sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

"Jane Austen e o Natal", Carlo Devito

Olá, queridos leitores!

Chegamos ao mês de dezembro e nada melhor do que entrar no clima do Natal com o perfeito livro, né?
Um dos livros natalinos que escolhi ler neste ano foi o maravilhoso "A Jane Austen Christmas: Celebrating the Season of Romance, Ribbons & Mistletoe", ou "Jane Austen e o Natal: Celebrando a Temporada de Romance, Fitas e Ramos de Visco", do autor Carlo Devito. O livro é uma preciosidade só! Capa dura, uma jacket com um design lindíssimo em vermelho e preto e com a característica silhueta da Austen, ilustrações em preto e branco e um design interior bastante caprichado. Comprei esse livro no ano passado, mas esperei o mês de dezembro para lê-lo, justamente para entrar no clima de Natal dentro e fora das páginas.

Eu achei a premissa desse livro muito interessante porque Carlo Devito escreve sobre como o Natal era celebrado na época de Jane Austen, e sobre alguns Natais em especial na vida da grande escritora. O livro é divido em uma introdução, seis partes e um epílogo. Cada parte se refere a uma temporada de Natal específica: A primeira parte se refere a 1786, a segunda a 1794, a terceira a 1795, a quarta a 1802, a quinta a 1809, a sexta a 1815, e o epílogo aos últimos dias de vida de Jane.

Jane Austen
Jane Austen menciona os feriados de Natal em todos os seus romances. Ela mesma gostava muito das celebrações natalinas. Além disso, muitos eventos da sua vida pessoal se passaram nessa mesma época, a começar pelo seu nascimento! Jane nasceu em 16 de dezembro de 1775,  nove dias antes do Natal. Como Devito explica, na época de Jane, não se comemorava apenas o dia 25 de dezembro ou a véspera de Natal, mas praticamente o mês de dezembro todo - e, principalmente, os 12 dias de Natal, que compreendiam o período entre 25 de dezembro e o Dia de Reis, 6 de janeiro. Durante todo esse tempo, era comum as pessoas visitarem umas às outras, principalmente no campo. Por isso, sempre havia comida em abundância e opções de entretenimento de sobra durante todo o mês. Estavam todos preparados para o caso de alguém decidir fazer uma visita.

Vamos ver o que aconteceu de tão especial em cada um desses anos selecionados por Devito:

1786

Jane estava com 11 anos durante essa temporada de Natal. Seu pai, George Austen, era um pastor, e muito provavelmente era responsável pelo sermão do dia de Natal. Jane, sua mãe, sua irmã Cassandra e seus irmãos Henry, James, Francis, Edward, Charles e George enfrentariam a neve para ouvir as palavras do pai durante a celebração na paróquia.

Na época de Jane, ainda não havia o costume de ter uma árvore de Natal em casa. Porém, o pessoal decorava as casas com folhagens, ramos verdes e frutas como maçãs e laranjas, que davam um cheiro característico ao lugar. Também era costume buscar o maior tronco de árvore da redondeza e arrastá-lo com pompa e cerimônia para dentro da casa. O tronco, chamado de Yule log, queimaria e proveria fogo para todos os 12 dias de Natal. Esse ritual é derivado de uma tradição medieval nórdica, que simboliza luz e iluminação.

Tradição do Yule log


Eliza de Feuillide
Uma das presenças mais marcantes das festividades de Natal de 1786 para a jovem Jane foi a de sua prima Eliza de Feuillide. Ela era uma mulher extravagante para a época, nascida na Índia, mas morou também na França e Inglaterra. Ela se casou com o capitão francês Jean-François Capot de Feuillide, um conde. Por isso, ela se tornou uma condessa. Seu marido, leal à monarquia francesa, foi preso e guilhotinado durante a Revolução Francesa, o que a levou a retornar à Inglaterra. Em 1786, no entanto, Eliza ainda era casada com o conde, mas flertava abertamente com os irmãos de Jane, principalmente Henry e James, o que causou alvoroço na casa dos Austen. Anos depois, depois de viúva, Eliza viria a se casar com Henry. De qualquer modo, Eliza impressionou a jovem Jane, que a usou como modelo para algumas de suas personagens.


