quinta-feira, 9 de abril de 2015

"O Imortal Mortal", Mary Shelley

Bom dia, pessoal!

Hoje escrevo para vocês sobre uma autora que há muito tempo quero ler: a filha da incomparável feminista que eu admiro muito, Mary Wollstonecraft, e criadora de uma das mais famosas histórias góticas de todos os tempos: Mary Shelley.

Mary Shelley
Shelley é mundialmente conhecida pela sua obra Frankenstein, de 1818, mas não é sobre ela que escrevo hoje. Além de romances, Mary Shelley também escreveu muitos contos, principalmente no período entre 1820 e 1830.

Mary nasceu em 30 de agosto de 1797 em Londres e morreu em 1 de fevereiro de 1851 aos 53 anos, provavelmente vítima de um tumor cerebral. Ela foi a segunda esposa do grande poeta romântico Percy Shelley, o qual encorajava as incursões de Mary pelo mundo das palavras.

Percy Shelley
Os contos de Shelley geralmente tratam de temas como a fragilidade da identidade individual e como o papel de uma pessoa no mundo pode ser radicalmente abalado por um conflito emocional interno, às vezes representado por uma ocorrência sobrenatural.

O conto que li esta semana, e que simplesmente amei, é O Imortal Mortal, escrito em 1833, que nos conta a história de Winzy, um rapaz pobre e apaixonado por Berta, uma garota pobre que havia sido adotada por uma protetora nobre, que a cobrira de jóias e sedas e a acolhera em seu castelo. Devido à disparidade social entre os dois, eles não poderiam se casar, a não ser que Winzy encontrasse alguma maneira de levantar uma fortuna. É aí que o protagonista se deixa levar pela tentadora oferta do misterioso alquimista Cornélio Agripa. Muitos o consideravam um praticante das artes do mal e, por isso, ninguém ousara aceitar a oferta de trabalhar com ele em seus estudos. Encorajado pelo dinheiro que lhe daria a mão de Berta, Winzy aceita o trabalho e por muito tempo não percebe nenhuma atividade maligna dos experimentos do velho alquimista.


Eis que um dia Cornélio estava trabalhando em um experimento muito importante, que o deixara acordado por dias a fio. Sem poder driblar o sono por mais tempo, Cornélio pede que seu assistente fique monitorando a poção enquanto ele tira um cochilo. Caso o líquido mudasse da cor rosa para uma tonalidade mais clara, ele deveria acordá-lo imediatamente. O velho ainda adverte: "Não toque no recipiente nem o coloque na boca; é um filtro, um filtro para curar o amor; você não cessaria de amar sua Berta. Atenção para não beber!"

O que o velho não sabia era que era justamente isso que Wenzy queria. Cansado dos jogos de indiferença de Berta, que havia sido prometida a outro rapaz, cuja união era abençoada por sua rica protetora, Wenzy pensou que a melhor saída para seu sofrimento era deixar de amar Berta. Neste instante, o líquido mágico muda de tonalidade e Wenzy, sem pensar, o toma nas mãos e engole metade de seu conteúdo, acordando o velho Cornélio que fica extremamente frustrado com o acontecimento.


O que a poção faz, contudo, não é eliminar o amor que uma pessoa sente. O destino de Wenzy é, dessa forma, terrivelmente modificado, pois ele se tornou imortal. A partir daí, Wenzy tem que aprender a lidar com o sofrimento ainda maior de uma alma mortal presa em um corpo imortal.

"Será que lamento? Sim, o medo da idade e da morte invade, frio, meu coração; e, quanto mais vivo, mais temo a morte, mesmo quando abomino a vida. Enigma assim é o homem - nascido para morrer - quando guerreia, como faço, contra as leis estabelecidas de sua natureza."

O elixir da imortalidade é um tema bastante recorrente na literatura ocidental, recuperado por diversos autores em diversas épocas. Acredito que isso se deve ao fascínio que esse tema exerce em nossa mente humana, sempre temendo a morte que é inevitável.


Esse texto de Shelley me cativou página após página e agora não vejo a hora de ler a sua obra-prima, Frankenstein.

Uma ótima quinta-feira a todos e boas leituras!

Fernanda


quarta-feira, 8 de abril de 2015

"A Tempestade", Kate Chopin

Boa tarde, pessoal!

