terça-feira, 23 de janeiro de 2018

"Solteirona", Kate Bolick

Bom dia, queridos leitores!

Sabem aqueles livros que simplesmente te encontram? Foi o que aconteceu comigo e "Solteirona", de Kate Bolick. Esse livro simplesmente me encontrou, me fascinou e me inspirou!

Além da capa ser incrivelmente linda e chamativa (com uma mulher sentada em um sofá vintage dourado, segurando uma xícara de chá), me interessei pela premissa do livro: resgatar a palavra "solteirona" do cunho pejorativa e reivindicar à mulher o direito de escolher a própria vida. É claro que levei o livro imediatamente!

Kate Bolick é uma jornalista e escritora norte-americana, nascida em 1972. Aos 45 anos, ela nunca se casou e compartilha a sua história como mulher solteira na nossa sociedade atual. Ela afirma que cinco mulheres escritoras a inspiraram nessa jornada, as quais ela chama de despertadoras: Maeve Brennan, que a inspirou como ensaísta; Neith Boyce, que a inspirou como colunista; Edna St. Vincent Millay, que a inspirou como poeta; Edith Wharton, que a inspirou como romancista; e Charlotte Perkins Gilman, que a inspirou como visionária social. Essas cinco mulheres viveram em momentos históricos e circunstâncias diferentes, mas todas foram norte-americanas, escritoras e advogadas dos direitos da mulher, assim como Kate. Eu não conhecia todas essas mulheres e fiquei encantada em conhecê-las melhor e saber como elas influenciaram a vida de Kate.

Maeve Brennan (1917-1993)


Maeve Brennan
A primeira despertadora de Kate, a jornalista e escritora Maeve Brennan, parece ser a que teve uma marca maior na vida de Kate, pois ela reaparece diversas vezes durante a narrativa de "Solteirona". Brennan nasceu na Irlanda, mas mudou-se para os Estados Unidos em 1934, aos 17 anos. Brennan escreveu ensaios para a revista The New Yorker sob o pseudônimo "A Senhora Prolixa", que mais tarde foram reunidos e publicados. Brennan escrevia sobre suas experiências em uma Nova York paradoxalmente superpopulosa e solitária ao mesmo tempo. Ela se destacou por sua inteligência e elegância singular, principalmente nas décadas de 40 e 50. Brennan casou-se com seu colega de trabalho St. Clair McKelway, mas a união durou apenas cinco anos. Durante o resto da sua vida, Brennan permaneceu solteirona e aproveitando seu tempo para escrever. Depois da década de 1960, Brennan começou a desenvolver doenças mentais, parou de cuidar da sua aparência, não tinha residência fixa e morreu em um lar de idosos em 1993. Apesar do fim triste, Brennan teve uma vida produtiva e, diferente da maioria das mulheres, com liberdade.

Neith Boyce (1872-1951)

Neith Boyce
A segunda despertadora de Kate, a escritora, jornalista e dramaturga Neith Boyce, nasceu 45 anos antes de Maeve, em Indiana, Estados Unidos. Boyce escrevia uma coluna na Vogue sob o pseudônimo de "The Bachelor Girl", "A Garota Solteira" em português, na qual ela escrevia sobre o louvor da vida de solteira. Na época de Boyce, ser solteira era ainda menos comum do que na época de Brennan. Durante a chamada época vitoriana norte-americana (apesar de ser estranho utilizar o termo "vitoriano" para um período histórico nos Estados Unidos), o casamento ainda era visto como a razão de existência para qualquer mulher, e Boyce simplesmente desafiou esse plano. Como Kate, Neith se mudou para Nova York para morar sozinha e tentar a vida na grande cidade. A popularidade da coluna de Neith na época ilustra a curiosidade de outras mulheres sobre a vida e as possibilidades de uma mulher solteira. Boyce se casou com o romancista e jornalista Hutchins Hapgood em 1899. Seu casamento era moderno para a época: prezava-se pela igualdade entre os dois, e ambos tinham a liberdade para ter casos fora do casamento. Porém, a experiência não deu muito certo, pois Hutch se revelou mais conservador do que parecia a princípio. Seu marido morreu em 1944 e Neith sete anos depois, em 1951 aos 79 anos.

