sábado, 14 de dezembro de 2019

"A Besta Humana", Émile Zola



Olá, pessoal!

Hoje venho compartilhar com vocês a minha experiência lendo mais um clássico da literatura francesa: A Besta Humana (1890), de Émile Zola (1840-1902).

Em apenas duas palavras: Que livro! É, definitivamente, um romance perturbador, que explora a fundo a bestialidade da natureza humana. Se Madame Bovary (1856) causou furor quando da sua publicação (leia a resenha aqui), eu imagino como foi a reação dos leitores da época com o lançamento de A Besta Humana, trinta e quatro anos depois.

Émile Zola
Zola foi o grande precursor do Naturalismo na França, um ramo do movimento Realista da literatura de meados do século XIX. Sua obra O Romance Experimental (1880) é considerado o manifesto literário do movimento, que tem como premissa a observação e representação da realidade, o interesse pelo cientificismo e positivismo, e a crença que o homem é determinado pelo ambiente em que vive. A narrativa é impessoal, normalmente em terceira pessoa, e seus protagonistas geralmente fazem parte da classe trabalhadora e menos favorecida, retratando as condições sociais precárias em que vivem - como a exploração do trabalho em centros urbanos, a pobreza, a prostituição, o adultério, o desenvolvimento de doenças psicológicas, etc.
Em contrapartida ao Romantismo, que idealizava a relação do homem com a natureza e via o amor como algo sublime, no Naturalismo o homem passa a se relacionar com as criações da ciência e da modernidade, e as relações humanas são antes carnais do que amorosas.
Essas características também encontraram representatividade na literatura brasileira de fim do século XIX, principalmente através do seu maior expoente Aluísio Azevedo (1857-1913), autor de O Cortiço (1890). Para ler a resenha dessa obra brasileira aqui no blog, clique aqui.
Napoleão III da França

A Besta Humana faz parte do projeto literário de Zola que ele intitula Rougon-Macquart: História Natural e Social de uma Família sob o Segundo Império, série de vinte livros publicados entre 1871 e 1893 sobre a sociedade da época, na qual A Besta Humana é o livro de número 17. O próprio Zola disse que "os Rougon-Macquart personificarão a época, o próprio Império". Ele se referia ao período em que a trama se desenvolve, quando Napoleão III governou como Imperador da França de 1852 a 1870, e que chegou ao fim com a Guerra Franco-Prussiana, quando Napoleão foi capturado e deposto.
Rougon-Macquart é, de certa forma, similar ao projeto de Honoré de Balzac (1799-1850), A Comédia Humana - conjunto da obra de Balzac a partir de 1829, que inclui cerca de 95 títulos concluídos e 48 inacabados -, que buscou retratar a sociedade burguesa francesa à época da Restauração. Zola afirmou que a grande diferença entre os dois projetos é que o dele é menos social e mais científico, descrevendo uma família e as relações entre seus membros e determinados ambientes.

Árvore genealógica dos Rougon-Macquart

Jacques, um dos protagonistas de A Besta Humana, é filho de Gervaise Macquart e Auguste Lantier, cuja triste história é contada no sétimo volume da saga, L'Assommoir, ou A Taberna em português, publicado em 1876. É muito interessante como há essa recorrência de personagens e como eles estão relacionados entre si. Porém, cada volume da saga funciona como livro individual. Eu, por exemplo, comecei a minha leitura justamente por A Besta Humana, mas já tenho interesse em ler outros da série. Nem todos, contudo, já foram traduzidos para a língua portuguesa.

Jacques é um maquinista que conduz uma locomotiva, que ele chama de Lison, na linha Paris-Le Havre. O universo das locomotivas a vapor, das estações ferroviárias, dos trabalhadores da Companhia do Oeste e seus passageiros é onde a trama toda se passa. Assim como em O Cortiço, as vidas dos diferentes personagens de A Besta Humana se cruzam, transformando esse universo em um microcosmos de características próprias. Há ligações de negócios, de família, casos amorosos extraconjugais e fofoca entre vizinhos.