Hoje resolvi escrever pra vocês sobre uma escritora que não conhecia antes, conheci seu trabalho essa semana e já me encantei. Por enquanto, só li um conto da autora, sobre o qual escreverei aqui, mas estou animada a ler mais de sua produção.

Kate Chopin
Estou falando de Kate Chopin, uma escritora norte-americana de meados do século XIX que abalou as estruturas de seu tempo. Kate nasceu em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos em 8 de fevereiro de 1850 e morreu no mesmo local no dia 22 de agosto de 1904, aos 54 anos.
Chopin é considerada uma feminista pioneira e logo após a sua morte (é sempre assim, né?) foi reconhecida como um dos mais importantes escritores do seu tempo.

Kate Chopin e seus filhos em 1877
Em 1882, seu marido morreu deixando-a com uma dívida de mais de U$12,000, o que seria hoje equivalente a aproximadamente U$250,000. Deprimida e desesperada, seu médico a aconselhou que escrevesse como atividade terapêutica e olha no que deu, Chopin tornou-se uma grande escritora, principalmente de contos.

A Tempestade é um deles, escrito em 1898, mas apenas publicado após a morte de sua autora, em 1969. Este conto é, de certa maneira, uma continuação de outro conto escrito em 1892, At the Cadian Ball, onde os mesmos personagens aparecem. No entanto, A Tempestade acabou ficando mais conhecido.


Em A Tempestade, Calixta permanece em casa enquanto seu filho pequeno e seu marido saíram. Uma forte tempestade está se aproximando e os dois se preocupam com a segurança da mulher em casa. Ela, contudo, está bem e não se sente preocupada com a força da chuva. Então, um velho conhecido seu, Alcée, entre os quais havia existido uma paixão juvenil no passado, passa por ali e pede permissão para entrar para se proteger da chuva. Hesitante, Calixta concede pois não vê outra alternativa. Juntos, eles olham através da janela, relembram dos velhos tempos e uma fagulha de amor antigo reacende nos dois. Enquanto a tempestade pior lá fora, os dois se entregam ao amor que nunca tiveram. Assim que a chuva passa, Alcée vai embora e, logo depois, o marido e filho de Calixta voltam, trazendo-a de volta ao seu papel de dona de casa, esposa e mãe. Calixta está feliz em vê-los novamente e os três têm um ótimo jantar juntos e suas risadas podiam ser ouvidas por toda a cidade.


A maneira como Chopin trata do tema de sexualidade e desejo feminino era sem precedentes em sua época e podemos imaginar a polêmica que ele deve ter causado. A mulher não tinha o direito de sentir, apenas de cumprir suas obrigações como mantenedora do lar, cuidando e dando atenção a seu marido e filhos. A mulher não tinha liberdade para ter sentimentos próprios.

Esse é um conto bem curtinho, de apenas quatro páginas, dependendo da edição, e que vale muito a pena ser lido, ainda mais levando em consideração que ele foi escrito por uma mulher no final do século XIX na sociedade conservadora norte-americana.


Boas leituras e uma ótima quarta-feira a todos!

Fernanda

terça-feira, 7 de abril de 2015

"O Castelo Encantado", Edith Nesbit

Olá, pessoal!

Hoje vou escrever para vocês sobre um livro que terminei de ler ontem à noite e cuja magia ainda está fresca em minha memória. Eu sou uma grande admiradora da literatura infanto-juvenil e, sempre que posso, gosto de ler títulos deste gênero literário, muitas vezes desvalorizado por estudiosos da área.

A literatura para jovens e crianças é mágica, cativante e é o que nos atrai à leitura em nossa infância. Todos que gostam de ler hoje em dia devem se lembrar de um livro lido quando criança e que simplesmente marcou sua vida, não é? Eu, particularmente, posso citar vários: Pollyana, de Eleanor H. Porter (e que tenho muita vontade em reler), A Espiã, de Louise Fitzhugh (sobre o qual já escrevi aqui no blog) e, claro, o divisor de águas, Harry Potter, que é uma das grandes razões pela qual estudo Literatura hoje em dia. Viu como uma leitura aparentemente inofensiva pode mudar o rumo de vida de muitas pessoas?