1794


No Natal de 1794, a Inglaterra estava em guerra com a República da França. Porém, por mais que a guerra afetasse a vida de Jane, já que alguns de seus irmãos participaram ativamente de batalhas, ela não faz referência aos conflitos em seus romances.

Escrivaninha portátil de Jane
Jane já estava com 19 anos e já havia iniciado sua jornada pelo universo literário. Ela escrevia desde criança - provavelmente desde os 11 ou 12 anos de idade. Seu pai encorajava a relação de Jane com as letras, e até mesmo deixava Jane ler o que quisesse da sua biblioteca (o Reverendo Austen administrava uma escola para meninos em sua casa, por isso contava com diversos livros de estudos à disposição) - o que era vedado à maioria das meninas da época de Jane. Para o seu aniversário de 19 anos, o pai de Jane lhe deu uma escrivaninha portátil de mogno, que hoje se encontra em exposição na British Library. Jane simplesmente amou o presente! E naquele mesmo ano, naquela escrivaninha, Jane começou a escrever seu primeiro romance, Lady Susan.




1795

A temporada natalina do ano seguinte foi especial para Jane, porque, aos 20 anos, ela teve sua primeira experiência amorosa. Jane havia ficado amiga da Sra. Lefroy, esposa do Reverendo Isaac Lefroy, uma família inglesa distinta. Jane era frequentemente convidada à casa dos Lefroy, que já haviam captado algo de especial na moça. 



Thomas Lefroy
Jane gostava muito de participar de bailes, um dos principais entretenimentos da Inglaterra Regencial. Durante o Natal de 1795, Jane foi a muitos bailes, se divertiu e dançou muito, e em um desses bailes conheceu Thomas Langlois Lefroy, sobrinho da Sra. Lefroy. O rapaz havia estudo Direito na Trinity College, na Irlanda, e agora trabalhava no Lincoln's Inn, em Londres. Os dois se deram bem imediatamente e se reencontraram em outros bailes durante a temporada. Porém, Jane sabia que Tom voltaria para Londres depois do último baile da estação. Em uma carta a sua irmã Cassandra, Jane parece esperar que Tom a peça em casamento durante a dança antes de voltar para a capital. No entanto, o baile tão esperado acaba se tornando um pesadelo para Jane. A família do rapaz, com medo que o jovem promissor se comprometesse com uma moça da classe média sem muito futuro, o convence a deixar o local na noite anterior. Jane nunca viu Tom novamente, mas o seu desapontamento amoroso serviu como uma nova motivação para se afundar na escrita novamente.

1802

Silhueta de Cassandra
Durante essa temporada, Jane e Cassandra passaram um tempo em Bath na casa de suas amigas, as irmãs Bigg. Jane já estava com quase 27 anos e sua irmã Cassandra, dois anos mais velha, já tinha 29. O noivo de Cassandra, Thomas Fowle, havia morrido de febre amarela durante uma expedição militar no Caribe em 1797. Depois desse incidente, Cassandra nunca mais se comprometeu com ninguém. Portanto, em 1802 as duas irmãs estavam beirando os 30 anos e permaneciam solteiras (fato que não mudou até o final das suas vidas). Para a época, uma mulher solteira nessa idade era inaceitável. As duas já eram consideradas spinsters, ou solteironas, e mal vistas na sociedade. 

Harris Bigg-Wither
Em 1802, o irmão mais novo das moças Bigg, Harris Bigg-Wither, estava presente. Ele havia mudado e crescido bastante desde que Jane e Cassandra o tinham visto pela última vez. Jane e Harris se deram muito bem, e no dia 2 de dezembro, Harris surpreendeu Jane com um pedido de casamento. No calor do momento, Jane aceitou, mas depois de uma noite de reflexão, ela resolveu voltar atrás e declinar o pedido de Haris na manhã seguinte. O rapaz se sentiu humilhado. Jane e Cassandra tiveram que deixar a casa dos Bigg-Wither antes da noite de Natal e a amizade com as irmãs de Harris também foi afetada pela reação de Jane.

