terça-feira, 10 de outubro de 2017

"Paris no século XX", Júlio Verne

Olá, pessoal!

Hoje venho compartilhar com vocês uma das minhas mais recentes leituras, Paris no século XX, do renomado escritor francês Júlio Verne (1828-1905). Já fazia tempo que gostaria de ler algo escrito por Verne, principalmente seus livros mais conhecidos, como Viagem ao Centro da Terra, publicado em 1864, e Vinte Mil Léguas Submarinas, de 1870. Ao pesquisar sobre o autor, fiquei pasma com a quantidade de obras publicadas por ele: mais de 50! Por isso, levarei um bom tempo para conhecer a vasta produção do francês, mas como já tinha em casa o Paris no século XX, resolvi começar por ele.

Esse é um livro que tenho na minha estante há muito tempo! É uma edição publicada pela Editora Ática em 1994. Sabe quando você observa os seus livros e surge uma vontade inexplicável de ler um dos livros que estão lá esperando para serem lidos há muito tempo? Isso acontece comigo às vezes. Portanto, quando me deparei com Paris no século XX ali, acumulando pó na estante, decidi lê-lo!

Hetzel, editor de Verne
Logo no início da leitura, o preâmbulo do editor e o prefácio escrito por Piero Gondolo della Riva, conhecedor italiano das obras de Verne, já chamaram a minha atenção. Della Riva escreve que Paris no século XX foi provavelmente escrito  em 1863, no início da carreira do francês, mas ele só foi publicado em 1989, quando o manuscrito da obra foi encontrado por um bisneto do escritor. Logo após a escrita do romance, ele foi categoricamente recusado pelo editor Pierre-Jules Hetzel (1814-1886), que havia publicado o primeiro livro do autor, Cinco Semanas em um Balão (1863).

Segundo della Riva, Hetzel não gostou dos neologismos de Verne, afirma que certos diálogos são cansativos e criticou o protagonista Michel, que mais parece "um pavão com os seus versos".

Em sua carta para Verne, Hetzel escreveu o seguinte:

"Estou desolado, desolado por ter que lhe escrever o que estou escrevendo - eu consideraria um desastre para seu nome a publicação de seu trabalho."

Della Riva, no entanto, escrevendo no final do século XX, vê qualidades na obra de Verne que podem ter escapado Hetzel em meados do século XIX. Ele afirma que - tanto ele como o leitor contemporâneo tendo passado já pelo século XX - o livro apresenta uma perspectiva interessante da visão de Verne do futuro século XX, ainda mais se compararmos com o que de fato aconteceu. Segundo della Riva, "conhecemos a Paris do século XX, e a comparação entre a realidade e as fantásticas intuições do jovem Verne não pode deixar de surpreender-nos".

Della Riva vê um caráter autobiográfico nessa obra de Verne (o filho de Verne, aliás, também se chama Michel, assim como o protagonista de Paris no século XX) e o considera "uma enciclopédia do pensamento futuro de Verne". Nesse romance, Verne tem uma visão bem pessimista do mundo, dos avanços da tecnologia e ciência e com relação à solidão do ser humano em meio a todos esses avanços.

A minha leitura do romance em si foi, portanto, influenciada por essa visão de della Riva e pela recusa de Hetzel. Tinha altas expectativas em ler um romance distópico de Júlio Verne, e confesso que me desapontei. A história não me cativou, tampouco os personagens. Ao final, já não via a hora do livro acabar e eu poder partir para outra leitura.

Michel e seu tio Huguenin
De maneira geral, o livro nos conta a história de Michel, um rapaz jovem e sonhador nessa Paris distópica do século XX: tomada pela industrialização e por um senso de praticidade, as letras e artes foram abolidas da sociedade. Ninguém mais lê, os grandes escritores franceses do século passado - como Hugo e Flaubert - foram esquecidos, e os cursos de letras abolidos do sistema educacional focado nas ciências práticas. Nesse universo, Michel, órfão de pais e sobrinho do notável Sr. Stanislas Boutardin, banqueiro e diretor da Sociedade das Catacumbas de Paris, tem que se adaptar para sobreviver. Sonhador e amante das letras, ele não se conforma com os rumos da sociedade parisiense. Sua vida ganha sentido quando conhece o pobre irmão da sua mãe falecida, o tio Huguenin, que trabalha na decadente biblioteca da cidade - que tornou-se praticamente um museu - e reascende a chama artística do garoto. Michel também reencontra o Sr. Richelot, que foi seu professor na infância, e a filha Srta. Lucy, por quem Michel se apaixona. Os quatro formam um grupinho de resistência à mecanização da cidade e da própria humanidade. O resultado, porém, não é nada positivo.

Em 1863, portanto, Verne imagina como seria a Paris de 1960. Por exemplo, o orador durante a premiação da Sociedade Geral de Crédito Instrucional elogiava o presente moderno:

"O orador prosseguia, sem vacilar. Lançou-se de corpo e alma ao elogio do presente em detrimento do passado; entoou a litania das descobertas modernas; deu mesmo a entender que, nesse aspecto, o futuro pouco teria a fazer; falou com um desprezo benevolente da pequena Paris de 1860 e da pequena França do século XIX; enumerou, com profusão de epítetos, as benfeitorias de seu tempo, as comunicações rápidas entre os diversos pontos da Capital, as locomotivas cruzando o asfalto dos bulevares, a força motriz distribuída a domicílio, o ácido carbônico desbancando o vapor de água e finalmente o Oceano, o próprio Oceano lavando com suas vagas as praias de Grenelle; foi sublime, lírico, ditirâmbico, em suma, perfeitamente insuportável e injusto, esquecendo-se de que as maravilhas do século XX já estavam presentes nos projetos do século XIX" (38-39).

Foi uma leitura lenta, mas de nenhuma forma totalmente negativa. Achei interessantes as previsões de Verne com relação ao sistema ferroviário e educacional no futuro, formas de energia e novas tecnologias. Muita coisa do que Verne previu chegou, de fato, a se concretizar, enquanto outras se mantiveram apenas na imaginação do autor. Paris no século XX é um relato fictício pessimista de uma Paris moderna mas sem arte, e que, por isso, estava fadada ao fracasso. É evidente a crítica de Verne à rápida industrialização da cidade e mecanização do trabalho, e à desvalorização das letras e artes.

Júlio Verne

Minha jornada pelos escritos de Verne apenas começou. Pretendo ler mais livros escritos pelo francês, principalmente seus livros de aventura e viagens que o tornaram imortal através das suas palavras.

Ótima semana a todos e ótimas leituras!

Fernanda



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