É por isso que dou tanto valor à literatura infanto-juvenil. Algumas semanas atrás, dando uma olhada na minha prateleira de livros, me deparei com O Castelo Encantado, de Edith Nesbit, um livro que já havia lido quando criança, mas do qual lembrava praticamente nada. A nossa memória humana é mesmo odiável, não é? Eu gostaria de poder lembrar de tudo o que já li. Seria maravilhoso, não?

Pois bem, como não é este o caso, decidi reler o livro e, não para minha surpresa porque já esperava esse resultado, adorei a história e embarquei nas aventuras de Gerald, Jimmy, Kathleen e Mabel como se eu fosse um deles. Eu me identifiquei muito com estes personagens, pois, quando criança, o que eu mais queria era encontrar um anel mágico (ou qualquer outro artefato com poderes sobrenaturais!). Eu não tive a mesma sorte que estas quatro crianças, mas, como diria Pollyana, vamos olhar para o lado positivo de tudo isso: se eu não posso ter um anel dos desejos, eu posso, ao menos, ler sobre suas aventuras!

O Castelo Encantado foi escrito pela inglesa Edith Nesbit em 1907 e encanta tanto os seus leitores de
início do século XX como os do início do nosso século. Ao saberem que sua prima está com sarampo e que, por isso, não vão poder voltar para casa nas férias, os irmãos Kathleen, Jimmy e Gerald ficam muito tristes. Como solução, seus pais decidem mandar Jimmy e Gerald (que estudavam em uma escola só para meninos) para ficar com sua irmã Kath (que estudava em uma escola só para meninas) em sua escola, já que ela estaria vazia durante o verão e a governanta francesa Mademoiselle poderia cuidar deles.

Ao explorar a região, os irmãos descobrem uma enorme mansão no terreno vizinho, linda e misteriosa como um castelo encantado! Tudo ali cheira a magia, até que eles encontram uma princesa dormindo em um banco de pedra ao centro de um labirinto de grama. É a princesa adormecida que desperta com o beijo de um dos garotos. Mentira! As crianças logo descobrem que não se trata de uma princesa de verdade e, sim, de Mabel, a sobrinha da governanta. No entanto, o anel que Mabel brincava ser mágico era, de fato, mágico e faz Mabel desaparecer! Como trazer a garota de volta à visibilidade para que ela retorne à sua tia?

Ilustração do livro
Essa é apenas uma das muitas aventuras que o anel mágico trará para as quatro crianças que, enquanto acreditarem, estarão cercadas por eventos e criaturas encantadas.

Edith Nesbit nasceu em 15 de agosto de 1858 e morreu em 4 de maio de 1924 aos 65 anos. Edith começou a publicar seus poemas com 15 anos de idade, mas só começou a escrever para crianças aos 40 anos, por cujo trabalho ficou nacionalmente, e mais tarde mundialmente, conhecida. Nesbit foi a pioneira em criar aventuras mágicas a partir de situações corriqueiras e reais do dia-a-dia, levando a magia aos olhos de quem lê. Esse seu estilo foi muito imitado por outros autores infanto-juvenis.
Edith Nesbit



Além de O Castelo Encantado, Edith publicou outras 39 histórias infantis, entre elas A história dos caçadores de tesouro (1898), Cinco crianças e um segredo (1902), A fênix e o tapete (1904), A história do amuleto (1906) e A cidade mágica (1910).


Embarquem nas aventuras encantadoras de Edith Nesbit e tenham uma ótima terça-feira!

Fernanda

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Lugares Literários - Real Gabinete Português de Leitura

Olá, pessoal!

Bom início de semana após feriado! Eu peço desculpas por não ter postado regularmente neste final de semana, eu estava viajando e não tive acesso ao computador. No entanto, minha viagem trouxe um post especial para hoje! Decidi iniciar a coluna Lugares Literários, onde irei escrever sobre aqueles lugares fantásticos que nos deixam de queixo caído, repletos de livros ou que fazem referência, de algum modo, ao mundo da literatura.
Fachada do prédio

O lugar sobre o qual resolvi escrever hoje é muito especial. Foi a segunda vez que estive lá e o seu esplendor ainda me deixa de pêlos arrepiados. Trata-se do Real Gabinete Português de Leitura, no centro do Rio de Janeiro. Quem não conhece ainda, deve conhecer! Até os que não ratos de biblioteca como eu vão gostar, eu asseguro.