Os casos amorosos de Jane com Thomas e Harris são retratados no filme Becoming Jane, ou Amor e Inocência no Brasil, de 2007 com Anne Hathaway no papel de Jane. Para quem ainda não assistiu esse filme, vou deixar o trailer aqui:



1809

Desde a morte do pai de Jane em 1805, Jane, Cassandra e sua mãe tiveram que se mudar para lugares menores e mudar drasticamente o seu estilo de vida. Naquela época, as mulheres não podiam herdar propriedade por lei, portanto as mulheres Austen se viram sem fonte de renda e sem um lugar para morar. Elas dependiam da ajuda dos seus irmãos, principalmente Henry.

Em Julho de 1809 as três mulheres se mudaram para Chawton, na casa onde hoje se encontra o museu Jane Austen. Jane adorava morar ali!

Casa onde Jane Austen morou em Chawton

Devido ao seu estilo de vida menos requintado, Jane, sua irmã e sua mãe recebiam menos convidados em casa. Portanto, o Natal de 1809 foi bem tranquilo. Jane aproveitou o tempo com a família e se dedicou à escrita. Na casa em Chawton ela revisou os manuscritos de Razão e Sensibilidade, publicado em 1811, e Orgulho e Preconceito, publicado em 1813.






1815

Durante o período de Natal de 1815, o último romance de Jane Austen publicado em vida foi lançado: Emma. Jane já havia se estabilizado como escritora e já recebia uma boa quantia por seus livros.

Rei George IV
(anteriormente, Príncipe Regente)

Em dezembro desse ano, Jane foi convidada pelo bibliotecário do Príncipe Regente George, mais tarde Rei George IV, a conhecer a biblioteca do Palácio Carlton House, a pedido do próprio príncipe, que era, aparentemente, fã dos romances de Jane. Jane, no entanto, não gostava do príncipe, pois não aprovava o seu comportamento: ele se vestia de maneira extravagante demais, era obeso mas não maneirava na comida ou na bebida, gastava muito dinheiro, e se relacionava com muitas mulheres. O príncipe pediu que o próximo livro de Jane, Emma, fosse dedicado a ele. A escritora não estava muito feliz com a ideia, mas ela logo descobriu que um pedido real é uma ordem.


Dedicatória ao príncipe regente George


Jane estava no auge da sua carreira literária. Uma carreira, no entanto, que estava fadada a ser breve.


Epílogo

Jane aos poucos percebeu que se sentia mais cansada do que o normal. Os médicos da época não conseguiram diagnosticar o problema de Jane, mas hoje acredita-se que ela tenha tido a doença de Addison. Quando Emma saiu em dezembro de 1815, Jane mal sabia que ela só veria mais um Natal. A escritora partiu em 18 de julho de 1817.

No início de 1817, Jane acreditava estar se sentindo melhor, mas percebeu uma piora em Abril, quando escreveu seu testamento. Três meses depois, ela faleceu.

Jane, incrível mulher e apaixonada pelo Natal, não pôde participar das festividades natalinas de 1817, nem de nenhum outro Natal subsequente. No entanto, ela ainda faz parte de nossas vidas através dos seus romances, que nos tocam duzentos anos depois. 

Jane deixou dois manuscritos não publicados depois de sua morte. Foi seu irmão Henry que insistiu em publicar A Abadia de Northanger e Persuasão, ambos em 1818. E, dessa vez, não de maneira anônima. Henry queria que o mundo inteiro soubesse que era sua irmã quem os tinha escrito e todos os romances anteriores (que haviam sido assinados by a lady).

Nessa noite de Natal, vamos pensar em Jane, em como ela adoraria estar em volta do fogo do Yule log, rodeada por familiares e amigos, pronta para um baile ou jogo de cartas, e no legado fantástico que ela nos deixou.


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