A locomotiva Lison

A locomotiva, uma besta metálica, é antropomorfizada no romance, onde é descrita com características humanas. O corpo da locomotiva é comparado ao corpo humano no seguinte trecho:

"À pobre Lison restavam apenas alguns minutos. Ela esfriava, as brasas da fornalha viravam cinza, o sopro que havia escapado tão violentamente das suas laterais abertas terminava como um suspiro de criança que chora. [...] Por um momento pôde-se ver, em suas entranhas arrombadas, funcionarem os órgãos, os pistões batendo como dois corações gêmeos, o vapor circular nas gavetas como o sangue nas veias." (p. 300)












Porém, assim como a besta de metal é humanizada, o ser humano é bestializado. O leitor é cruamente apresentado aos desejos mais sórdidos dos personagens: o maquinista Jacques não consegue sentir desejo carnal por uma mulher sem atiçar em si um desejo quase incontrolável de matar; o Sr. Roubaud, outro empregado da Companhia ferroviária, se torna extremamente agressivo com sua esposa em uma crise de ciúmes que o leva a cometer um crime irreparável; Séverine Roubaud, sua esposa, uma jovem e doce mulher, se deixa levar ao adultério pela paixão por Jacques e chega a arquitetar a morte de seu marido para enfim encontrar a liberdade; o presidente Grandmorin, grande personagem da política normanda, respeitado em sua carreira, mas cujo passado suja sua reputação; Flore, jovem prima de Jacques, levada pelo desejo por seu primo, ocasiona a morte de inúmeros inocentes. Enfim, a lista é longa! Nenhum personagem está isento de culpa. O romance mostra como o exterior muitas vezes esconde a bestialidade interna.

Simone Simon e Jean Gabin como Séverine e Jacques no filme de Jean Renoir de 1938

Outro tema presente no romance é a simultaneidade de eventos decisivos e banais, do extraordinário com o ordinário, do permanente com o fugaz, como os trens que continuam a seguir o seu percurso diário mesmo que um assassinato esteja sendo cometido próximo aos seus trilhos, e a solidão em meio à multidão, como ilustram os trechos abaixo sobre a vida de Tia Phasie, tia de Jacques, que morava em uma casinha bem em frente ao trilho do trem:

"No entanto, aquela ideia de multidão que os trens, indo e vindo, diariamente carregavam bem ali, à frente dela, no grande silêncio da solidão, deixou-a pensativa, olhando para a estrada de ferro, na noite que caía. [...]
Às vezes achava reconhecer alguns rostos, o de um senhor de barba alourada, provavelmente inglês, que toda semana fazia a viagem a Paris, e o de uma senhora morena, passando regularmente às quartas e sábados. Mas o trovão os levava embora, ela não tinha certeza de tê-los visto, todos os rostos se apagavam e se confundiam, iguais, dissipando-se uns nos outros. A torrente seguia, sem deixar nada de si. E o que a entristecia era que, por baixo daquele fluxo contínuo, sob o desfile de tanto conforto e tanto dinheiro, ninguém naquela multidão tão sôfrega sabia da sua presença ali, em perigo de vida. E isso a tal ponto que, se o marido a eliminasse uma noite, os trens continuariam a passar próximo ao seu cadáver, sem a menor noção do crime ocorrido no interior daquela casa solitária". (p. 60-61)



Esse livro não é para quem tem estômago fraco. Há menções explícitas à violência que me causaram bastante desconforto. Porém, não é uma violência gratuita, mas que induz o questionamento: a quais níveis de bestialidade o ser humano se deixa levar? E por quê?


Essa não foi uma leitura fácil, mas que certamente agregou - e muito - à minha experiência como leitora. Foi um dos meus livros favoritos de 2019.


Espero que tenham gostado dessa resenha sobre A Besta Humana e sobre o naturalismo de Zola.

Um ótimo final de semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

4 comentários:

  1. Achei uma leitura apropriada para o momento! aha vou comprar!

    ResponderExcluir

  2. In Berliner Start-ups wird oft über die Notwendigkeit von Weiterbildung im Bereich Cybersecurity diskutiert, insbesondere wenn es um die Beantragung von Bildungsgutscheinen geht. Der Prozess scheint auf den ersten Blick unkompliziert, jedoch müssen viele Faktoren berücksichtigt werden, bevor man eine Entscheidung trifft. Zunächst ist es wichtig zu evaluieren, ob die Investition in eine Weiterbildung Cybersecurity tatsächlich einen positiven ROI verspricht. Hierbei kann der Link https://csvisor.de/ wertvolle Informationen bieten, um fundierte Entscheidungen zu treffen. Letztlich sollten Unternehmen abwägen, ob die Kosten für diese Maßnahmen durch eine mögliche Risikominderung und Effizienzsteigerung gerechtfertigt sind.

    ResponderExcluir