O prédio em si já é uma obra de arte, projetado pelo arquiteto português Rafael da Silva e Castro, ele demorou de 1880 a 1887 para ficar pronto e sua inauguração foi no dia 10 de setembro, ocasião que contou com a presença de Princesa Isabel e seu marido, o Conde d'Eu.

A instituição já havia sido formada em 1837 por 43 imigrantes portugueses no Brasil, refugiados políticos, que queriam difundir a cultura e literatura portuguesa na, então, capital do Império. Hoje em dia, o prédio abriga a maior coleção de livros portugueses fora de Portugal, incluindo as edições príncipes (ou seja, primeiras edições) de Os Lusíadas (1572) e outros importantes livros portugueses.
É claro que o público não tem acesso a todo o acervo por questões de conservação, mas a Sala de Leitura à qual temos acesso já vale a visita. O teto tem uma enorme claraboia de vidraça decorada e um imenso candelabro que, infelizmente, estava praticamente caindo do teto, a poucos palmos do chão. Realmente, o que dói é ver a falta de cuidado com grandes monumentos da nossa história e com os livros empoeirados e se decompondo nas prateleiras.



Mesmo assim, a biblioteca mantém seu charme. Em Julho de 2014, ela foi considerada a 4ª biblioteca mais bela do mundo pela revista Times, ficando atrás apenas da Livraria Real de Copenhague, a livraria da Universidade John Hopkins em Baltimore e da Livraria Clementinum em Praga.
É ainda um pedaço da elegância do século XIX que permanece em nosso país e merece a nossa visita e nosso cuidado. Um passeio inesquecível!


Uma boa segunda-feira a todos e espero voltar em breve com mais informações sobre outros lugares literários que, como este, encantam a nós, leitores!

Um beijo,
Fernanda

sexta-feira, 3 de abril de 2015

"Cinderella", Irmãos Grimm

Olá, pessoal!



Devo confessar a vocês que fui contagiada pela magia atemporal dos contos de fadas. Ontem fui assistir ao mais recente filme da Disney, Cinderella, e voltei com os olhos marejados e o coração aquecido com essa história maravilhosa.

É claro, todos sabemos, que a Disney costuma amenizar esses contos centenários, que hoje chamamos de contos de fadas e os classificamos como literatura infantil. Mas não foi sempre assim. As primeiras versões dessas histórias eram cruelmente realistas e muito mais sinistras e menos mágicas do que a Disney insiste em nos mostrar. Mas quem não ama uma adaptação da Disney? Eu, particularmente, sou fã e tenho sido fã desde meus primeiros anos de vida.

Por isso, para mostrar a vocês o outro lado dos contos de fadas, resolvi escrever hoje sobre dois escritores que fizeram um grande trabalho organizando e registrando essas histórias, os irmãos Grimm.


Os irmãos Grimm

Os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm nasceram no final do século XVIII no Condado de Hesse-Darmstadt, atual Alemanha. Eles foram poetas, lingüistas, acadêmicos, trabalharam na elaboração do Dicionário Definitivo da Língua Alemã, mas ficaram mais conhecidos por sua compilação de contos folclóricos e tradicionais, trabalho que tomou proporções e reconhecimento universais.

Esses contos, na verdade, já existiam há muito tempo na mente das pessoas, eram fruto da tradição oral de contar histórias que passava de geração a geração. Portanto, não foram os irmãos Grimm que as inventaram, eles apenas as transcreveram para o formato escrito.
Essas histórias geralmente transmitem conhecimento ou valores para o leitor, como não confiar em estranhos, não julgar pelas aparências, ser generoso, etc. A famosa frase de início "Era uma vez..." Ajuda a tornar o conto atemporal. Ele poderia ter acontecido há duzentos anos, na semana passada ou hoje. E por isso ele cativa leitores há tanto tempo, todos nós podemos nos identificar com um conto de fada, não é?


Além dos irmãos Grimm, outros escritores também se dedicaram a compilar essas histórias da tradição oral, como Charles Perrault e Hans Christian Andersen.

A versão de Cinderella dos irmãos Grimm é um tanto quanto sombria. Após a morte a mãe da jovem, seu pai se casa logo em seguida e presencia os maus tratos da madrasta. Na versão da Disney, a figura do pai é bem mais humanizada.


