você tiver mais interesse sobre esse monarca ou período, acesse a resenha do livro clicando aqui.

Na verdade, quem planejou a morte e arquitetou a deposição de Eduardo II foi sua própria esposa, a Rainha Isabel, cansada de ser ignorada por seu marido e trocada por amantes homens, e seu amante, Roger Mortimer. Com a morte do rei e com o jovem Eduardo III no trono, o casal achou que poderia reinar através do menino. Porém, Eduardo logo provou ser muito mais do que um ingênuo rapaz e liderou um golpe contra Mortimer, que levou a sua execução, e tornou sua mãe Isabela prisioneira de luxo em um dos castelos.

Filipa de Hainault
Eduardo cresce e se torna um monarca muito diferente de seu pai. Ele se destaca em batalhas e estratégias militares e conquista diversos territórios franceses. Em uma visita ao Condado de Hainault, ele conhece uma das filhas do condo, Filipa de Hainault, por quem se apaixona. O amor é mútuo, mas os dois precisam esperar e só mais tarde se casam. Os dois se amam muito, o que é difícil entre casamentos reais arranjados, e têm juntos 12 filhos. Eduardo permanece fiel a Filipa até os anos finais de sua esposa, quando ela já estava muito enferma e acima do peso.

Em meados do reinado de Eduardo, o conde Robert d'Artois foge da França e se asila na corte inglesa. Ele instiga o rei Eduardo a tomar o que é seu por direito - a coroa da França, à qual Eduardo teria direito por conta de sua mãe, Isabela, que era filha do rei Felipe IV da França. O filho homem de Isabela teria direito ao trono quando o rei francês Carlos IV morreu sem deixar descendentes. Instigado por d'Artois, que levou ao rei inglês uma garça assada como símbolo da passividade de Eduardo, humilhando-o em frente a sua corte, o rei faz um voto - que dá título ao livro - de que irá tomar em armas contra a França para conquistar a sua coroa, dando início a um longo período de hostilidade entre França e Inglaterra, a chamada Guerra dos Cem Anos.

O filho mais velho de Eduardo, o Príncipe Eduardo, conhecido como o Príncipe Negro devido à armadura preta que utilizava em batalha, prometia ser um grande herdeiro ao trono - leal, destemido e grande guerreiro. Porém, após seu casamento com Joan de Kent e o nascimento de dois filhos, Eduardo adoece repentinamente e morre, deixando o rei desesperado.

Edward, o Príncipe Negro

A essa altura, a rainha Filipa já havia morrido e Eduardo III vivia abertamente com a amante Alice Perrers, causando desgosto entre o povo, que antes o idolatrava. Eduardo já está velho e também adoece, deixando esse mundo logo após seu adorado filho.

Alice Perrers no leito de morte de Eduardo III

Como o primeiro filho do Príncipe Negro também morreu, é o jovem Ricardo que se torna o sucessor do trono e protagonista do próximo livro da saga, Passagem para Pontefract, que eu já estou louca para ler!

Então é isso, pessoal! Espero que tenham gostado dessa dica de romance histórico.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda









terça-feira, 5 de março de 2019

"A Febre das Tulipas", Deborah Moggach

Boa noite, queridos leitores!

Hoje venho compartilhar com vocês o livro que devorei nessa terça-feira de carnaval, não consegui largar a leitura e terminei hoje mesmo! Trata-se de A Febre das Tulipas, ou Tulip Fever (1999) no original, da escritora inglesa Deborah Noggach (1948-). Eu já tenho esse livro há um certo tempo e, como iria viajar nesse feriado, resolvi escolher um livro leve (literalmente, ele é um paperback!) e instigante. Acabei tirando-o da estante e estou muito feliz de o ter feito.

