quinta-feira, 4 de março de 2021

"A Glória de um Covarde", Stephen Crane

Olá, pessoal! Hoje vou compartilhar com vocês minhas impressões sobre o livro A Glória de um Covarde, do norte-americano Stephen Crane (1871-1900). Este é um dos tantos livros sobre a Guerra Civil Americana, mas uma perspectiva diferente do que havia sido escrito até então. Publicado pela primeira vez de maneira serializada em uma revista literária em dezembro de 1894, o texto saiu em formato de livro no ano seguinte, e estabeleceu Crane como grande nome da produção literária americana da época. Crane nasceu em 1871, ou seja, seis anos após a guerra ter terminado. No entanto, a sua descrição psicológica das angústias de um soldado levou vários leitores a acreditarem que ele era um veterano de guerra. Ele afirmou para uma revista que nunca havia nem sentido cheiro de pólvora.
Quando o livro saiu, ele recebeu duras críticas de veteranos militares, que acreditavam que Crane havia ofendido os heróis de guerra ao tratar de temas como covardia e inutilidade da guerra. O protagonista dessa história é Henry Fleming, um jovem americano que, motivado pelas promessas de glória reservada aos heróis de batalhas, alista-se para o exército da União. No período da Guerra Civil (1861-1865), o país se dividiu em dois: o Norte, a União, industrializado e abolicionista, e o Sul, a Confederação, agrário e escravocrata. Fleming vai à guerra e faz parte do ficcional 304 regimento de Nova York. Ele se refere a outros soldados como o "soldado alto", "o soldado barulhento", o "soldado velho", etc. É uma maneira de Crane afirmar que estes homens poderiam ser qualquer pessoa.
O livro traz uma perspectiva muito interessante sobre a guerra. A narrativa é contada em terceira pessoa, mas através do ponto de vista de Henry. Por vezes, o leitor tem acesso a seus mais íntimos pensamentos, e, outras vezes, o observa de fora. Henry tinha uma visão muito idealizada da guerra, baseada em batalhas da Grécia Antiga. Ao se deparar com a realidade do campo de batalha, ele percebe que os momentos de glória são raríssimos. Em contrapartida, há fome, cansaço, muito deslocamento sem objetivo aparente, cumprimento de ordens sem saber o motivo pelos quais as cumpre... enfim, ele se sente "um gato jogado em uma bolsa". Um momento definitivo no livro é quando Henry percebe que sua primeira batalha e, consequentemente, seu primeiro contato com a morte, está próximo. Ele se pergunta: Como meu corpo reagirá à aproximação do inimigo? Terei coragem ou irei fugir? Serei um covarde? É muito interessante ler o que se passa na cabeça do jovem soldado, que reage ambiguamente à situação em que se encontra: ora, ele quer provar o seu valor; ora, ele se pergunta o que está fazendo ali e qual o objetivo de tanta morte?
Ele quer se colocar à prova o mais rápido possível, porque ele não aguenta o prolongamento do seu sofrimento. Porém, o regimento se arrasta por milhas até finalmente enfrentarem o inimigo. Henry quer exibir um emblema vermelho da guerra, que seria um ferimento aparente - a prova de sua coragem. Ele chega até mesmo a invejar os soldados feridos, pois ele não têm mais que se preocupar em comprovar a sua coragem. Este, aliás, é o título do livro no original: The Red Badge of Courage. Este título incrementa a ironia de ter um emblema vermelho de coragem devido à maneira como Henry consegue o seu. Cabe a você, leitor, descobrir. Esta foi uma leitura que me impactou bastante. Temos acesso a diversas narrativas (literárias ou cinematográficas) grandiosas de guerra, que exaltam o herói como alguém perfeito e auto-confiante. A Glória de um Covarde apresenta o lado mais humano, opressor e realista da guerra. E é incrível como Crane, mesmo nunca tendo participado de uma batalha, conseguiu captar os tormentos internos do protagonista.
Crane foi um autor prolífico, mas que, devido ao seu estilo de vida boêmio, morreu cedo. Ele foi um grande nome do Naturalismo Americano e escreveu diversos contos que aparecem em Antologias de Melhores Contos Norte-Americanos. Aqui no blog já escrevi sobre "A Noiva Chega a Yellow Sky". Para (re)ler este post, clique aqui. Espero que tenham gostado dessa sugestão de leitura. Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras! Fernanda

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