Cinderella

Quando os guardas do príncipe chegam à casa de Cinderella para testar o sapatinho de cristal nas donzelas da casa, a madrasta chega a cortar os dedos do pé de uma de suas filhas e o calcanhar da outra para que o sapato entre. Mas, assim que o príncipe percebe o sangue escorrendo dos pés, ele vê que não se trata da verdadeira princesa. Cruel, não?

E o final reservado às terríveis irmãs postiças de Cinderella é bem mais merecido, digamos assim.

Cinderella e as filhas da madrasta




É uma boa diversão ler as versões "originais" desses contos e compará-los com as versões da Disney que conhecemos. E cabe a você decidir se agradece ou culpa o Sr. Walt Disney por isso! Eu, pessoalmente, agradeço! Tive uma infância bem mais encantadora!

Bom sábado e boa viagem aos reinos dos contos de fadas!

Beijos,
Fernanda

quinta-feira, 2 de abril de 2015

"Longa Jornada Noite Adentro", Eugene O'Neill

Olá, queridos leitores!

Hoje resolvi escrever para vocês sobre um gênero literário diferente, sobre o qual não se é muito falado: a peça teatral. É claro que ler uma peça não é a mesma coisa do que vê-la encenada por atores, que dão vida às palavras. Contudo, ler uma peça pode ser muito prazeroso! A leitura normalmente é curta (uma peça geralmente não passa de 3 horas) e, caso não seja possível assisti-la no palco, podemos imaginar a performance do texto, imaginando os atores que combinariam com tal ou qual personagem e a maneira como eles interpretariam cada papel.
Hoje escolhi escrever para vocês sobre uma das peças consideradas como as melhores do século XX. Trata-se de Longa Jornada Noite Adentro, de Eugene O'Neill, publicada em 1941.
O'Neill nasceu em Nova York, dentro de um quarto de hotel na Broadway, em 16 de outubro de 1888, e morreu no dia 27 de novembro de 1953, aos 65 anos, vítima de tuberculose e, ironicamente, dentro de um quarto de hotel também.
Eugene O'Neil
Seu pai era um ator irlandês e Eugene costumava viajar com sua família em turnês, portanto teve contato com o teatro desde muito cedo. Eugene tinha um irmão mais velho, James Jr., e seu irmão do meio, Edmund, havia morrido de sarampo com apenas um ano e meio de idade. Sua mãe, devido à vida difícil que levavam e, certamente, outros motivos, havia se tornado uma dependente química.
A vida de Eugene O'Neill não foi nada fácil e é este cenário, em grande parte autobiográfico, que ele retrata em Longa Jornada Noite Adentro. Esta peça é uma representação da própria vida do dramaturgo, tanto que ele apenas liberou a publicação deste texto em seu testamento, após a sua morte. Ele escreveu uma dedicatória da peça à sua esposa, que contém o seguinte trecho:
"Te presenteio o manuscrito original desta peça. Ela fala de mágoas antigas e foi escrita com muitas lágrimas e sangue."

A peça é dividida em quatro atos, cada um em um determinado momento de um dia na família Tyrone, desde o café da manhã, no primeiro ato, até meia-noite, no ultimo ato. Por isso o título, realmente é uma longa jornada noite adentro.
Assim como na família de O'Neill, o pai da família Tyrone é um ator irlandês, em fase de decadência e extremamente avarento. O próprio Eugene é representado no papel de Edmund, um jovem diagnosticado com tuberculose. Seu irmão, Jamie, vive uma vida desregrada, regada a álcool e casos com prostitutas. E sua mãe, Mary, acaba de retornar à casa depois de um tratamento de sua dependência de morfina. Ela aparenta estar melhor, mas conforme o fim do dia se aproxima, Mary volta a usar a substância e fica cada vez mais envolta em memórias do passado, até que, no último ato, ela perde totalmente a consciência devido a uma overdose e perde-se no esquecimento, que vem como um alívio para ela, mas um tormento para a sua família, já fragmentada.

A família Tyrone
Essa peça de O'Neill recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957, depois da morte do autor. É um dos melhores textos dramáticos já escritos e vale a pena ser lido! Se alguém tiver a oportunidade de assisti-la em performance, ela deve ser ainda mais emocionante! Um retrato cruel da vida real.

Boa quinta-feira e ótimas leituras!

Um abraço,
Fernanda

quarta-feira, 1 de abril de 2015

"O Anjo do Senhor", Melville Davisson Post

Olá, pessoal!