O pano de fundo desse romance é a Amsterdam do século XVII, em plena Era de Ouro holandesa, quando as cidades e seus habitantes cresciam e prosperavam com transações mercantis que atravessavam oceanos, pinturas dos grandes mestres que fervilhavam o mercado de arte e, também, uma especulação financeira em torno de uma espécie de flor que havia chegado recentemente na Europa e que encantou os holandeses: a tulipa. Comerciantes passaram a comprar e vender bulbos de tulipa a preços exorbitantes durante a chamada Febre da Tulipa em meados de 1630, que é quando a nossa história se desenrola. Mal sabiam eles, quase quatrocentos anos atrás, que a tulipa seria até hoje o símbolo da cultura holandesa!



A Febre das Tulipas é contado através de várias perspectivas. Cada capítulo se inicia com o nome do personagem cujo ponto de vista o leitor acompanha. Todos eles são em terceira pessoa, com exceção de Sophia, a protagonista da trama, que nos conta sua história em primeira pessoa. De fato, é ela quem inicia o primeiro capítulo do romance. Nós descobrimos que Sophia é uma jovem esposa, casada muito nova com o mais velho e viúvo Cornelis Sandvoort. Sophia havia se tornado órfã e, para ajudar financeiramente as suas irmãs, consente se casar com o velho e rico mercador que, sem filhos, coloca todas as suas esperanças de um herdeiro em Sophia.


Certo dia, Cornelis convida à sua casa o jovem pintor Jan van Loos, que realmente existiu e foi um dos nomes da efervescência artística em Amsterdam no período, para pintar o retrato seu e de sua esposa para eternizar as suas existências em uma tela. Ao se olharem, Jan e Sophia se apaixonam perdidamente e acabam iniciando uma aventura amorosa.

Portrait of a Married Couple, de Pieter Codde (1634)
Enquanto isso, Maria, a criada de Sophia, é abandonada por seu amante Willem que havia prometido se casar com ela. Ao surpreendê-la tarde da noite, ele a vê escapar da casa dos seus patrões para se encontrar e beijar o pintor Jan. O que Willem não sabia é que a mulher era, na verdade, a Senhora Sophia, vestida com as roupas da empregada para não ser reconhecida nas ruas. Desolado, ele se alista na marinha e embarca em um navio para enfrentar os espanhóis sem dizer adeus à sua amada e sem saber que ela esperava um filho seu.

E é aí que a trama se desenrola e as vidas de Sophia e Maria vão se entrelaçar de uma maneira que elas nunca imaginaram, tudo por conta do amor.

Não vou contar para vocês qual é o desfecho dessa história, mas vocês já sabem que eu não consegui largar o livro o dia inteiro de curiosidade em saber como as vidas de todos os personagens iriam caminhar. Foi uma leitura muito prazerosa e dinâmica, que mistura romance e fatos históricos, o que me agrada muito! Além disso, a minha edição em inglês da Vintage Books traz ilustrações coloridas de algumas telas de pintores holandeses do século XVII, muito legal!

Poster do filme

E a cereja do bolo é que descobri hoje mesmo que esse livro foi adaptado para o cinema em 2017 com o título Amor e Tulipas em português! Apesar de ter recebido muitas críticas negativas, eu estou animada para assistir ao filme depois de minha experiência positiva com o livro. Dane DeHaan é o pintor Jan, Alicia Vikander é Sophia, Christoph Waltz é Cornelis e Holliday Grainger como Maria, além de Judi Dench, que também faz parte do elenco.


Aqui está o trailer do filme:



A autora de A Febre das Tulipas é Deborah Moggach, escritora e roteirista, que também escreveu O Exótico Hotel Marigold (2004), que virou filme em 2012 com grande elenco. Moggach tem atualmente 70 anos e continua produzindo!

Deborah Moggach

Espero que tenham gostado dessa deliciosa dica de leitura. Um ótimo finzinho de carnaval a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

"Minha Prima Rachel", Daphne du Maurier

Olá, queridos leitores!

