segunda-feira, 24 de maio de 2021

" O Silêncio das Mulheres", Pat Barker

 Olá, queridos leitores!


Hoje estou aqui para compartilhar com vocês a minha mais recente leitura: O Silêncio das Mulheres (2018), da escritora britânica Pat Barker. Trata-se de uma releitura de Ilíada, o grande clássico da literatura da Grécia Antiga, atribuído ao poeta Homero (928 a.C.-898 a.C.), porém através da perspectiva de uma mulher, normalmente relegada a uma nota de rodapé nos livros de história, a Rainha Briseis.


O título do livro faz referência ao silêncio forçado a tantas mulheres durante a Guerra de Tróia, que eram trocadas ou vendidas como mercadoria ou espólios de guerra. É uma abordagem muito interessante, pois confere voz e agência ao lado dos oprimidos e conquistados. Estamos acostumados a ler sobre os heróis gregos, como Aquiles, Agamenon, Pátroclo e Odisseu. Os contos de mitologia grega engrandecem e idealizam os feitos desses homens. Mas, que tipo de ser humano eles eram? Como eles se comportavam fora dos campos de batalha? E como se relacionavam com as pessoas ao seu redor, amigos e inimigos? E, mais importante para este livro, como eles tratavam as mulheres ao seu redor? Pat Barker reconstrói esse cenário que mistura história, mitologia e ficção, desmistificando a grandeza heróica que envolve esses personagens, representando-os como homens bárbaros, cruéis, levados por ego a certas decisões de bataha que têm grandes consequências, e como homens que usam as mulheres capturadas durantes os cercos a cidades inimigas como meros objetos, ofuscando as suas identidades, transformando-as em escravas.


A rendição de Briseis por Aquiles a Agamenon, afresco, século I dC, agora no Museu Nacional de Arqueologia de Nápoles

Briseis era rainha na cidade grega de Lirnesso. No início do livro, a cidade está cercada pelo exército do temido Aquiles, que solta seu grito de guerra, apavorando as mulheres que estão se escondendo dentro das muralhas da cidade, pois elas sabem muito bem o que aconteceria com elas caso a cidade caísse. E, de fato, a cidade sucumbiu. Todos os homens, independente da idade, foram mortos, as mulheres grávidas foram todas mortas pelo caso de estarem esperando um filho homem, e todas as outras mulheres foram levadas ao exército grego para serem distribuídas como escravas. Briseis viu seu marido e seus irmãos serem assassinados por Aquiles. Como era uma mulher de alto escalão, Briseis foi levada como escrava particular de Aquiles. Portanto, ela foi obrigada a compartilhar a cama daquele que havia dizimado a sua família - um destino que muitas mulheres tiveram que enfrentar.


A queda de Troia Johann Georg Trautmann (1713–1769)

A partir desse momento, Briseis tem que viver no acampamento inimigo e servir aos soldados, cumprindo qualquer ordem que Aquiles determinasse. Seu único consolo são os poucos momentos em que consegue estar na companhia de outras mulheres. Assim, juntas, elas confortam uma a outra como possível. O acampamento está cercando Tróia, governada pelo Rei Príamo, pai de Páris, que - segundo a mitologia - havia raptado Helena, esposa de Menelau, iniciando a Guerra de Tróia. O interessante é que, apesar de Helena ser um grande nome nas lendas e baladas da Grécia Antiga, ela é apenas uma sombra em O Silêncio das Mulheres, apenas uma silhueta vista à distância por Briseis do acampamento inimigo. 


A narrativa é contada na sua maior parte em primeira pessoa por Briseis, que, dessa forma, tem a chance de contar a sua versão da história, negada nos relatos tradicionais. Porém, há capítulos em que o leitor tem acesso à narrativa de Aquiles, em terceira pessoa. O que me parece é que, apesar de Briseis tentar contestar a sua posição de silêncio na história, a narrativa masculina ainda interfere e influencia a sua. Essa decisão da autora me incomodou um pouco, porque parece contradizer a proposta do livro. 

Pat Barker
Outro ponto do livro que também me incomou foi a linguagem demasiada informal e moderna em certos momentos, incongruente com o momento em que a história se passa, a Grécia Antiga. Eu entendo que a autora tenha querido aproximar o leitor moderno da história de Briseis, mas, na minha opinião, o resultado me pareceu incoerente. Além disso, o início e o final do livro são bem dinâmicos, enquanto o meio tem um ritmo mais lento. 


De qualquer maneira, a leitura foi positiva. Fico feliz por ter lido essa história de agência feminina e de reimiginação da história, desmistificando o ideal do herói grego. Também fiquei interessada em saber mais sobre a Guerra de Tróia e em ler os épicos homéricos Ilíada e Odisséia, os clássicos que dão base ao livro de Barker e de tantos outros. De fato, leitura obrigatória para melhor compreender a produção cultural sobre a Grécia Antiga.


Espero que tenham gostado dessa sugestão de livro!

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda



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