Edna St. Vincent Millay (1892-1950)

Edna St. Vincent Millay
A terceira despertadora foi Edna St. Vincent Millay, poeta, dramaturga e vencedora do Prêmio Pulitzer de Poesia em 1923. Uma mulher baixinha e atraente, que chamava a atenção tanto de homens quanto mulheres por onda passava. Edna ficou conhecida quando enviou o seu poema Renascence para um concurso de poemas. Seu poema não recebeu o primeiro lugar, mas foi considerado por muitos (inclusive o ganhador do concurso) como merecedor do grande prêmio. Como várias das despertadoras de Kate e até mesmo Kate, Edna mudou-se para Nova York para viver sozinha e trabalhar. Edna viveu por um tempo em Paris e foi até pedida em casamento em 1920, mas recusou. Porém, Edna se juntou ao grupo de mulheres casadas três anos mais tarde, 1923, quando se casou com Eugen Jan Boissevain. Boissevain respeitava a personalidade e carreira literária de Edna, apoiando-a e livrando-a de questões de gestão doméstica. Os dois permaneceram juntos em um casamento aberto até 1949, quando Boissevain morreu de câncer de pulmão. Edna morreu um ano depois, vítima de um ataque cardíaco, aos 58 anos. Edna é exemplo de um casamento que não limitou a sua produção artística ou a sua liberdade.

Edith Wharton (1862-1937)

Edith Wharton
A quarta despertadora de Kate foi a conhecida romancista norte-americana Edith Wharton, autora de livros como The House of Mirth (1905) e The Age of Innocence (1920), que venceu o Prêmio Pulitzer de Ficção em 1921. Essa não seria uma despertadora óbvia para uma solteirona, já que Edith passou a maior parte da sua vida casada com Edward Wharton, desde 1885, quando ela tinha apenas 23 anos, até 1913, quando os dois se divorciaram depois de 28 anos de casados. Edith escrevia desde criança, mas sua família não queria que seu nome aparecesse em publicações, porque mulheres respeitáveis não trabalhavam na época. Ela teve poemas publicados anonimamente, mas seu nome só apareceu com a publicação do poema The Last Giustiniani em 1889. Edith e seu marido compartilhavam da paixão por viajar. Como ambos eram de famílias ricas, eles podiam se dar ao luxo de passar meses e meses apenas viajando. Kate se identificou com Edith principalmente por ambas gostarem de e escreverem sobre decoração de interiores. Kate trabalhou por alguns anos em uma revista de decoração e descobriu que Edith escreveu e publicou um manual de decoração doméstica em 1897. Edith descobriu sua paixão e sua vocação: a escrita, e tal descoberta levou Kate a descobrir a sua vocação também: escrever. A maior parte das publicações de Edith foram produzidas depois do divórcio em 1913, quando Edith voltou a ter tempo para si própria.

Charlotte Perkins Gilman (1860-1935)