Daphne du Maurie

Hoje venho compartilhar com vocês uma leitura que ainda está bem fresquinha na minha memória, terminei de ler Minha Prima Rachel, ou My Cousin Rachel no original, da autora britânica Daphne du Maurier (1907-1989), alguns minutos atrás! Já tinha vontade de ler esse romance da autora desde que li dois contos dela: "Os Pássaros", de 1952, que foi base para o fantástico filme do Alfred Hitchcock de mesmo nome de 1963 (eu morria de medo desse filme quando era criança!), e "Não Olhe Agora", uma história de arrepiar os cabelos que também se tornou filme, "Inverno de Sangue em Veneza" de 1973 dirigido por Nicolas Roeg. Eu também sou fascinada por outro filme de Hitchcock que tomou como base outro livro de Du Maurier, mas que ainda não li, "Rebecca, a Mulher Inesquecível", de 1940. Por isso, mesmo conhecendo pouco da obra dela, já me tornei fã dos escritos de Daphne du Maurier!

My Cousin Rachel foi publicado pela primeira vez em 1951 e se trata de um romance-mistério que vem atraindo leitores há décadas. A trama se passa na Cornualha, litoral da Inglaterra, onde Daphne du Maurier também morou. Philip Ashley é um jovem inglês e quem nos conta a história em primeira pessoa. Ele perdeu seus pais ainda muito jovem, e por isso foi adotado por seu tio Ambrose Ashley. Ambrose é um solteiro convicto, dono de uma mansão e se orgulha pelo fato de nenhuma mulher ter se intrometido na maneira como ela administra a propriedade.

Ambrose está envelhecendo e, por ordens médicas, passa a viajar para o sul da Europa durante os invernos frios da Inglaterra. Philip, seu único herdeiro, fica para cuidar da grande propriedade e de seus inquilinos. Eis que em uma de suas viagens para Florença, na Itália, Ambrose se apaixona por uma misteriosa viúva, chamada Rachel, que é sua prima distante. Ambrose conta sobre seu casamento com ela a Philip através de cartas, que fica muito enciumado e furioso com a perspectiva de uma mulher na mansão.

Aos poucos, as cartas de Ambrose vão ficando mais e mais esparsas, até que Philip recebe um último bilhete apressado de Ambrose que dizia: "She has done for me at last, Rachel my torment."


Philip sabe que não pode mais esperar e segue ansioso de carruagem até Florença, o que leva um considerado tempo. Ao chegar lá, descobre que seu tio Ambrose havia morrido devido a um tumor cerebral e que Rachel havia deixado Florença. Devastado, Philip jura vingança a essa mulher e retorna para a Cornualha, agora herdeiro de toda a fortuna da família Ashley.

Algumas semanas mais tarde, Philip recebe a notícia que tanto temera: sua prima Rachel chegou para visitar a propriedade de seu ex-marido. E é aí que a trama muda de rumo e Philip acaba obcecadamente apaixonado por Rachel, apesar dos avisos de seus amigos mais próximos de que ela está apenas atrás da fortuna de Ambrose. Philip desenvolve uma doença com sintomas parecidos com os quais Ambrose sofreu. Seria uma coincidência? Ou Rachel seria capaz de envenenar os dois homens para ficar com toda a riqueza e propriedade da família?

O leitor muda de lado várias vezes e por ora percebe em Philip um jovem obcecado e sofrendo alucinações de uma possível doença cerebral e uma inocente ex-mulher que busca recordar a curta vida de casada que tinha com seu Ambrose, e por ora vê uma mulher fria, calculada e manipuladora, que não vê obstáculos para conseguir o que almeja e um ingênuo rapaz apaixonado pela primeira vez, que se propõe a fazer de tudo para deixar sua amada feliz. Qual será a verdade?

É claro que não vou contar para vocês, apenas recomendo que leiam esse romance-suspense maravilhoso que te prende do início ao fim e termina com um final surpreendente. 

Há uma adaptação para o cinema recente desta história, o My Cousin Rachel de 2017, dirigido por Roger Michell, e com Rachel Weisz no papel de Rachel e Sam Claflin como Philip Ashley. O filme tem uma atmosfera sobrenatural e vale muito a pena ser visto! Ótimo para um final de semana chuvoso!



Espero que tenham gostado dessa publicação e que saboreiem a deliciosa escrita de Du Maurier.

Uma ótimas semana a todos e ótimas leituras!

Fernanda