sábado, 13 de outubro de 2018

"A Carne", Júlio Ribeiro

Bom dia, queridos leitores!

Júlio Ribeiro

Hoje venho compartilhar com vocês as minhas impressões sobre uma das minhas leituras mais recentes. Trata-se de um livro de um escritor brasileiro publicado no final do século XIX, mas que foi negligenciado por muito tempo. A obra também causou grande polêmica quando da sua publicação por tratar de temas tabus na época, como o divórcio, adultério e sexualidade. O livro chegou a ser condenado e muitos jovens foram proibidos de lê-lo na época. Foi com Manuel Bandeira (1886-1968), poeta, crítico literário, professor e tradutor, conhecido pelo seu trabalho durante a Semana de Arte Moderna, que a produção de Júlio Ribeiro foi resgatada. Estou me referindo a A Carne, livro de Júlio Ribeiro publicado em 1888.


Eu conheci esse livro através de uma disciplina que estou fazendo no doutorado sobre literaturas do século XIX. Esse século me encanta e gosto muito de investigar como a literatura se desenvolveu durante esse período em diversos locais. Júlio Ribeiro nasceu em Sabará, MG, em 1845 e faleceu em Santos, SP, em 1890. Integrou a Academia Brasileira de Letras na cadeira n. 24. Seu romance A Carne é a sua obra mais conhecida. Foi publicado em 1888, um ano muito importante na história do Brasil - o ano da abolição da escravatura. Ribeiro era anti-escravagista e sua oposição à escravidão pode ser verificada na análise do seu romance, que retrata a difícil situação de escravos negros no interior de São Paulo em meados do século XIX.

Na literatura, Júlio Ribeiro se posicionava como participante do movimento naturalista, cujo percursos foi o francês Émile Zola (1840-1902). Aliás, Júlio Ribeiro dedica o seu livro A Carne a Zola em um prefácio escrito por Ribeiro em francês. O naturalismo tinha como enfoque analisar o comportamento humano e social, principalmente o lado mais obscuro e primitivo do ser humano. O homem era visto como ser biológico e dotado de instintos primitivos, como os animais. A literatura teve influência do cientificismo da época, como, por exemplo, as teorias de Charles Darwin - daí a quantidade de termos científicos nos textos literários.

A Carne traz como protagonista Helena, a Lenita. Sua mãe morreu no seu nascimento e, portanto, Lenita passara a maior parte de sua vida com seu pai, que lhe proporcionara uma educação acima do normal para uma moça na época. Quando ainda jovem, seu pai morre, e Lenita decide deixar a cidade e passar um tempo na fazenda do Coronel Barbosa, amigo do seu pai. A fazenda era localizada no interior de São Paulo e devia sua produção ao trabalho escravo.



Aos poucos, Lenita se afasta dos estudos e das características da vi
da urbana, e vai se acostumando ao local rural e se conectando com o primitivismo da natureza. Ela caça animais e observa os negros, que têm uma liberdade sexual maior - diferentemente das restrições da sociedade urbana. Ela, aos poucos, se sente isolada nesta fazenda. Quando o Coronel Barbosa avisa que seu filho, Manuel, está voltando da Europa, Lenita idealiza a figura desse homem. Ele morara dez anos na Europa, onde estudara, viajara e se casara com um europeia. De volta ao Brasil, Lenita deposita os seus sonhos e desejos nesse homem. Quando ele finalmente chega à fazenda, Lenita se desaponta - vê apenas um homem velho, barrigudo e cheirando à cachaça.

Conforme o tempo passa, Lenita encontra em Manuel um companheiro de estudos a sua altura. Juntos, eles lêem livros, discutem teorias, andam pelas matas, e acabam se apaixonando. Porém, o relacionamento entre dois não seria fácil nem aceito, pois Manuel já era casado na Europa, mesmo que tivesse abandonado a sua esposa. A trama também é uma crítica à estrutura da sociedade, que não permitia o divórcio e, portanto, impedia que duas pessoas que se amassem ficassem juntas após uma delas ter se casado anteriormente. Então, Lenita e Manuel têm que escolher entre atender os desejos da carne ou aceitar as restrições que a sociedade impunha.

Não posso dizer como a trama termina a não ser que de maneira trágica e inesperada. É um romance certamente escandaloso, principalmente se lembrarmos que ele foi escrito em 1888, mais de cento e vinte anos atrás. Imagino como as pessoas da época teriam regido individualmente à leitura.

Depois que o moralismo do século XIX arrefeceu e Manuel Bandeira resgatou os escritos de Júlio Ribeiro, podemos agora voltar para esse texto com os olhos de nossa própria época, o século XXI, e perceber ali um grande romance, que discute o papel da mulher na sociedade do século XIX, a convenção do casamento e critica o trabalho escravo de maneira nua e crua. Certamente, vale a pena a leitura.

Espero que tenham gostado dessa dica de leitura. Uma ótima semana a todos e, é claro, ótimas leituras!

Fernanda

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