Charlotte Perkins Gilman
A última despertadora de Kate foi a escritora, socióloga e feminista Charlotte Perkins Gilman. Você talvez se lembre de Charlotte por conta do seu famoso conto O Papel de Parede Amarelo, publicado em 1892. Se você não se lembra desse conto, pode refrescar a memória acessando a postagem do blog sobre essa história clicando aqui. Charlotte chamou a atenção de Kate por seus pensamentos revolucionários e por viver uma vida pública em prol das mulheres ao invés de uma vida privada satisfatória. Ela viveu pelos outros. Ou pelas outras, melhor dizendo. Charlotte se apaixonou por uma amiga durante a sua juventude, Martha Luther, porém seu amor não foi correspondido da mesma forma. Depois que a amiga se casou, Charlotte permaneceu solteira por um período maior. Ainda em dúvida se o casamento era realmente algo para ela, Charlotte se casou com Charles Walter Stetson em 1884, aos 24 anos. No ano seguinte, eles tiveram sua única filha, e em 1888, Charlotte se separou do seu marido e se divorciaram formalmente em 1894. Foi um casamento de apenas quatro anos. Depois da separação, Charlotte tornou-se extremamente ativa em movimentos feministas e organizações reformistas. No ano de 1900, Charlotte se casou com o seu primo Houghton Gilman. Os dois ficaram juntos até 1922 e moraram em Nova York. O segundo casamento de Charlotte foi muito diferente do primeiro. Depois de todo o seu trabalho e viagens, ela se sentia preparada para se apaixonar de novo e para atender às demandas da vida à dois.


Eu gostei muito de conhecer melhor essas mulheres que inspiraram Kate Bolick. Juntamente com fatos contemporâneos sobre as mulheres solteiras hoje em dia e com as narrativas das vidas das suas cinco despertadoras, Kate escreveu sobre sua própria vida, experiências de trabalho e amorosas. Ela é muito divertida e me identifiquei com diversas situações pelas quais Kate passou, como a vontade de viver da escrita, mas não saber como, a primeira experiência de viver sozinha em uma cidade grande, o prazer de se sentar sozinha em uma poltrona confortável com uma xícara de chá e ler um bom livro, etc. Acho que em muitos quesitos, eu sou muito parecida com Kate, embora eu não me imagino solteira aos 45 anos. Mas... nunca se sabe, não é mesmo?

Achei muito legal a maneira como Kate termina o livro. Como prometido, ela desmistifica a palavra solteirona, utilizada pelas pessoas como algo negativo, para se referir uma mulher velha, louca e mal-amada. O que ela afirma é que "a questão que por muito tempo me impunha - ser casada ou ser solteira - é um binarismo falso. O lugar no qual sempre quis viver - na realidade, onde passei minha vida adulta - não fica entre esses dois pólo, mas além deles" (p. 301). Uma mulher não deve ser julgada ou caracterizada como solteira ou casada. Ser mulher vai muito além disso. A nova definição para o termo solteirona proposta por Bolick é a seguinte: "agarrar-se ao que a torna independente e autossuficiente" (p. 302), e isso vale tanto para mulheres solteiras como casadas:

Kate Bolick

- "Se você é solteira, seja porque nunca se casou, se divorciou ou ficou viúva, pode carregar a palavra solteirona como um talismã, um lembrete de que está em boa companhia" - você é a sua melhor companhia!

- "Se você estiver infeliz em um relacionamento, pode usar a palavra solteirona para invocar um tempo em que não estava e para se lembrar de que ficar sozinha é, muitas vezes, preferível a permanecer em um relacionamento ruim" - seja feliz, acima de tudo!

- "Para aquelas que estão em relacionamentos felizes, sobretudo as que equilibram trabalho e filhos, solteirona pode ser um código para se lembrarem de reservar um tempo para si mesmas" - não se esqueça do prazer da sua própria companhia!

Portanto, Solteirona não é um manifesto que orienta as mulheres a nunca se casarem. Pelo contrário, é um livro que nos faz lembrar da importância de sermos felizes acima de tudo, sozinhas ou em companhia, e do fundamental valor do direito de escolher a nossa própria vida!

Esse, sem dúvida alguma, se tornou um dos meus livros preferidos, e um lembrete a mim mesma para seguir meus sonhos e aproveitar as oportunidades que a vida nos apresenta, e as oportunidades que nós atraímos para nós mesmas.

Espero que vocês tenham gostado desse post e que se deixem inspirar por Solteirona, de Kate Bolick.

Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

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