Hoje apresento para vocês um grande personagem da literatura, "um daqueles homens austeros, profundamente religiosos, gerados pela Reforma. Sempre carregava uma Bíblia no bolso para ler quando lhe desse vontade. Uma vez, na taberna de Roy, a rapaziada tentou ridicularizá-lo quando ele se sentou para ler junto ao fogo, mas nunca tentaram fazer isso de novo".

E aí, conseguiram identificar? Trata-se de um dos detetives mais originais da literatura policial norte-americana, o solteirão, gordo e barbudo que resolve os mistérios das terras do estado da Virgínia, o Tio Abner!

Melville Davisson Post em 1919
O Tio Abner aparece nas histórias detetivescas mais conhecidas do escritor norte-americano Melville Davisson Post, foram 22 ao total. Post nasceu em 19 de abril de 1869 e morreu em 23 de junho de 1930, aos 61 anos, depois de cair de seu cavalo.

Infelizmente, hoje em dia Post não é muito conhecido, a não ser por entusiastas da área de literatura policial, porém seu trabalho é de extrema qualidade. Ellery Queene, o pseudônimo coletivo dos primos escritores Frederic Dannay e Manfred B. Lee, chamou suas histórias de "fora desse mundo" e modelo para futuros escritores de contos de detetives.

Eu não conhecia o autor até então, mas li um de seus contos, sobre o qual escreverei aqui hoje, na antologia Detetives do Sobrenatural: contos fantásticos de mistério, organizada por Braulio Tavares e publicada pela Editora Casa da Palavra em 2014. Esta antologia é simplesmente demais, um conto melhor do que o outro! É um prato cheio para quem gosta de narrativas de mistério e para quem quer conhecer grandes nomes deste gênero literário, que, nesta coleção, vão desde o final do século XVIII até 2013, com um conto de Neil Gaiman.

Antologia publicada pela Casa da Palavra
O conto de Post que li, O Anjo do Senhor, publicado pela primeira vez em 1911, é considerado por muitos o primeiro texto do gênero de mistério histórico. Neste conto, e nas outras histórias com o Tio Abner, somos levadas à área rural do estado da Virgínia, povoada por trabalhadores durões, vaqueiros e grandes proprietários de terra. Naquela época não havia bancos ali, então o dinheiro tinha que ser transportado pessoalmente, o que era uma tarefa muito perigosa, pois havia sempre bandidos à espreita.

Para evitar um roubo, o irmão do Tio Abner sugere que o seu filho Martin, de 9 anos, vá em seu lugar. Abner fica receoso, mas acaba por aceitar. O menino, que, por sinal, é o narrador da história, segue a longa viagem com os alforjes pesados de dinheiro.

No meio do caminho, Martin encontra Dix, um vaqueiro conhecido da região, que fica surpreso em vê-lo por ali, ainda mais levando tamanha bagagem. Os dois seguem juntos até a taverna de Roy, onde o garoto iria passar a noite. O vaqueiro seguiu o menino e não tirou os olhos de seu fardo.

Quando todos já estavam dormindo, Martin percebeu uma luz por uma fresta do assoalho e notou que a lareira no salão havia ficado acesa. Preparando-se para descer e apagá-la, o que era a recomendação do dono do estabelecimento, o garoto percebeu que era Dix quem estava em frente ao fogo, com as mãos estendidas para alcançar o calor. No entanto, seu rosto parecia diferente, ele mostrava uma expressão diabólica.

Martin, então, percebeu a intenção de Dix e sentiu um pavor imenso ao ver que o vaqueiro subia as escadas determinado em direção aos dormitórios. Martin estava paralisado de terror, mas, felizmente, Tio Abner chegou a tempo, trazendo informações incríveis sobre o passado negro do vaqueiro.

Este conto é muito interessante porque mescla a literatura de faroeste com a literatura de mistério, e eu acho que essa combinação caiu muito bem. Normalmente, não pensamos em uma área rural como o ambiente para um crime digno de um conto à la Sherlock Holmes, porém Post o fez isso de maneira muito harmoniosa.

Esta é só uma das histórias em que Tio Abner exercita o seu raciocínio lógico. Há outras 21 que devem ser tão ou mais interessantes do que esta.

Boa quarta-feira e ótimas leituras!

Beijos,
Fernanda